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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Poesia e Hume


um poema

Poema de um matemático e poeta que nos recorda o problema da indução colocado por Hume e a relação entre pensar e ser...

AURORA

Nada garante
que o Sol nascerá amanhã
a não ser o costume
essa razão estatística
do inevitável.


que se o Sol não nascesse
não havia amanhã.


Joaquim Namorado

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Hume - sentimento, gosto e padrão de gosto

David Hume

O sentimento está sempre certo –porque o sentimento não tem outro referente senão ele mesmo e é sempre real, quando alguém tem consciência dele. Mas nem todas as determinações do entendimento são certas, porque têm como referente algumas coisas para além delas mesmas, a saber, os factos reais e nem sempre são conformes a esse padrão. Entre mil e uma opiniões que pessoas diferentes podem ter a respeito do mesmo assunto, há uma e apenas uma que é justa e verdadeira e a única dificuldade é encontrá-la e confirmá-la. Pelo contrário, os mil e um sentimentos despertados pelo mesmo objecto são todos certos, porque nenhum sentimento representa o que realmente está no objecto. Ele limita-se a observar uma certa conformidade ou relação entre o objecto e os órgãos ou faculdades do espírito e, se essa conformidade realmente não existisse, o sentimento jamais poderia ter ocorrido. A beleza não é uma qualidade das próprias coisas, existe apenas no espírito que a contempla e cada espírito percebe uma beleza diferente. É possível até uma pessoa encontrar deformidade onde uma outra vê apenas beleza e qualquer indivíduo deve concordar com o seu próprio sentimento, sem ter a pretensão de regular o dos outros.
(...)
Embora as pessoas com gosto refinado sejam raras, facilmente as distinguimos em sociedade pela solidez do seu entendimento e pela superioridade das suas faculdades relativamente ao resto da humanidade. O ascendente que adquirem faz prevalecer a viva aprovação com que acolhem quaisquer obras de génio e torna-a geralmente predominante. Entregues a si próprios, muitos homens têm apenas uma vaga e duvidosa percepção da beleza, mas ainda assim são capazes de se deleitar com qualquer obra de qualidade que se lhes aponte. Todo aquele que se converte à admiração do verdadeiro poeta ou orador é a causa de uma nova conversão. E embora os preconceitos possam prevalecer durante algum tempo, nunca se unem para rivalizar com o verdadeiro génio – acabam por ceder perante a força da natureza e o justo sentimento. Assim, embora uma nação civilizada possa enganar-se facilmente ao escolher o seu filósofo de eleição, nunca erra prolongadamente na sua afeição por um autor épico ou trágico favorito.
Mas apesar dos nossos esforços em fixar um padrão do gosto e em reconciliar as discordantes impressões das pessoas, restam ainda duas fontes de diversidade, as quais não são suficientes para eliminar todas as fronteiras entre beleza e deformidade, embora sirvam frequentemente para produzir diferenças no grau de aprovação ou censura. Uma reside nas diferenças de humor de cada pessoa; a outra nos costumes e opiniões próprios da nossa época e do nosso país.
David Hume, Do Padrão do Gosto

quinta-feira, 18 de março de 2010

O problema da causalidade

O PROBLEMA DO FUNDAMENTO EPISTEMOLÓGICO DA CIÊNCIA É CENTRAL NA CULTURA CIENTÍFICA

O problema da CAUSALIDADE assume especial relevo pelo facto de deixar o conhecimento Científico - expressão do que podemos conhecer do mundo racionalmenmte - sem um fundamento RACIONAL. Sem um fundamento LÓGICO. A sua base tem pés de barro. O seu fundamento, o seu principio, é só PSICOLÒGICO: o HÁBITO.

Não encontrando FUNDAMENTO QUE IMPONHA aos acontecimentos CONEXÃO NECESSÁRIA temos na SUCESSÃO CONSTANTE o fundamento EPISTEMOLÓGICO da ciência.

Isto não deixa a ciência distinguir-se do conhecimento do homem do dia-a-dia - Senso Comum.

terça-feira, 16 de março de 2010

Indução e conhecimento: o problema epistemológico da indução - 3

Isaque Tomé

Se todas as ideias derivam de impressões qual a impressão originária da ideia de causa?

Esta questão assume importância por duas razões:
1) a causalidade é um dos 3 modos de articular ideias;
2) a causalidade compreende a conexão necessária entre fenómenos e que supostamente está presente na natureza e no conhecimento que o homem pode ter desta.


Posto isto, vamos ao pensamento de Hume.
Hume vai submeter o princípio da causalidade a uma análise crítica rigorosa, baseando-se na teoria do conhecimento já nossa conhecida.

O princípio de causalidade defende uma conexão necessária entre dois fenómenos ou acontecimentos.
Afirmar que A é a causa de B significa que verificando A podemos prever B.Isto permite-nos antecipar com toda a garantia lógica: acontecendo A o fenómeno B não pode deixar de acontecer. Mas, assim estamos a falar de um facto futuro que ainda não aconteceu. É aqui que Hume diz que ultrapassamos o que a experiência nos permite conhecer.


A constatação que Hume nos apresenta é a de que aquilo que afirmamos ser causa e ser efeito são dois factos inteiramente distintos. Não existe um impressão correspondente e originária da ideia de causalidade. O que temos são impressões. Uma impressão do fenómeno A, uma impressão do fenómeno B e uma impressão da sucessão temporal de B face a A. Mas nada disto é a impressão de causalidade. Aliás no post anterior é patente que o quem não tem experiência da associação entre fenómenos não consegue prever esse mesmo fenómeno

O conhecimento de A não exige o conhecimento de B, a não ser que no passado o tivessemos constatado.
Ou seja, cada um deles nada tem de si que exija necessariamente o outro.
Nós apenas conhecemos o que percepcionamos no momento e o que percepcionámos no passado, não podemos ter conhecimento de factos futuros, porque não podemos ter qualquer impressão sensível do que ainda não aconteceu.

☼ A ideia de relação causal, de uma conexão necessária entre dois fenómenos é uma ideia da qual não temos qualquer impressão sensível. Como o critério de verdade de um conhecimento factual é que a uma ideia corresponda uma impressão sensível não temos legitimidade para falar de uma relação causal entre os dados da nossa experiência. Logo, a ideia de causalidade é uma mera associação de ideias, aquilo que nós percepcionamos é uma sucessão de acontecimentos.

☼ Segundo Hume, a previsão surge de dois fenómenos psíquicos:
a) a partir do costume e do hábito de ver os fenómenos associados repetidamente no passado e
b) pela crença na regularidade da natureza, que permite crer que o futuro ocorra tal como o passado.
☼ O princípio da causalidade considerado um princípio racional e objectivo nada mais é do que uma crença subjectiva, o produto de um hábito, o desejo de transformação de uma expectativa em realidade. Assim, não há garantia de que se possa fazer ciência, não há conhecimento verdadeiro, objectivo mas, meramente circunstancial, relativo.
Assim, podemos concluir o seguinte: a ciência não tem um suporte lógico (necessidade lógica dos fenómenos) mas um suporte psicológico (hábito), pelo que a ciência não produz conhecimento seguro.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Indução e conhecimento: o problema epistemológico da indução - 2

Resposta - continuação - ao post anterior


Esse princípio é o costume, o hábito. Porque, todas as vezes que a repetição de uma operação ou de um acto par¬ticular produz uma tendência para renovar o mesmo acto ou a mesma operação sem o estímulo de qualquer raciocínio ou exercício da razão, dizemos sempre que essa tendência é resultante do costume. Ao usarmos este termo, não estamos a afirmar que apresentámos a causa última de uma tal tendência. Limitamo-nos a apontar um princípio da natureza humana, universalmente reconhecido e bem conhecido pelos seus efei¬tos.
(...)
Seguramente, temos pelo menos aqui uma afirmação bastante inteligível, senão uma verdade, quando sustentamos que, após a ligação constante entre dois objectos - calor e chama, por exemplo, ou peso e solidez - somos levados, unicamente pelo costume, a esperar por um quando surge o outro. Parece que esta hipótese é a única que explica a dificuldade; porque tiramos a partir de mil casos uma conclusão que seríamos incapazes de tirar a partir de um único caso, o qual não difere em nenhum aspecto dos precedentes? A razão é incapaz de se dispersar de semelhante forma. As conclusões que tira ao considerar uma circunferência são as mesmas que tiraria ao examinar todas as circunferências do universo.
Mas, se se viu um só corpo mover-se sob impulso de um outro, ninguém inferirá que um outro corpo se movimentará sob um impulso análogo. Todas as conclusões tiradas da experiência são, pois, efeitos do costume e não efeitos do raciocínio.
Então, o costume é o grande guia da vida humana. É esse o único princípio que faz com que a nossa experiência nos sirva, é apenas ele que nos faz esperar, para o futuro, uma sucessão de acontecimentos semelhantes aos que tiveram lugar no passado. Sem a acção do costume, ignoraríamos completamente qualquer questão de facto fora do que está imediatamente presente à memória e aos sentidos. Nunca sabe¬ríamos como ajustar os meios face aos fins, nem como utilizar os nossos poderes naturais para produzir um efeito. Isso seria, simultaneamente, o fim de qualquer acção, bem como prati¬camente de toda a especulação.»
David Hume, Investigações sobre o entendimento humano, secção V

domingo, 14 de março de 2010

Indução e conhecimento: o problema epistemológico da indução

Qual será o princípio que nos permite INDUZIR, segundo Hume?

«Suponham que um homem, não obstante dotado das mais poderosas faculdades da razão e da reflexão, é subita¬mente transportado para este mundo; certamente, notaria de imediato uma contínua sucessão de objectos, um aconteci¬mento seguindo-se a outro; mas, seria incapaz de se aperceber de algo diferente. Em primeiro lugar, seria incapaz de chegar à ideia de causa e de efeito através de qualquer raciocínio, porque as capacidades específicas que realizam todas as ope¬rações naturais nunca são evidentes para os sentidos; e não é legítimo concluir, somente porque um acontecimento pre¬cede um outro numa única ocasião, que é causa e o outro, efeito. A sua ligação pode ser arbitrária e acidental. Não há razão para inferir a existência de um a partir do aparecimento do outro. Em resumo: um homem como esse, sem outra experiência, nunca faria conjecturas ou raciocínios acerca de qualquer questão de facto; não estaria seguro de nada excepto do que está imediatamente presente à sua memória e aos seus sentidos.
Suponham ainda que este homem adquiriu mais expe¬riência e viveu tempo suficiente no mundo para ter obser¬vado a ligação constante entre objectos ou acontecimentos habituais; que resulta desta experiência? Ele infere imediata¬mente a existência de um dos objectos e o aparecimento do outro. Todavia, não adquiriu, através de toda a sua experiên¬cia, qualquer ideia, qualquer conhecimento do poder secreto pelo qual um dos objectos produz o outro; e não é através de qualquer exercício da razão que ele é levado a tirar esta conclusão. Mas é sempre levado a tirá-la; e, mesmo se se convencesse de que o seu entendimento não tem qualquer papel na operação, prosseguiria, no entanto, no mesmo fluxo de pensamento. Há um outro princípio que o leva a extrair uma tal conclusão.
David Hume, Investigações sobre o entendimento humano, secção V

terça-feira, 8 de setembro de 2009

um poema

Poema de um matemático e poeta que nos recorda o probema da indução colocado por Hume e a relação entre pensar e ser...

AURORA

Nada garante
que o Sol nascerá amanhã
a não ser o costume
essa razão estatística
do inevitável.


que se o Sol não nascesse
não havia amanhã.


Joaquim Namorado