quarta-feira, 9 de outubro de 2013

teste de filosofia - 10

Cotação


VERSÃO E
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Texto A
O núcleo da filosofia reside em certas questões que o espírito reflexivo humano acha naturalmente enigmáticas, e a melhor maneira de começar o estudo da filosofia é pensar directamente sobre elas. (…)
A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos.
T. Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto? Uma Iniciação à Filosofia, 1995
1 – Tendo em conta e usando o texto, esclareça em que consiste o conhecimento filosófico.

Texto B
A filosofia, se bem que incapaz de nos dizer ao certo qual venha a ser a verdadeira resposta, às várias dúvidas que ele próprio invoca, sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. (…) Embora diminua, por consequência, o nosso sentimento de certeza no que diz respeito ao que as coisas são,(…) varre o dogmatismo, um tudo-nada arrogante dos que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora (...)
Russel, B. (1980), Os problemas da filosofia. Coimbra, Arménio Amado
2 – Com base no texto B, caracterize a atitude filosófica.

Texto C
Um serviço inestimável prestada pela filosofia (…) reside no hábito, por ela estimulado, de promover-se um julgamento imparcial considerando-se todas as facetas de uma questão, e na ideia que ela oferece do que seja a evidência e de que devemos buscar ou esperar de uma prova. Pode ser esse um importante questionamento das inclinações emocionais e das conclusões precipitadas, sendo especialmente necessário, e com frequência negligenciado, em controvérsias políticas. Se ambos os lados considerassem suas diferenças políticas munidos de espírito filosófico, seria difícil admitir a eventualidade de uma guerra. O sucesso da democracia depende muito da habilidade dos cidadãos em distinguir um bom de um mau argumento, não se deixando enganar por confusões. A filosofia crítica estabelece um padrão ideal para o raciocínio correcto e capacita quem a estuda a remanejar argumentos confusos. Talvez seja esse a motivação pela qual Whitehead afirma, na passagem acima citada, que "nenhuma sociedade democrática poderá alcançar êxito sem que a educação geral que a inspire exprima uma perspectiva filosófica".
3 – Explicite, a propósito do texto C, o problema, a tese e os argumentos.

4 – Leia com atenção as seguintes questões:
a) Que elementos entram na composição da água?
b) É o homem um ser livre?
c) Qual a temperatura do núcleo da terra?
d) O que é o homem?
e) Porque tem o homem valores?
f) O pensamento depende da realidade ou a realidade do pensamento?
g) Pode o homem conceber-se como ser estritamente individual?
h) O que é a cultura?
4.1. Classifique as questões como filosóficas e não filosóficas.
4.2. Esclareça porque não é a seguinte questão uma questão filosófica: “a boa aplicação da justiça é a principal uma preocupação do ministério da justiça?”
4.3. Transforme a questão anterior numa questão filosófica.
4.4. Formule uma questão filosófica do domínio da estética.

5. Caracterizámos Filosofia com quatro características. Atribua a cada um dos temos as expressões que considera adequadas:
1. Autonomia 2. Universalidade 3. Radicalidade
  1. capacidade de cada um dar a si a lei.
  2. ser passivo face ás ideias do outro.
  3. pensar por si.
  4. aplicar a sua força.
  5. um saber dependente.
  6. uma característica inata do homem.
  7. próprio do conhecimento dos sentidos.
  8. entendimento entre todos.
  9. é da natureza partilhável das ideias dos filósofos.
  1. ir à raiz
  2. questionar indefinidamente;
  3. questionar o fundamento da(s) realidade(s);
  4. produzir afirmações que vão contra a norma;
  5. discutir tudo;
  6. pensar a origem das coisas.
  7. um pensamento que a todos diz respeito.
  8. é objectividade;
  9. é conhecimento absoluto.

6. Tendo em conta conceitos de natureza dada, natureza adquirida e de instinto, cultura, esclareça a seguinte afirmação: “a acção é decisiva para definir o que cada um é”.

7. Tenha em consideração o seguinte texto – texto C
Só é verdadeiramente humano o acto que o homem realiza enquanto homem, isto é, o acto que em si próprio transporta a marca da sua diferença específica. Ora, essa diferença é a razão ou, melhor dizendo, a racionalidade. (...)
Estes actos são, pois, próprios do homem, não apenas pela sua estrutura, mas também pela maneira como dependem do agente e é por isso que merecem, a título privilegiado, ser designados como actos humanos.
JOSEPH DE FINANCE, Éthique Général., Roma: Presses de I'Université Grégorienne, 1967, p. 31.
    1. Os actos humanos segundo o texto C, são próprios do homem “pela maneira como dependem do agente”. Esclareça esta afirmação.

  1. Indique a propósito de cada conceito quais as atribuições verdadeiras
8.1 Motivo é
  1. uma quase-causa;
  2. impulsionador;
  3. justificativo;
  4. esclarecedor;
  5. incontrolável;
  6. uma imposição
8.2. A Vontade é
  1. desejar algo;
  2. faculdade de decidir;
  3. um apetite;
  4. importante nos comportamentos automáticos;
  5. independente da consciência;
  6. um poder capaz de forçar os outros

    1. A Consciência é
  1. uma condição necessária mas não suficiente para que haja acção;
  2. a capacidade de ter presente na mente o que queremos;
  3. ter noção da intenção;
  4. é central em toda a conduta humana.
  5. É conhecer;
  6. É essencial nos actos do homem.

    1. O agente é
  1. qualquer pessoa em qualquer situação;
  2. ou pode ser um animal
  3. que concebe
  4. quem age
  5. o responsável
  6. quem faz mesmo que não conceba;
.

  1. Esclareça a afirmação: não há acção sem motivo, mas há motivo sem acção.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Elementos de Lógica para o 10.º Ano

1) Conceito - representação mental abstrata que sintetiza o essencial relativo a um conjunto de seres (aluno) ou relativo a um ser particular ( o João).
O termo é a expressão do conceito - e a sua concretização verbal.

2) Juízo - operação intelectual que relaciona dois conceitos de forma afirmativa ou negativa, sendo um o sujeito e o outro o predicado (atributo).
A proposição é a expressão do juízo - é a sua concretização verbal.
A proposição é sempre e só uma frase declarativa, por isso é que o seu valor lógico é o de verdade ou de falsidade. A proposição é verdadeira ou falsa porque faz uma declaração sobre a realidade e essa  é verdadeiro ou é falsa.

3) Raciocínio - operação intelectual que relaciona proposições dadas (as premissas) de forma a extrair um nova proposição (a conclusão).
Um raciocínio quando expresso chama-se argumento.
Um Argumento não é verdadeiro nem falso, mas sim válido ou inválido.


3.1) Raciocínio dedutivo - operação intelectual que em função das premissas dadas serem verdadeiras tem de concluir necessariamente uma proposição verdadeira.

Podemos ter um argumento DEDUTIVO Válido em que:
a) todas as proposições (premissas e conclusão) são verdadeiras
b) todas as suas proposições (premissas e conclusão) são falsas.
c) as premissas são falsas e a conclusão verdadeira.

Não podemos ter um argumento dedutivo válido com premissas verdadeiras e conclusão falsa. Este sendo impossível não é exemplificável.

Exemplo de b)
Todos os alunos são seres que gostam de lógica.
Nenhum ser que gosta de lógica é humano.
Logo, nenhum humano é aluno.

Exemplo de c)
Todos os peixes nadam rápido   (Falso)
As baleias são peixes.                 (Falso)
Logo, as baleias nadam.              (Verdade)


O que é um raciocínio NÃO DEDUTIVO?
EXEMPLO DE RACIOCINIO NÃO DEDUTIVO: RACIOCÍNIO INDUTIVO.








quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um filme sobre Hannah Arent - uma filosófa que pensou e teorizou o totalitarismo


A mulher com cabeça

  • Hannah Arendt
  • De: Margarethe von Trotta
  • Com: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer
  • Género: Drama, Biografia
  • Classificacao: M/12

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Uma interpretação extraordinária de Barbara Sukowa no filme mais importante agora em exibição entre nós: retrato de mulher e filme de ideias sobre um tempo que passou.

Envolto nas roupagens levemente nostálgicas de uma Nova Iorque académica e afluente, mitificada pelos bons ofícios do cinema, Hannah Arendt pode ter um leve aroma de “filme fora de tempo”, ou não identificássemos a sua autora, a veterana alemã Margarethe von Trotta, com a vertente mais interventiva do cinema alemão dos anos 1970. E é obra que recorda, com saudade e sem saudosismo, um tempo em que havia espaço e disponibilidade para o, e entusiasmo pelo, pensamento. Um tempo em que a cultura, a arte, a literatura não eram apenas palavras vãs, mas sim algo que tinha um impacto prático, quotidiano.

Encarnada de modo extraordinário por Barbara Sukowa, Hannah Arendt é uma mulher fiel apenas ao seu intelecto e aos seus amigos, que se recusa a diluir ou adoçar o seu raciocínio apenas para ser politicamente correcta. Arendt bem pode querer separar as águas do pessoal e do profissional mas o affaire Eichmann e a sua noção de rigor intelectual imparcial apenas vieram sublinhar a lição que o seu professor, Martin Heidegger, aprendera tarde demais: a vida real e a vida da mente não são a mesma coisa e há que escolher e assumir as consequências. O pensamento da filósofa pode ter afectado o mundo, mas exigiu um preço pessoal - e é também aí que Von Trotta e Sukowa ganham o filme, ao recusar “separar as águas” e pintá-la como alguém intocável, ao tornar Hannah Arendt numa apaixonante meditação sobre o pensamento como algo de profundamente cinematográfico, até sedutor e sexy - e melhor “filme de recrutamento” para pôr a cabeça a mexer é difícil de imaginar.


 Banksy invade as ruas de Nova Iorque

Durante todo o mês de Outubro o icónico e polémico artista de rua britânico vai residir em Nova Iorque, pintando as suas paredes. Na terça-feira, surgiu a primeira peça, com a irónica inscrição: “o graffiti é crime.”
O número 18 da Allen Street
AQUELE QUE É PROVAVELMENTE O ARTISTA DE RUA MAIS CONHECIDO DO MUNDO, O MISTERIOSO GRAFFITER INGLÊS BANKSY, ACABA DE COLOCAR EM MARCHA UM AMBICIOSO PROJECTO PELAS ARTÉRIAS DE NOVA IORQUE. INTITULADO BETTER OUT THAN IN, FOI DIVULGADO ESTA QUARTA-FEIRA, COMO HABITUALMENTE, DE FORMA ENIGMÁTICA, NO SEU SÍTIO DA INTERNET, EMBORA DIAS ANTES, ALGUNS POSTERS NAS RUAS DE LOS ANGELES INDICIASSEM QUE ALGO ESTAVA PARA ACONTECER.

E no que consiste o projecto? Durante todo o mês, diferentes zonas da cidade acolherão novas obras do artista natural de Bristol, Inglaterra, cuja identidade ninguém conhece. Será uma espécie de grande exposição a céu aberto. A primeira obra já se pode ver no número 18 da Allen Street, a meio caminho entre o Lower East Side e Chinatown. Pintada sobre um muro, a peça mostra uma criança empoleirada sobre as costas de outra, com uma lata de spray de um sinal onde se pode ler: “o graffiti é crime.” Mas o projecto não se fica por aí.

(...)  http://www.publico.pt/cultura/noticia/banksy-invade-com-ironia-as-ruas-de-nova-iorque-1607801


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Questões filosóficas e Questões não filosóficas

Tarefa
Procurando distinguir questões filosóficas de questões não filosóficas, considere as frases.
A partir de duas colunas, agrupe-as em pares de forma a contraporem-se

1) Comuns a todos os homens 

2) São questões de facto

3) Têm carácter existencial

4) Não afectam o sentido da existência de quem as dá

5) Pedem respostas racionalmente argumentadas

6) São questões de valor

7) Pedem resposta empiricamente comprovada

8) Questões que permitem uma única resposta

9) Questões gerais e abstractas

10) Apresentam respostas particulares

11) Próprias de alguns homens

12) Questões sobre fenómenos concretos

13) Questões que possibilitam respostas diversas

14) Pedem respostas objectivas

15) Procuram o como

16) Apresentam respostas subjectivas

17) Visam respostas universais

18) Questões sobre o sentido

19) Questões sobre o funcionamento

20) Procuram o porquê


Solução

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Compreender e explicar - Edgar Morin

Há duas formas de compreensão: a compreensão intelectual ou objectiva e a compreensão humana intersubjectiva. Compreender significa intelectualmente apreender em conjunto, com-prehendere, abraçar junto (o texto e seu contexto, as partes e o todo, o múltiplo e o uno). A compreensão intelectual passa pela inteligibilidade e pela explicação.
Explicar é considerar o que é preciso conhecer como objecto aplicar-lhe todos os meios objectivos de conhecimento. A explicação é, bem entendido, necessária para a compreensão intelectual ou objectiva.
A compreensão humana vai além da explicação. A explicação é bastante para a compreensão intelectual ou objectiva das coisas anónimas ou materiais. É insuficiente para a compreensão humana.

Esta comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. Por conseguinte, se vejo uma criança chorando, vou compreendê-la, não por medir o grau de salinidade de suas lágrimas, mas por buscar em mim minhas aflições infantis, identificando-a comigo e identificando-me com ela. O outro não apenas é percebido objectivamente, é percebido como outro sujeito com o qual nos identificamos e que identificamos connosco, o ego alter que se torna alter ego. Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projecção. Sempre intersubjectiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade.

Edgar Morin, Os sete saberes necessários à educação do futuro


sábado, 7 de setembro de 2013

Rebater um argumento por 20 mil dólares

Blog da Crítica

Rebater um argumento por 20 mil dólares


Eis o argumento:

“A moral e os valores dependem da existência de mentes conscientes — e especificamente do facto dessas mentes poderem experimentar várias formas de bem-estar e de sofrimento neste universo. 

Mentes conscientes e os seus estados são fenómenos naturais, totalmente delimitados pelas leis do universo (sejam elas o que vierem a ser). 

Portanto, as questões de moral e dos valores devem ter respostas certas e erradas no âmbito da ciência (em princípio, se não na prática). 

Consequentemente, alguns povos e culturas estarão certos (em maior ou menor grau), e alguns estarão errados, no que diz respeito ao que consideram ser importante na vida.”

Este argumento é apresentado por Sam Harris no seu livro "The Moral Landscape" e aqui é lançado o desafio para que o rebatam.

A melhor resposta será publicada e receberá um prémio de 2 mil dólares e quem o convencer que está errado, receberá um prémio de 20 mil dólares.

E o nosso leitor, aceita o desafio?

Fonte: http://blog.criticanarede.com/

terça-feira, 23 de julho de 2013

O que é a ética? - resposta de Peter Singer

O que a ética é: uma perspectiva
O que se segue é um esboço de uma perspectiva da ética que concede à razão um papel importante nas decisões éticas. Não se trata da única perspectiva possível da ética mas é uma perspectiva plausível. Mais uma vez, porém, terei de passar por alto reservas e objecções merecedoras de um capítulo próprio. A quem pensar que estas objecções não discutidas invalidam a posição que defendo apenas posso dizer, de novo, que todo este capítulo pode ser tratado como nada mais do que um enunciado dos pressupostos em que este livro se baseia. Desse modo, contribuirá pelo menos para dar uma imagem mais clara da forma como encaro a ética.
O que significa emitir um juízo moral, discutir uma questão ética ou viver de acordo com padrões éticos? Como diferem os juízos morais de outros juízos práticos? Por que razão achamos que a decisão de uma mulher de fazer um aborto levanta uma questão ética, o mesmo não acontecendo com a sua decisão de mudar de emprego? Qual é a diferença entre uma pessoa que vive de acordo com padrões éticos e outra que não procede assim?
Todas estas questões estão relacionadas, pelo que basta considerar uma delas; mas, para isso, precisamos de dizer algo acerca da natureza da ética. Suponhamos que estudámos a vida de diversas pessoas e que sabemos muita coisa no que respeita ao que fazem, àquilo em que acreditam, etc. Será que podemos, nesse caso, determinar quais as que vivem de acordo com padrões éticos e quais as que não o fazem?
Poderíamos pensar que a forma de proceder, neste caso, é identificar quem pensa que mentir, enganar, roubar, etc., é um mal, e não faz tais coisas, por um lado, e quem assim não pensa, não se coibindo de fazer tais coisas, por outro. Então, as pessoas pertencentes ao primeiro grupo viveriam de acordo com padrões éticos e os do segundo não. Mas este modo de proceder assimila erradamente duas distinções: a primeira é a distinção entre viver de acordo com aquilo (que nós pensamos) que são os padrões éticos correctos e viver de acordo com aquilo (que nós pensamos) que são os padrões éticos errados; a segunda é a distinção entre viver de acordo com alguns padrões éticos e de acordo com nenhuns padrões éticos. Quem mente e engana mas não pensa que o que faz é um mal, pode estar a viver de acordo com padrões éticos. Pode pensar, por um motivo qualquer, que mentir, enganar, roubar, etc., é um bem. Não vive de acordo com padrões éticos comuns, mas pode viver segundo outros padrões éticos.
A primeira tentativa para distinguir o ético do não ético redundou num erro, mas podemos aprender com os nossos erros. Chegámos à conclusão que temos de conceder que quem segue convicções éticas não convencionais vive, mesmo assim, de acordo com padrões éticos, se pensar, por qualquer motivo, que o que faz é um bem. A condição a itálico dá-nos uma pista para a resposta que procuramos. A noção de viver de acordo com padrões éticos está ligada à noção da defesa da forma como se vive, de dar uma razão para tal, de a justificar. Assim, uma pessoa pode fazer todo o tipo de coisas que consideramos um mal e, mesmo assim, continuar a viver de acordo com padrões éticos, se for capaz de defender e justificar o que faz. Podemos achar a justificação pouco adequada e continuar a pensar que as acções são um mal, mas a tentativa de justificação, bem sucedida ou não, é suficiente para trazer o comportamento dessa pessoa para o domínio do ético, em oposição ao não ético. Quando, por outro lado, uma pessoa não consegue encontrar uma justificação para aquilo que faz, podemos rejeitar a sua pretensão de que vive de acordo com padrões éticos, mesmo que aquilo que faz respeite princípios morais convencionais.
Podemos ir mais longe. Se aceitarmos que uma determinada pessoa vive de acordo com padrões éticos, a justificação deve ser de determinado tipo. Uma justificação exclusivamente em termos de interesse pessoal, por exemplo, não serve. Quando Macbeth, contemplando o assassínio de Duncan, admite que apenas a «ambição desmedida» o leva cometê-lo, está a admitir que a acção não pode justificar-se eticamente. «Para eu poder ser Rei em seu lugar» não é uma tentativa frágil de justificação ética para o assassínio, não é o tipo de razão que conta como justificação ética. É necessário mostrar que as acções motivadas pelo interesse pessoal são compatíveis com princípios éticos de base mais ampla para serem defensáveis, porque a noção de ética traz consigo a ideia de algo mais vasto do que o individual. Se eu quiser defender o meu comportamento com fundamentos éticos, não posso assinalar apenas os benefícios que tal comportamento me traz. Tenho de me preocupar com um grupo mais vasto.
Desde a antiguidade que os filósofos e os moralistas têm expresso a ideia de que o comportamento ético é aceitável de um ponto de vista que é, de alguma forma, universal. A «regra de ouro» atribuída a Moisés, que se encontra no livro do Levítico e foi subsequentemente repetida por Jesus, diz que devemos ir para além do nosso interesse pessoal e «amar o nosso semelhante como a nós mesmos» ou, por outras palavras, atribuir aos interesses alheios a mesma importância que damos aos nossos próprios interesses. A ideia de nos pormos no lugar dos outros está associada à outra formulação cristã do mandamento, segundo a qual devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que eles nos fizessem a nós. Os estóicos defendiam que a ética decorre de uma lei natural universal. Kant desenvolveu esta ideia na sua famosa fórmula: «Age apenas segundo as máximas que possas ao mesmo tempo querer que se tornem leis universais.» A teoria de Kant, por sua vez, foi modificada e desenvolvida por R. M. Hare, que vê a universalizabilidade como uma característica lógica dos juízos morais. Hutcheson, Hume e Adam Smith, filósofos ingleses do século xviii, apelaram para um «espectador imparcial» imaginário como pedra de toque do juízo moral; a sua versão moderna é a teoria do observador ideal. Os utilitaristas, de Jeremy Bentham a J. J. Smart, consideram axiomático que, ao decidir sobre questões morais, «cada qual vale por um e ninguém por mais de um», enquanto John Rawls, um importante crítico contemporâneo do utilitarismo, incorpora essencialmente o mesmo axioma na sua própria teoria, deduzindo princípios éticos fundamentais de uma escolha imaginária na qual aqueles que escolhem não sabem se serão beneficiados ou prejudicados pelos princípios que escolhem. Até mesmo filósofos do continente europeu, como o existencialista Jean-Paul Sartre e o especialista em teoria crítica Jürgen Habermas, que diferem em muitos aspectos dos seus colegas de expressão inglesa — e também entre si —, concordam que, em certo sentido, a ética é universal.
Poderíamos argumentar interminavelmente sobre os méritos de cada uma destas caracterizações da ética; mas o que têm em comum é mais importante do que as suas diferenças. Todas concordam que não se pode justificar um princípio ético relativamente a qualquer grupo parcial ou local. A ética adopta um ponto de vista universal. Não quer isto dizer que um determinado juízo ético tenha de possuir aplicação universal. Como vimos, as circunstâncias alteram as causas. Significa, isso sim, que, quando fazemos juízos éticos, vamos para além de preferências e aversões. De um ponto de vista ético, é irrelevante o facto de ser eu o beneficiário de, digamos, uma distribuição mais equilibrada do rendimento e outra pessoa a prejudicada. A ética exige que nos abstraiamos do «eu» e do «tu» e que cheguemos à lei universal, ao juízo universalizável, ao ponto de vista do espectador imparcial ou do observador ideal, ou o que lhe quisermos chamar.

Será que podemos usar este aspecto universal da ética para dele deduzir uma teoria ética que nos oriente sobre o bem e o mal? Os filósofos, dos estóicos a Hare e a Rawls, tentaram-no; mas nenhuma tentativa obteve aceitação geral. O problema é que, se descrevermos o aspecto universal da ética em termos simples e formais, um grande leque de teorias éticas, incluindo algumas totalmente irreconciliáveis, tornam-se compatíveis com esta noção de universalidade; 

Peter Singer Ética Prática. Lisboa, Gradiva

terça-feira, 16 de julho de 2013

A matemática é uma realidade psíquica ou uma realidade independente da mente?

Este problema é já velhinho, e é um problema filosófico.

Notícia do Diário de Notícias

A matemática existe no universo ou no cérebro?

por Lusa, publicado por Ana MeirelesHoje38 comentários

Cientistas estão a discutir se as propriedades das entidades abstratas, como números, figuras geométricas ou símbolos, e as suas relações, são uma propriedade do universo ou uma interpretação humana da realidade, segundo um artigo divulgado hoje.
O Instituto Kavli do Cérebro e da Mente, com sede em Oxnard (Califórnia, EUA), publicou as opiniões de neurocientistas que debatem se a matemática, que descreve e prognostica o que no rodeia os seres humanos, desde a estrutura helicoidal do ADN às espirais das galáxias, existe no universo ou é a forma com que a mente humana compreende o universo.
"Os números não são propriedades do universo, refletem sim o suporte biológico com o qual as pessoas compreendem o mundo", segundo o chileno Rafael Núnez, professor de ciência cognitiva da Universidade da Califórnia (San Diego).
O professor de neuropsicologia cognitiva da Universidade College de Londres, Brian Butterworth, que colabora com Núnez nesta investigação, defendeu que "os números não são, necessariamente, uma propriedade do universo, mas sim uma forma muito poderosa de descrever alguns aspetos do universo".

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=3324852

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ética e robótica

Há mais de meio século, Isaac Asimov em seu livro de ficção "Eu, Robô” percebeu a necessidade da criação de regras éticas para definir o comportamento dos robôs. Desde sua proposição, as Três Leis da Robótica se firmaram no senso comum como o principal exemplo de modelo de comportamento artificial. São elas:
. 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
. 2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

. 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

Diversos autores de ficção, incluindo o próprio Asimov, exploraram ambiguidades nas Três Leis da Robótica criando situações indesejadas decorrentes de sua utilização. Asimov ainda imaginou uma quarta lei, chamada de Lei Zero, a qual deveria preceder as outras:
. Um robô não pode ferir a humanidade, ou por falta de ação, permitir que a humanidade sofra algum mal.
Muitas obras da ficção baseiam-se nas Leis da Robótica. Dentre elas, muitas obras de Asimov, como o “O Homem Bicentenário”, onde o robô Andrew é programado segundo as leis, e “Eu, Robô”, onde o supercomputador VIKI reinterpreta as leis decidindo subjugar os humanos para protegê-los de sua natureza auto-destrutiva.

No filme Aliens, de 1986, o andróide Bishop serve a tripulação de sua nave segundo a primeira lei de Asimov, ao contrário de Ash, androide do filme Alien, de 1979, que para cumprir sua missão, decide matar toda tripulação.

Em Robocop, de 1987, um ciborgue é construído a partir do corpo de um policial morto em serviço, e programado para seguir três leis similares às Leis de Asimov: servir à população, proteger inocentes e cumprir a lei. Porém, existe uma quarta diretiva secreta, que garante sua submissão aos seus chefes, mesmo implicando na quebra de alguma das outras leis. Contudo, no clímax do filme sua natureza humana consegue desobedecer esta lei (o que nunca ocorreria com robôs reais). Ainda no mesmo filme, é mostrado um resultado perigoso de autonomia em robôs, quando o protótipo de robô policial ED-209 entra em mau-funcionamento durante uma demonstração e acaba assassinando uma pessoa.
Apesar de as leis parecerem adequadas em um primeiro momento, existe uma série de problemas decorrentes da utilização de um conjunto pequeno de regras para guiar o comportamento de um indivíduo. Por exemplo, um robô teria a capacidade de perceber se uma pessoa está sendo ferida? Então ele poderia interromper uma cirurgia evitando que um médico realizasse uma incisão? Como ele poderia analisar o contexto de uma situação para decidir?
Quanto a sempre obedecer ordens dados por humanos, desde que nenhum mal seja causado, surge a dúvida se é adequado que um robô siga qualquer ordem que lhe seja dada por qualquer pessoa. Pode ocorrer de alguém ordenar uma tarefa sem propósito e isso acabar impedindo o robô de executar uma atividade possivelmente mais relevante. Outra questão é que em muitas ocasiões, medidas tomadas por humanos podem ser piores do que aquelas que robôs tomariam. No entanto, ao permitir a um robô a execução facultativa de ordens, abre-se um precedente para insubordinação total entre máquina e homem, como tratado em muitas obras.
Visto que criar um conjunto de regras para definir um comportamento ético é muito complexo, uma alternativa para a construção de robôs morais seria permitir a um robô aprender o comportamento ético, da mesma forma que crianças ao crescer aprendem quais comportamentos são morais. Alan Turing respalda essa idéia no artigo “Can Machines Think?” de 1950, onde é dita a seguinte frase:

“Ao invés de tentar produzir um programa para simular a mente adulta, por que não tentar produzir um que simule a mente de uma criança. Se ela for sujeita a um processo de ensino apropriado, então obteremos o cérebro adulto.”
Isto implica em introduzir conceitos de evolução e aprendizado de máquina no desenvolvimento do robô permitindo que o próprio tenha a capacidade de construir o seu comportamento.
Por outro lado, técnicas evolutivas nem sempre levam a formação de comportamentos éticos. Em 2009, em um experimento feito na Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça, robôs programados para cooperar na busca de recursos relativamente escassos aprenderam a mentir uns para os outros com a finalidade de não dividir os recursos encontrados.   

fonte

Robóticaficção e ética - ufrgs


Universidade Federal Rio Grande do Sul

Ética aplicada - ética e Robôs


ONU propõe ética para robôs assassinos

Por , de INFO Online

• Sexta-feira, 31 de maio de 2013 - 18h17

Acima, uma robô em forma de mosquito: esse dispositivo, se armado, pode matar inocentes, diz a ONU
São Paulo - A Organização das Nações Unidas, a ONU, divulgou um documento para questionar a criação e a construção de Robôs Autônomos Letais (LARs). Esses robôs, capazes de matar pessoas ou destruir alvos, usam inteligência artificial para descobrir quem são seus inimigos e matá-los em seguida.
De acordo com a ONU, os fabricantes desses robôs ainda não deixaram claro se a tecnologia pode fazer distinção entre alvos militares e civis. Além disso, também não ficou claro se o robô é “sensível o suficiente” para entender uma bandeira branca (de rendição) ou se o inimigo é uma criança.
Hoje, a ONU acredita que os Estados Unidos, Israel e Inglaterra possuem um pequeno exército de robôs prontos para guerra.
A entidade questiona ainda quem será responsabilizado caso um robô faça um massacre de inocentes numa guerra. A entidade deixa claro que os tribunais não julgam máquinas, mas sim pessoas, portanto, precisa ficar claro quem são os donos dos robôs num eventual conflito.
Enquanto essas questões não são resolvidas, a ONU pede que a criação dos LARs seja paralisado, até que haja uma legislação para isso, além de mecanismos que permitam localizar os donos dos exércitos de robôs.
Segundo Christof Heyns, relator especial da ONU para execuções extrajudiciais, essa suspensão é necessária para que se crie um documento sobre a ética do uso dos Robôs Autônomos Letais em guerras ou conflitos armados.

Fonte:
http://info.abril.com.br/noticias/ti/onu-propoe-etica-para-robos-assassinos-31052013-44.shl
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Filosofia e Cinema


A Filosofia no Cinema

FERNANDO MENDONÇA*
“O cinema é a forma contemporânea da arte”
Marilena Chauí

INTRODUÇÃO
Por que estudarei aqui a filosofia no cinema, e não o cinema na filosofia?
Elaborei o tema de modo que o cinema ocupe a posição de objeto fundamental para
estudo e dele a filosofia se torne ponto de apoio. No cinema, a filosofia surgirá como
conseqüência, proveniente dos pensamentos do diretor.
Analisarei temáticas diversas formulando ligações com filmes e filósofos, até o
ponto principal que será uma análise particular do filme “2001-Uma Odisséia no
Espaço”(Kubrick,1968); também nesse filme conectarei os temas diversos para que
haja um fio condutor entre os pensamentos. Como não poderia deixar de ser, minha
opinião estará freqüentemente presente em tudo que será abordado. Citarei uma lista de
filmes no decorrer do trabalho em que se baseia meu estudo filosófico.
Seria muito fácil partir em busca de uma análise em filmes como “O Nome da
Rosa”(Annaud,1986) que trazem a filosofia estampada para que qualquer um a possa
identificar, portanto, não foi esse o caminho que escolhi. Quero fazer deste trabalho um
guia para filmes que aparentem ser mero entretenimento, ou de valor exclusivamente
artístico. Nessas obras há filosofia. Pois ela não existe apenas nos que a declaram
abertamente, mas há casos em que a filosofia está na essência de algo que parece
despretensioso.

Continua...  http://www.ipv.pt/millenium/Millenium29/17.pdf

Exame Nacional de Filosofia e Critérios de Correção

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Trabalho Individual

 “A Filosofia e o Sentido – Existe sentido para a vida? Que sentido tem a vida?” 

Com este ensaio, pretendo discutir a tese de Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo existencialista. O existencialismo, é atribuído a Søren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês do século XIX. Para Kierkegaard, o homem, como indivíduo, é o único responsável em dar significado à sua própria vida, assim como a vivê-la de forma apaixonada e sincera. Esta corrente filosófica desenvolveu-se entre as duas grandes guerras mundiais, que dominaram e marcaram a primeira metade do século XX, principalmente no contexto europeu. A colocação de questões existenciais, dá-se nos períodos mais “negros” e devastadores da Humanidade. Percebe-se, assim, o desenvolvimento desta corrente filosófica num dos períodos mais destruidores da História da Humanidade. Atualmente, também vivemos um período mais “negro”, sendo este um dos motivos da escolha do tema. O existencialismo é uma corrente filosófica que busca o conhecimento da realidade através da experiência imediata da própria existência, destacando a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade. O sentido da filosofia existencialista pode ser esclarecido em três pontos: 1.A irredutibilidade do indivíduo (afirma a originalidade da existência individual. O verdadeiro e primário é o indivíduo e não o todo); 2. A existência como liberdade (a estrutura da existência não é o pensamento, mas a liberdade absoluta, que não está submetida ou ligada a algo. Deste modo, o homem não tem uma essência ou natureza, sendo, no seu melhor, a “invenção” da sua própria liberdade); 3. A fenomenologia como método (a fenomenologia – reflexão de um fenómeno – é o método de análise da existência e, sendo como liberdade o principio fundamental, estabelece o sentido do real e de si mesma).
De uma maneira geral, os filósofos da existência, pensam o indivíduo como uma realidade irredutível e único. O homem é um ser condicionado, situado no mundo, que não se reduz ao pensamento, englobando todas as dimensões do indivíduo: a razão, a emoção, a vontade, as circunstâncias com que se depara, etc. O homem constitui uma existência singular e subjetiva, estando em constante construção. Cada homem, mediante a sua liberdade, escolhe os seus valores, construindo-se como indivíduo e procurando dar sentido à sua existência e à realidade. O existencialismo consiste nos princípios acima referidos.

Desenvolvimento – Tese da teoria existencialista de Jean-Paul Sartre
Em 1946, Jean-Paul Sartre publicou o ensaio “O Existencialismo é um Humanismo”, oferecendo uma resposta sobre a pergunta: “o que é o existencialismo?”, visto que, na opinião de Jean-Paul Sartre, a expressão “existencialismo” estava a ser vulgarizada e mal empregue. Sartre procurava, também, responder às críticas dos católicos e dos marxistas (apesar de Sartre também ser marxista), que incriminavam o existencialismo de deixar o homem num estado de gratuidade, onde tudo é permitido, pois se não existe Deus não há como nos condenarmos uns aos outros, e de “obscurecer o lado luminoso da vida”, criando um descompromisso com a solidariedade e estagnando a ação social.
Sartre começa por explicar que usa o vocábulo “humanismo” no sentido de que toda a ação passa pela subjetividade, como o homem é subjetivo, toda a ação é humana. Segundo a teoria existencialista, o homem, ao deparar-se com algo injusto, pensa “isto é humano”. Apesar desta ideia parecer uma visão pessimista, esta é na verdade uma conceção otimista, segundo Sartre, isto é: se é humano, pode-se ou não realizar o dito ato, visto que não há nada além do homem, que o coage a optar por certo ato.
Neste ponto, Sartre explica a ideia de que a existência antecede a essência, pressuposto defendido tanto pela vertente católica, como pela vertente ateia do existencialismo. No início da sua explicação, Sartre expõe a ideia oposta, comparando o homem a um objeto fabricado. No fabrico de qualquer objeto, é necessário ter um modelo ou um protótipo, que definirá o produto. Deste modo, a essência antecede a existência (o modelo/protótipo antecede o produto fabricado). A partir deste ponto, as duas escolas existencialistas diferenciam-se, tendo diferentes maneiras de continuar a explicar a ideia da existência anteceder a essência. A escola católica defende que existe um Deus criador, que “produz” o homem, no seu projeto divino, por conseguinte, a essência de todos os homens é diferente e única, pois foi concebida por Deus. Sartre, apologista do existencialismo ateu (que não admite a existência de Deus), defende que, por conseguinte, a existência humana antecede a essência. O homem existe no mundo, surge no mundo, para depois se definir como pessoa, no seu processo de crescimento. Aliás, o homem só pode dizer o que é a humanidade, depois do próprio homem existir, por isso, apenas se pode julgar a partir daquilo que já está feito. Em suma: o homem é aquilo que existe, isto é, o homem é aquilo que faz. Contudo, o homem não pode responsabilizar a natureza, pela sua existência, porque não há nada que determine o comportamento do homem. Ou seja, o homem faz-se a si próprio, tendo total liberdade para escolher aquilo em que se torna (a sua essência). Assim, nada justifica os atos humanos, sejam eles “bons” ou “maus”. O homem está condenado à sua própria escolha.
Sartre afirma “o homem antes de mais nada é um projeto que se vive subjetivamente”. O homem é, assim, responsável pelas suas decisões e pelos seus atos. Como consequência, o homem não é aquilo que idealizou ser, mas sim o projeto resultante das escolhas e dos atos que são da responsabilidade do próprio homem. Contudo, expressando a ideia de que o homem é responsável por si mesmo, o existencialismo ultrapassa a ideia da subjetividade do indivíduo, que os críticos do existencialismo querem atribuir-lhe. Isto acontece porque, quando o homem escolhe que tipo de homem ser, este julga como todos os homens devem ser (baseando-se no princípio de que o homem quer o seu próprio melhor). Deste modo, o homem está “condenado” à subjetividade humana, sendo o homem responsável por toda a humanidade.
Neste momento, Sartre explicita a ideia existencialista de “angústia”. Segundo Sartre, o homem, ao entender que as suas escolhas atingem não só a si, mas a toda humanidade, fica assombrado com a responsabilidade dos seus atos, sentindo-se angustiado. Consequencialmente, apenas o “homem de má fé” consegue disfarçar a angústia, disfarçando a sua responsabilidade e atribuindo-lha a outrem. Nesta atribuição de responsabilidade, o homem está a escolher a mentira, não só para si próprio (a sua existência) como para a existência de todos os outros homens. Deste modo, o homem que nega a angústia, tem na dita angústia, a sua própria forma de existir. Sartre refere ainda que o homem sente e sentirá, sempre, angustia em qualquer momento de decisão e responsabilidade, porque esta decisão implica o abandono de todas as outras vias e opções. Com isto, Sartre volta a afirmar que o homem tem total liberdade para escolher aquilo em que se torna (a sua essência). Considerando a liberdade como único fim moral, Sartre afirma que, se alguém nega a dita liberdade, esse alguém pode ser julgado como “covarde”.
Sendo o homem totalmente livre nas suas escolhas, qual o papel da moral na corrente existencialista? Sartre defende que existem dois tipos de moral. A moral cristã defende que o homem deve seguir o caminho “mais duro” (Sartre não entende qual é o caminho “mais duro”). Já a ética moral, defendida por Kant, afirma que o homem deve tratar as pessoas como fim, e nunca como um meio. Contudo, para Sartre esta visão também levanta problemas, pois o homem, escolhendo algo como fim, tratará as outras opções como meios. Segundo Sartre, não é o sentimento que determina a nossa escolha pela moral a ser seguida. Justificar uma ação pelo sentimento terá seu valor apenas depois de o ato ser realizado pelo homem. Portanto não nos podemos guiar pelos nossos sentimentos, na escolha das ações. Desta forma, também não existe uma moral que guie o homem, pois o homem é livre nas suas escolhas. Cada escolha, implica um compromisso com toda a humanidade. Ao escolher um projeto, o homem opta por determinada moral.
Nesta altura, Sartre explica como vê a proposição fundamental cartesiana: cogito, ergo sum (penso, logo existo). Para Sartre, significa que o outro é a condição para a existência do homem, e que sem o reconhecimento do outro, o homem não é nada. Segundo a interpretação de Sartre, para o homem se conhecer, é necessário que o outro o reconheça, antecipadamente. Sartre afirma que mesmo não havendo essência, para toda a existência humana há uma condição: “a priori, há um conjunto de limites que esboçam a situação do homem no universo”.
Conclusão
Por fim, Sartre justifica a razão do seu existencialismo ser um humanismo (.O “seu” existencialismo é humanista, por ser o homem o único obreiro das suas ações. Sartre também justifica a sua teoria como existencialista, porque o homem, ao se projetar para fora de si próprio, acaba por se projetar no mundo. Deste modo, o homem tem sempre a possibilidade de se superar a si mesmo, tendo a constante liberdade de se reinventar.
Um dos maiores focos da tese de Jean-Paul Sartre é que apesar de todas as diferenças humanas, o que o homem fará de si próprio é uma questão em aberto. Deste modo, se características diferenciadoras vão ser convertidas em obstáculos ou vantagens, desafios a superar ou desculpas para nada fazer, cabe ao homem, optar, na liberdade (único fim moral) das suas decisões e da sua existência, que antecede a sua essência.
Bibliografia

  • Livro: Paiva, Marta; Tavares, Orlanda; Ferreira Borges; José (2012) “Contextos 11”. Porto Editora
  • Internet:http://criticanarede.com/existencialismo.html; http://www.philosophy.pro.br/existencialismo.htm; http://www.cdcc.usp.br/ciencia/artigos/art_26/sartre.html; http://pt.wikipedia.org/wiki/Existencialismo.

    Eduardo
    11.º C

SERRALVES EM FESTA 2013 - este fim de semana

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