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segunda-feira, 5 de março de 2012

Informação, conhecimento e realidade

 
Opinião

Editorial de José Gil: O vazio das não-notícias

05.03.2012 - 07:48 Por José Gil
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José GilJosé Gil (Foto: Daniel Rocha)
 Vivemos num país desconhecido. Por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida. Quantas doenças psíquicas foram desencadeadas pela crise? Quanta energia vital se desperdiça na fabricação da imagem de um rosto jovem necessário exigido por tal profissão? São "dados" incognoscíveis ou imateriais, não susceptíveis de se tornarem informação. São não-notícias.
O Público deu-nos a possibilidade, neste número, de fazer aparecer esse avesso do estado da nação, levantando uma ponta do véu que o recobre e o esconde. Não se tratou, pois, de informar ou de desinformar, mas de fazer pensar diferentemente no país que temos e na informação que dele dispomos.

Ordenámos a não-informação em três categorias: o que é impossível conhecer (por exemplo, aquele factor decisivo, singular, único do "talento", que não entra numa grelha de avaliação de competências de um aluno), mas é condição essencial para que se ordene de modo inteligente, ético e eficaz a informação que se conhece; o que não se conhece mas que se poderia e deveria conhecer (o número de mortes estimado por atraso na lista de espera de uma operação) para o fazer entrar numa decisão política ou outra; o que seria possível conhecer mas que se torna impossível saber porque o seu conhecimento poria radicalmente em questão o regime das nossas sociedades pós-democráticas (por exemplo, o número de políticos corruptos). As inúmeras perguntas que fizemos aos organismos competentes receberam não-respostas, confirmando a ideia de um vazio obrigatório de informação: na secção "Pobreza" os dados recolhidos não permitem um plano de combate exaustivo e eficaz à pobreza; na secção "Política" a ausência de números oficiais sobre os políticos que detêm depósitos em offshores indica que a transparência nesse domínio subverteria o nosso regime político; e assim por diante.

O nosso país está demasiado "cheio" (de informações, imagens, bugigangas de toda a espécie) e quanto mais se enche mais se enterra o vazio essencial a que não se dá a importância que tem. Acreditamos que a informação que, por definição, vive da positividade do dado, do pleno, que nos enche os olhos e o cérebro criando a ilusão de pensamento, pode ser tratada de outra forma. A massa de informação a que hoje temos acesso contribui para uma espécie de visão global que faz da realidade um conjunto de coisas e factos objectivos - de que decorre ao mesmo tempo a despoetização do mundo e um crescente caos afectivo. Contra isso, acreditemos nas virtudes do vazio.

O que fizemos - em trabalho extraordinário de equipa - sugere a possibilidade e a necessidade de traçar um mapa de Portugal que mostre os trajectos duplos, de um pleno que constantemente atropela e exclui o vazio; e dos movimentos do vazio que abrem linhas de fuga, incita a pensar diferentemente, desencadeia poderosas forças de criação. Não estamos condenados ao que julgamos que nos condenaram. Só assim poderemos conceber reformas radicais que libertem as energias e mudem o país.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Espaço Publico e Espaço Privado: Limites e vantagens dos Media

Sara Gamelas
11.º A

O ser Humano é um ser social em que essa sociabilidade está presente desde o momento que se nasce até que morre. A sociedade que acolhe o Homem tem uma cultura própria que nos transmite um modo específico de pensar, sentir e agir. Assim como na família existem pontos de vista diferentes e regras impostas pela autoridade dos pais, também na sociedade nos deparamos com regras e normas com intuito de garantir o bem de todos. Para tal, são definidos não apenas os direitos de cada um, como também os deveres, ou seja, o que podemos receber e o que temos que dar à sociedade. Só com regras, normas e leis é que se torna possível formar uma sociedade organizada e estável que promova o bem colectivo.
O Homem integrado na sociedade é por natureza como citava Aristóteles, um “animal político”. Isto significa, a forma como devemos reflectir acerca da nossa situação social, como nos organizamos dentro de um espaço comum na qual devemos ser práticos ao longo da vida enquanto cidadãos. Ser cidadão significa aquele que habita na cidade em que usufrui de direitos civis e políticos incutidos nela. Na democracia ateniense antiga, o cidadão era considerado um homem livre com capacidade de se auto governar, de participar nas decisões públicas da sociedade com o objectivo de determinar as suas obrigações naturais ligadas á sua subsistência e á da sua família. Deste modo os filósofos identificaram a existência de duas esferas na vida do Homem, privada e pública.
Espaço público e privado são dois conceitos utilizados de forma distinta de que os antigos usavam. Enquanto ser livre e dotado de consciência moral, com a capacidade de decidir e de liberar responsavelmente a sua individualidade, isto é, espaço privado. No entanto, cada vez que o indivíduo age de forma a interferir no seio da colectividade remete-nos para o espaço público. Assim, no espaço privado o individualismo procura o melhor para si, visto este ser onde efectuamos a nossa introspecção pessoal sem o intuito de o publicitar pois somente se reflecte acerca das ideias de forma a alimentar o espaço publico, enquanto que neste o Homem procura o bem para todos pois potencia a reflexão privada publicitando-a e tornando-a comum. Neste contexto predomina a liberdade de expressão de forma a deliberar, discutir, dando-lhe sentido tornando possível o nascimento do político. Assim o espaço público sobrepõe-se ao privado pelo facto de permitir ao Homem a realização da sua natureza política.
Estes dois conceitos de espaço permitiram ao Homem reflectir no sentido ético-politico. O conceito de ética não é de todo inseparável da política visto a ética se designar pela arte de escolher o que mais convém ao Homem com o objectivo de viver o melhor possível. Por sua vez, a política organiza a convivência social de forma a que cada individuo escolha o que mais beneficie. Contudo há diferenças importantes de salientar pois a ética ocupa-se do que a própria pessoa faz com a sua liberdade e a politica tenta determinar a forma mais conveniente de pôr em prática a liberdade.
A liberdade Humana pode ser influenciada por os media. Estes caracterizam-se por toda a comunicação jornalística sendo a informação que entra diariamente em nossas casas. As suas principais virtudes são a argumentação e a persuasão pois o domínio da comunicação visa persuadir o auditório de modo a utilizar uma linguagem o mais simples possível para ser entendido por qualquer indivíduo, ou seja, permite a adequação da informação ao público mais singular. No entanto, há também limites, manipulam e seduzem de forma a convencer o auditório de que a informação transmitida é a mais correcta e a mais benéfica (Exemplo: Relógio usado por uma figura pública transmite ao auditório que este é o melhor a ser utilizado). Porém, a informação que nos é transmitida não permite qualquer tipo de reciprocidade, ou seja, é – nos difícil aceder ou confrontar os media com a veracidade da informação disponível. Devido a essa dificuldade o auditório interpreta a informação como sendo verdadeira, isto significa que o auditório vive na ilusão, pois como sabemos nem toda a informação que nos é dada é justificada.
Este facto verifica-se, por exemplo, na teoria de K. Popper, o falsificacionismo que nos transmite que a partir da análise de fenómenos lógicos do processo indutivo concluímos que por maior que seja o número de observações particulares não há justificação racional para a sua generalização a todos os casos. Deste modo o grande objectivo deste modelo é de refutar as teorias e eliminar progressivamente os erros. Consequentemente as teorias que resistirem às tentativas da falsificação são consideradas teorias corroboradas e aceites provisoriamente.
Em suma, os media são portadores de privatização, obedecem a leis de mercado de oferta, ou seja, toda a informação reverte-se para a necessidade dos indivíduos e não do espaço público, pois temos como consequência o privilégio de satisfazer os interesses particulares de cada um, ou até mesmo do próprio jornal. Isto significa que os media visam satisfazer e enriquecer o intelecto de cada um. Contudo estes interferem na reflexão pessoal e possivelmente na decisão individual.
No meu ponto de vista os media têm um papel imprescindível no espaço público no sentido da transmissão da informação que possibilita o aumento do nosso conhecimento. No entanto, a maneira que nos transmitem a informação nem sempre é o mais correcto pois preocupam-se com a linguagem utilizada simplesmente com o intuito de despertar interesse, desejo ou emoção ao leitor

domingo, 6 de junho de 2010

O PROBLEMA DA INFORMAÇÃO

Ana Filipa Moleiro
11ºA nº2

Frequentemente ouvimos dizer que vivemos na Era da informação. Vivemos num mundo globalizado onde qualquer facto que tenha acontecido chega em pouco tempo ao outro canto do mundo. Temos a possibilidade de saber em qualquer instante o que está a acontecer, o que aconteceu e até previsões do que acontecerá. No entanto, será que podemos designar por informação tudo aquilo que nos chega?
Esta globalização é, sem dúvida, uma consequência evidente da evolução e desenvolvimento exponencial dos media. Os media estão, hoje em dia, completamente inseridos no nosso quotidiano. Uma pessoa que não veja o telejornal durante uma semana nem que leia um jornal torna-se numa pessoa que parece que não vive no nosso mundo. Os media constituem o melhor sistema de informação que se possa conceber. Uma teia apertada cobre a superfície do globo, capta e transmite imediatamente os acontecimentos .
Contudo, embora os media sejam o melhor sistema de transmissão de informação, será que aquilo que transmitem é de facto informação? Para conseguirmos responder a esta questão, penso que deveríamos começar por definir o que é informação, uma vez que se tentarmos responder a um problema sem dominarmos aquilo que está em causa então a sua resolução será impossível. Desta forma, definir informação torna-se crucial para que prossigamos com uma possível resposta.
Segundo Claude Elwood Shannon, um engenheiro electricista e matemático americano que é considerado o fundador da Teoria da Informação, informação é tudo aquilo que reduz a incerteza. Desta forma, então tudo aquilo que nos é fornecido através dos media será informação se conseguir reduzir as incertezas. Como nos apercebemos facilmente, estamos então rodeados de quantidades absurdas de artigos que nos são tantas vezes apresentados como informação, mas que, na verdade, não o são.
A designação de Era da Informação está assim errada, uma vez que o que temos não é informação e sim uma explosão de dados e factos que, isoladamente, não têm significado e não produzem compreensão.
Esta falsa informação que nos é revelada é facilmente explicada pela necessidade de vender. Como é evidente, um jornal não tem futuro se não conseguir lucrar, e, para isso, é necessário vender jornais. Ora, para que tal aconteça, é necessário que aquilo que é publicado seja do interesse da população.
Torna-se assim imperativo colocar a seguinte questão: Se os jornais nos bombardeiam de artigos que não são informação e mesmo assim os compramos ou se os jornais com menos informação são os mais vendidos, então o que está mal?
Podemos imediatamente inferir que aquilo que está mal é a sociedade. O que condiciona e conduz a esta falta de verdadeira informação é o facto de a própria sociedade a apreciar e a desejar. Todos criticam as revistas cor-de-rosa, mas a verdade é que cada vez existem mais. Todos criticam certos canais de televisão pelos seus deploráveis telejornais ou outros programas, mas a verdade é que as audiências não param de subir. Coloca-se assim um problema que não apresenta um fim. Como é que se há-de resolver o problema da falta de verdadeira informação se grande parte da sociedade gosta dessa não-informação e nem sequer procura a verdadeira? Entramos assim numa questão que apenas se torna resolúvel se se reeducar a sociedade, se se criar na sociedade novamente o interesse pelo verdadeiro conhecimento.
Porém, terei eu, enquanto indivíduo e, nós, considerando as pessoas que partilham a mesma opinião que eu, o direito de criticar e julgar essas pessoas? Embora essa não-informação não leve a uma redução das incertezas, que direito tenho eu de dizer que é pior do que aquilo que eu considero informação? Cada pessoa possui critérios valorativos diferentes, dá importância a coisas diferentes. Se, vivendo numa democracia e considerando que todas as pessoas são livres e iguais em dignidade e em direitos, Dotados de razão e de consciência , como posso eu dizer que aquilo que valoram é menos importante?
Aparentemente, teria que ir contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contudo, talvez não seja necessário fazê-lo e talvez até a própria declaração nos ajude a resolver a questão.
É evidente que não podemos criticar as pessoas por gostarem de saber isto ou aquilo que não é realmente informação. No fundo, todos nós gostamos de nos divertir, de relaxar e esquecer o trabalho e, de facto, muita da suposta informação que passa tem um certo carácter lúdico. Contudo, temos que ter consciência de que isso não é verdadeira informação e perceber que para além do mero entretenimento temos que conhecer o que realmente informa. Assim como está escrito nos Direitos Humanos que todos os homens são livres, também está escrito que todos os homens são dotados de razão e consciência, mas, para isso, é necessário que de facto percebam que necessitam de verdadeira informação e não meros factos que os distraiam. O culto da mera diversão, da despreocupação com o importante, intimamente ligado à ausência de inquietações culturais verdadeiras, provoca a perda do centro de gravidade das hierarquizações humanas .
O homem que não se questiona, que não procura saber, é um ser alienado, despossuído de cultura, que se guia pela coordenada da indiferença produzida pela saturação de antagonismos3. Ora, a humanidade tem sofrido um desenvolvimento fantástico, será que queremos, nós, século XXI, parar esta sinergia?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A TV (e a net?), a palavra e a in-capacidade de pensar

A rádio, o cinema e a televisão fizeram desaparecer radicalmente a distância que o leitor é obrigado a observar quando lê um texto imprimido – distância que exigia a assimilação de carácter privado, sendo ao mesmo tempo a condição necessária de uma esfera pública onde tinha lugar uma troca reflectida sobre o que se tinha lido. Os novos media transformam a estrutura da comunicação enquanto tal; o seu impacto é, nessa medida, mais penetrante, no sentido literal do termo, que não foi nunca aquela da Imprensa. O comportamento do público transforma-se também sob o constrangimento do “don´t talk back”*, dado o facto das emissões, tal como são difundidas pelos novos media, reduzirem singularmente a possibilidade que os seus destinatários têm de reagir, o que não se verifica em tal grau com as informações imprimidas. Os novos media cativam o público dos espectadores e dos auditores, retirando-lhes ao mesmo tempo toda a «distância emancipadora (Mündigkeit)», isto é a possibilidade de tomar a palavra e de contradizer. O uso que o público dos leitores fazia da sua razão tende a esfumar-se em prol das simples «opiniões de gosto e inclinação» que alteram os consumidores: e mesmo o facto de se falar daquilo que consumimos, essa «contra-prova das experiências do gosto», é integrado no próprio processo de consumo.
Esse universo produzido pelos mass media não tem senão a aparência de uma esfera pública; assim como é igualmente ilusório que permaneça intacta a esfera privada que ela deveria garantir aos seus consumidores.»

Habermas, Jürgen, L´espace public, Archéologie de la publicité comme dimension constitutive de la sociéte bourgeoise, Éditions Payot, Paris, 1992, p.179