quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Falsidade e Mentira

Débora Pereira - nº5 10ºA
Diferença entre mentira e falsidade.


Alguém diz que algo não é verdade. Logo aseguir, alguém interrompe e diz: "É mentira!"
Será realmente assim? Será que por não ser verdade, é automaticamente uma mentira? Não necessariamente. Quando algo não é verdadeiro pode ser: sim, uma mentira, mas também pode ser uma falsidade.
Qual é a discreta difrença que existe entre estes dois conceitos?
Quando é considerada uma mentira e quando é considerada uma falsidade?
É considerada uma falsidade, quando a sentença proferida não corresponde aos factos reais de um modo inconsciente ou involuntário. Ou seja: é quando alguém afirma algo que pensa ser verdadeiro na ignorância dos factos reais, e que mais tarde essa afirmação é provada como falsa.
Ao contrário da falsidade, a mentira é algo propositado, com o objectivo de que o receptor da mensagem tome o falso como o verdadeiro e o verdadeiro como o falso.
Uma ilustração que nos ajuda a entender esta difrença é: por exemplo quando alguém me pergunta as horas e eu digo: "São 2h25", quando na realidade, sem eu saber, tenho o relógio atrasado e são 2h30. Neste caso não estou a mentir, mas a minha afirmação não é verdadeira. Agora se eu sei que são 2h30 e quando alguém me pergunta, insisto em dizer que são 2h25, aí eu estou a mentir.
A ilustração tirada do comentário do Fórum: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090425213005AAJiA74

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Validade e Verdade

Trabalho de grupo - Acção Humana

Objectivo central do trabalho: Idntificar e articular as características essenciais da acção humana. Desenvolver competências de interpretação e de discursividade.

Tarefas-problema centrais:
A) Responder à seguinte questão: o que é a acção humana? A resposta deve ser dada discursivamente entre 15 a 40 linhas.
B) Em que medida a acção é específica do homem?
C) Criar um mapa conceptual que articule os conceitos centrais e e sirva de apresentação aos colegas.

Tarefas parcelares:
1) Para responder às questões centrais deve responder às seguintes questões específicas:
a. O que distingue o fazer do acontecer?
b. O que distingue o fazer do agir?
i. O que é isso de consciência?
ii. O que é isso de intenção?
iii. O que é isso de vontade? O que distingue a decisão da deliberação?
iv. Como distinguir vontade de desejo?
v. O que é isso de motivo? Como relacionar motivo com projecto ou finalidade?
vi. Como podemos distinguir motivo de causa?
vii. Como podemos articular estes 4 conceitos?
c. O que são condicionantes da acção? As condicionantes são determinantes?

1. A especificidade humana do agir:
1.1. O que nos acontece e o que fazemos
1.2. Acção voluntária: o papel da consciência e da vontade na caracterização dos actos humanos.
1.3. Análise da complexidade agir: a rede conceptual da acção
- Motivo, intenção e finalidade
- Consciência e vontade
2. A crença na liberdade e as condicionantes da acção humana.
3. O agente: liberdade e responsabilidade.

Temporização: a desenvolver em 3 aulas e a apresentar numa 4.ª aula.

Grupos de 3 alunos, p.p.
i) Trabalho escrito:
Texto: Times 12, 1,5 espaço. Páginas: discurso: máximo de 4 A4; Mapa conceptual: 1 página.
ii) Trabalho apresentado aos colegas: entre 10 minutos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Compreender e Explicar


Edgar Morin - Os sete saberes necessários à educação do futuro. Editora Piaget

Há duas formas de compreensão: a compreensão intelectual ou objectiva e a compreensão humana intersubjectiva. Compreender significa intelectualmente apreender em conjunto, comprehendere, abraçar junto (o texto e seu contexto, as partes e o todo, o múltiplo e o uno). A compreensão intelectual passa pela inteligibilidade e pela explicação.
Explicar é considerar o que é preciso conhecer como objecto aplicar-lhe todos os meios objectivos de conhecimento. A explicação é, bem entendido, necessária para a compreensão intelectual ou objectiva.
A compreensão humana vai além da explicação. A explicação é bastante para a compreensão intelectual ou objectiva das coisas anónimas ou materiais. É insuficiente para a compreensão humana.
Esta comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. Por conseguinte, se vejo uma criança chorando, vou compreendê-la, não por medir o grau de salinidade de suas lágrimas, mas por buscar em mim minhas aflições infantis, identificando-a comigo e identificando-me com ela. O outro não apenas é percebido objectivamente, é percebido como outro sujeito com o qual nos identificamos e que identificamos connosco, o ego alter que se torna alter ego. Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projecção. Sempre intersubjectiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade.

O Mundo de Sofia

Romance de Jostein Gaarder

Um bom livro para conhecermos, enquanto nos divertimos, as grande ideias produzidas pelos filósofos e pensadores nos últimos 2500 anos

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Consciência - António Damásio




António Damásio
A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar
22.09.2010 - Ana Gerschenfeld

Há dez anos, em "O Sentimento de Si", o neurologista português António Damásio explicava pela primeira vez a sua visão de como o cérebro humano constrói a consciência. Agora, em "O Livro da Consciência", volta ao mesmo tema, mas com uma "receita" muito mais apurada e onde mistura ingredientes que até aqui tinham ficado esquecidos nas gavetas das neurociências. Com a vibrante prosa que o caracteriza e o profundo enraizamento das suas ideias na arquitectura e nas aflições cerebrais, conta-nos a emergência da consciência no cérebro humano como nunca a tínhamos ouvido contar.
http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=265790

Questões Filosóficas

Como Reconhecer as Questões Filosóficas?

☼ Possuem carácter existencial, pois a resposta que se lhes dá configura e manifesta uma forma de ver o mundo, o homem, a vida, e afecta ou tem implicações na forma como o homem age e vive.

☼ Não têm solução científica ou técnica. A sua resposta não se encontra usando uma metodologia científica, de testagem empírica, por isso podemos dizer que não se reduzem a fenómenos observáveis ou a informações que se possam obter. A sua resposta implica a reflexão filosófica.

☼ Não são questões de facto, onde a resposta é directa e empiricamente constatável. São sim questões que colocam problemas ao nível do dever ser, dos valores.

☼ Ultrapassam o campo da legalidade jurídica e colocam o problema da legitimidade e dos valores morais.

☼ Traduzem-se em interrogações gerais e abstractas que ultrapassam o âmbito individual e particular, e permitem respostas racionais.

- Abstractas porque, apesar de serem efectuadas por indivíduos particulares,
a) não incorporam os interesses pessoais nessas mesmas questões;
b) não dizem respeito a uma situação concreta, afastando-se do circunstancialismo que as pode ter provocado.

- Gerais porque têm a pretensão de ser por todos entendidas e partilháveis. Mesmo sabendo que a resposta é subjectiva podemos dizer que tem a pretensão de ser universal.

☼ São interrogações abertas, pois
a) possibilitam respostas divergentes,
b) não há soluções únicas, nem definitivas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Definição de Filosofia - 2

O Objecto da Filosofia:
Começamos por fazer uma comparação com o objecto da ciência para melhor compreendermos o objecto da filosofia. Qualquer ciência se define pelo seu objecto (a área de estudo), por exemplo o objecto da biologia é a vida e a base da geradora dos seres vivos, a célula, a química a molécula, a sociologia o comportamento social.
Facilmente podemos perceber que cada ciência tem como objecto fenómenos que correspondem a partes da realidade. Até mesmo se considerarmos o homem como objecto ele pode sê-lo da psicologia, da sociologia, da antropologia, da medicina, etc. Ora a filosofia não tem um objecto no sentido científico do termo, pois o seu objecto não é uma área circunscrita e parcelar do real.
O seu objecto é a totalidade. A totalidade não é a soma de tudo o que existe, mas o sentido que, pela razão, o homem confere à realidade.
Dar um sentido à totalidade é dar um sentido ao real, é fundamentar e procurar a essência última do real.

Que realidade é esta abordada como totalidade?
A totalidade - universo: Qual a essência e o sentido do universo?
A totalidade – homem: Qual a essência, natureza e sentido do homem?
A totalidade – conhecimento: o que é o conhecimento? Qual a sua natureza? Quais as formas de conhecimento? O conhecimento humano produz a verdade?
Retomando o exemplo anterior o homem como objecto da ciência nunca o é como totalidade, mas cada ciência estuda parcelas dessa realidade que é o homem vendo nele diferentes realidade em função da focagem que a própria ciência imprime. Assim, o homem é conhecido cientificamente:
pela biologia como conjunto de células; pela química como moléculas; pela neurologia como dotado de um sistema nervoso – células neuronais; pela sociologia como ser gregário, que estabelece relações sociais; pela psicologia como ser dotado de uma psique com determinadas características e produtora de comportamentos; pela história como produtor de cultura e produto do passado cultural; etc.

Ora, acontece que nenhuma ciência responde às questões: o que é o homem? Qual o sentido da sua existência?
Nem mesmo se juntarmos todos os conhecimentos científicos obtemos essa resposta, pois a ciência explica o funcionamento dos diferentes aspectos do homem mas não nos dá o sentido da vida humana. Mas pela razão, o filósofo relaciona e integra conhecimentos acerca das várias áreas doando um sentido a essa integração e procurando, racionalmente, o sentido do seu objecto de estudo: seja o homem, os seus valores, a linguagem, a ética, o conhecimento, o ser...

Definição de Filosofia - 1

Definição provisória de Filosofia
Actividade racional de problematização e reflexão radical sobre o real com o intuito de conceptualizar a sua essência e o seu sentido.

Nesta definição temos de atender a três aspectos.
Primeiro, o facto de ser uma actividade e ser uma actividade humana racional, que se pratica com uso exclusivo da razão, com autonomia da razão face a outros meios de conhecimento.
Segundo, que essa actividade tem como objecto o real enquanto essência e enquanto fundamento. Assim, não é seu objecto querer saber como as coisas funcionam, mas o porquê do real, seja este o universo, seja este o conhecimento, seja este o homem.
Terceiro, a resposta acerca da essência do real implica uma resposta acerca do sentido e, quer queiramos quer não, a resposta acerca da essência do real, do conhecimento, de Deus, dos valores, afecta sempre o sentido que o homem se atribui.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Net e privacidade




Apagar o passado na web? Só se mudar de nome, diz presidente da Google
por Mariana de Araújo Barbosa, Publicado em 19 de Agosto de 2010 | Actualizado há 4 horas

O presidente da Google, Eric Schmidt, alertou para a necessidade de os jovens terem de mudar de nome no futuro, de maneira a conseguirem apagar o passado da rede e esconderem asneiras da juventude.
Em entrevista ao The Wall Street Journal, Schmidt afirma temer que os mais novos não consigam perceber as consequências de terem uma quantidade elevada de informações sobre si na web.
"Não acho que a sociedade entenda o que acontece quando tudo é disponibilizado, reconhecido e registado por todos o tempo todo. Isto quer dizer que temos realmente de pensar sobre essas coisas como uma sociedade", sublinhou o responsável pelo gigante da internet.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A cultura científica

Uma entrevista ao Físico, Professor Carlos Fiolhais

http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/sobre-cultura-cientifica.html


P- Que características definem o conceito de cultura científica em Portugal?

R- A ciência é universal e o conceito de “cultura científica” é o mesmo aqui e em qualquer parte do mundo: a expressão refere-se à parte da vasta cultura humana que tem a ver mais de perto com o empreendimento científico, que de uma forma muito resumida pode ser entendido como a aquisição de conhecimento sobre o mundo. Afirmar que a “ciência é parte da cultura” é ultrapassar a famosa questão das “duas culturas”, a literária e a científica, que C.P. Snow colocou em 1959. Não há duas culturas, mas uma só, sendo a ciência parte inalienável dela. A posse de cultura científica é hoje considerada uma condição de cidadania, isto é, de pertença à sociedade. Mas pergunta-me por Portugal. O nosso país caracteriza-se por uma cultura científica ainda pouco generalizada, resultado de um atraso no cultivo da ciência e na disseminação dela aos cidadãos. Precisamos de mais cultura científica de modo a evitar que, entre nós, muita gente pense que a ciência e a cultura estão divorciadas.

P- Quais os principais elementos que diferenciam a cultura cientifica de outras variantes da cultura?

R- Uma das marcas maiores da ciência é o reconhecimento do erro. Ora, se um resultado científico pode estar errado, julgo que nunca se poderá dizer o mesmo de uma obra de arte. Os critérios de validação da ciência – principalmente o uso do raciocínio lógico e a concordância com a observação ou a experiência - são decerto diferentes dos de outras actividades humanas. Apesar disso, outras áreas da cultura, por muito distintas que sejam da ciência, podem e devem cruzar-se com ela, para enriquecimento mútuo. As artes em geral, que a generalidade dos cidadãos associa mais rapidamente à cultura, constituem uma dessas áreas, abrangendo subáreas como a literatura, as artes plásticas, as artes de palco, etc. Cada vez mais se tem assistido à intersecção da cultura artística com a cultura científica: por exemplo, obras de arte buscam inspiração na ciência e a ciência reinvindica o uso de elementos ou critérios estéticos. Julgo que nessa aproximação não há qualquer risco de confusão ou sincretismo. Um cientista precisa de ter imaginação, mas a sua imaginação não pode ser tão livre como a do artista, tem de estar contida na “camisa de forças” que é a realidade.

P- Como qualifica o actual estado da cultura científica em Portugal?

R- Melhorou muito nos últimos anos, com o investimento enorme que houve na ciência e na sua difusão pública no último quarto de século. Mas o ponto de partida era muito baixo. Assim, há inquéritos internacionais recentes de sociologia da ciência que mostram que os portugueses têm na sua relação com a ciência dificuldades maiores do que as de outros povos europeus. Se muito foi feito, muito há ainda a fazer neste domínio.

P- O que acha que pode ser feito para melhorar a aprendizagem das ciências e a divulgação de cultura científica em Portugal?

R- O ensino da ciência deve ser feito em larga medida na escola e aí tem residido a nossa mais importante falha. O ensino formal da ciência, como é revelado por indicadores internos (resultados dos exames de disciplinas científicas) e por comparações internacionais (PISA e TIMMS), não tem revelado progressos satisfatórios. Ora essa situação não pode ser inteiramente colmatada por via do ensino informal da ciência que sempre se efectua quando há divulgação da cultura científica (através dos média, dos museus e centros de ciência, etc.). Arriscaria dizer que, nos últimos anos, progredimos mais no ensino informal do que no ensino formal da ciência, mas o progresso tanto de um modo como doutro não foi suficiente. Importa, por isso, enfrentar em particular o problema da ciência na escola, começando, na minha opinião, o mais cedo possível. O recurso à experimentação no ensino básico (e, antes disso, mesmo no jardim-escola) é uma via que nos falta percorrer de uma forma mais convicta e eficaz. Para isso, é mister formar mais adequadamente professores desse nível de ensino, melhorar currículos e fornecer bons materiais. Claro que, ao fazer isto na escola, tem de se continuar a fazer tudo aquilo o que já se faz fora da escola, como acontece nas actividades do Ciência Viva, e sempre que possível em coligação com a escola.

P- Qual é o papel do governo na divulgação do conhecimento e da cultura científica?

R- A causa da ciência e da cultura científica é uma causa pública. Diz, portanto, respeito ao governo no qual, em democracia, delegamos a organização da escola pública e dos meios públicos de promoção da cultura científica. Sem investimento público não podemos esperar que a ciência cresça e a cultura científica avance. É também para isso que pagamos os nossos impostos e participamos em eleições. Mas essa delegação não nos isenta das nossas responsabilidades. A causa da ciência diz respeito às empresas e outras instituições privadas, assim como, em geral, aos cidadãos, na medida dos seus saberes e possibilidades. Parte substancial do investimento em ciência e cultura científica deve ser não governamental. Nas sociedades mais avançadas as empresas e os cidadãos dispõem de amplo espaço de iniciativa e podem envidar esforços que se somam ao esforço dos governos. Apesar de alguma aproximação no passado mais recente, Portugal não alcançou ainda um estádio de desenvolvimento suficiente para que o investimento privado na ciência exceda largamente o público, como acontece por exemplo nos países do Norte da Europa.

P- Qual foi o impulso dado à cultura científica pelo programa Ciência Viva?

R- A Agência Ciência Viva tem concretizado vários projectos, que confluem todos eles na defesa e alargamento da cultura científica. Sem o Ciência Viva estaríamos muito piores. Foi uma das boas ideias que frutificaram entre nós nos últimos tempos e só espero que continue o bom trabalho que tem realizado. Em Coimbra, temos desde há pouco tempo o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho a funcionar em pleno, em homenagem ao grande poeta e divulgador de ciência.

P- Qual foi o papel da “Física Divertida” no panorama nacional da divulgação científica?

R- “Física Divertida” é um livro que escrevi em 1991 e que teve uma sequela, há três anos, com “Nova Física Divertida”. Nesses livros apenas pretendi contar algumas histórias da física, clássica primeira e moderna depois, de uma maneira compreensível para um público alargado, na tradição de outros livros de divulgação científica. Se o consegui ou não, não sei. Não posso ser juiz em causa própria.

P- Acha que existe um público alvo para a cultura científica, ou assimilação desta é universal e acessível a todas as faixas etárias e classes sociais?

R- A cultura científica deve ser de todos. Em particular, é para todas as idades, e é tanto para pobres como para ricos. Claro que os mais jovens estão numa fase da vida mais particularmente susceptível à aprendizagem, na fase em que frequentam a escola. E claro que os pobres ficarão ainda mais pobres se, na escola e fora dela, não lhes for proporcionada a cultura científica. Deve haver uma atenção especial tanto para os mais jovens como para os mais pobres.

P- À luz do conhecimento cientifico hoje existente, e considerando que o progresso é imparável, quais são os limites impostos à ciência pela ética?

R- A ciência tem de ser acompanhada por consciência, isto é, não pode desenvolver-se sem a ética. Pode-se fazer muita coisa na investigação científica, mas nem tudo se deverá fazer. Os limites devem ser impostos não apenas pelos próprios cientistas, mas pela sociedade em geral. Esses limites têm de ser continuamente pensados e redefinidos.

P- Se alguém lhe dissesse que é possível alcançar a verdade absoluta que resposta daria?

R- É possível, de facto, alcançar o conhecimento, como mostra toda a história da ciência. Quanto à “verdade absoluta”, não sei o que é isso. A ciência é cumulativa, isto é, cada vez se sabe mais e o que se sabe de novo não prejudica tudo o que se sabe, mas apenas uma pequena parte. Como este processo tem sido contínuo, é difícil defender, em ciência, o conceito de “verdade absoluta”. Mas é perigoso cair na contingência e no relativismo: há conhecimentos que foram adquiridos e que não vão mudar, como, por exemplo, a Terra é o terceiro planeta mais distante do Sol, que o nosso corpo é feito de células, etc.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Uma mente que Brilha - a entrevista


A sua mente só pode ser brilhante - uma beautiful mind, como reza o título original da aclamada biografia que a jornalista Sylvia Nasar publicou em 1998, e que por sua vez inspirou, em 2001, o filme homónimo de Ron Howard, com Russell Crowe no papel principal. Só assim é que se explica a extraordinária história de John Nash.

Nascido em 1928 nos Estados Unidos, Nash doutorou-se em 1950 pela Universidade de Princeton com uma tese de apenas 27 páginas que viria revolucionar a área matemática da Teoria dos Jogos. O "equilíbrio de Nash", que ele definiu nessa altura, faz hoje parte do vocabulário corrente desta disciplina científica.

A partir de finais dos anos 50, Nash desenvolveu esquizofrenia paranóide. A sua vida familiar e a sua carreira como matemático (já era considerado um génio por alguns) foram tragicamente truncadas. Perdeu o emprego, divorciou-se da mulher, Alicia, foi hospitalizado, medicado e tratado à força. Tornou-se um espectro de si próprio. Mesmo assim, durante os raros intervalos livres de delírio, continuou a fazer matemática de grande qualidade.

Nos anos 1970, Alicia voltou a acolhê-lo em sua casa (mais tarde voltariam a casar) e Nash regressou a Princeton. Passava o tempo a gatafunhar misteriosos códigos numéricos nos quadros e tornou-se conhecido como o "fantasma de Fine Hall" (o edifício do departamento de Matemática).

A partir de finais dos anos 1980, depois de 30 anos mergulhado nos delírios da esquizofrenia, começou a melhorar e em 1994 recebeu o Prémio Nobel da Economia.

Nash esteve esta semana em Portugal para participar na 24.ª Conferência Europeia de Investigação Operacional, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Na segunda-feira à tarde, deu uma conferência na Aula Magna e, no sábado anterior, falou ao P2 sobre o seu singular percurso de vida e o seu trabalho científico passado e actual.

Revê-se na personagem interpretada por Russell Crowe no filme Uma Mente Brilhante, de Ron Howard? A história do filme é próxima da verdade ou muito afastada dela?

O filme é uma ficção selectiva, mas não está completamente afastada da realidade. Alicia e eu fomos consultados - isso fazia, aliás, parte do contrato do filme. Portanto, eles tinham licença artística, mas isso não tornou a história completamente fictícia.

Não diria que me revejo nele. O filme não diz absolutamente nada sobre os meus anos de formação, antes da minha chegada à Universidade de Princeton.

O seu contributo para a Teoria dos Jogos foi muito importante. O que é a Teoria dos Jogos?

A expressão "teoria dos jogos" é uma descrição popular. A mesma área científica poderia ter tido outro nome. A Teoria dos Jogos foi desenvolvida com a publicação de um livro [em 1947], por John von Neumann e Oskar Morgenstern, intitulado em inglês Theory of Games and Economic Behavior (Teoria dos jogos e Comportamento Económico), que se tornou muito influente. Mas Von Neumann já tinha publicado na Alemanha em 1928 - o ano em que eu nasci - um artigo intitulado Zur Theorie der Gesellschaftsspiele, que significa "jogos sociais". E antes disso, tinha sido publicado em França um artigo com théorie du jeu no título. Von Neumann também publicou uma nota [em 1928] na Comptes Rendus de l"Académie des Sciences onde falava de théorie des jeux. Foi assim que o nome ficou.

É algo que permite a modelização matemática de comportamentos sociais e económicos?

Sim, mas com a ênfase nas escolhas alternativas e na ideia de estratégia - uma palavra de origem grega que significa a escolha de uma política. Há estratégia no xadrez e noutros jogos. Pode haver uma estratégia no futebol.

Só que, aí, as estratégias têm como objectivo fazer com que o outro perca.

É o que chamamos um jogo de "soma zero". Todos os jogos de entretenimento e desportivos são desse tipo. Também podem ser de "soma constante", com um certo benefício para ambos os lados, como a final de um Mundial de futebol - mas onde o vencedor beneficia mais do que o outro.

E também há jogos onde todos perdem...

Sim, são os jogos de soma negativa. Por exemplo, podemos imaginar uma situação em que uma prisão obriga prisioneiros a entrar num duelo onde apenas um irá sobreviver.

No filme, há uma cena onde a sua personagem está à procura da solução para o problema dos jogos ditos não-cooperativos. Estão num bar, há um grupo de raparigas e o protagonista percebe de repente que...

Deixe-me interromper. A teoria dos jogos no filme não está nada bem apresentada. O argumentista não era um perito em teoria dos jogos.

O seu contributo para a teoria dos jogos é hoje conhecido como "equilíbrio de Nash" e mudou a maneira de fazer teoria dos jogos aplicada à economia. O que é o equilíbrio de Nash?

O equilíbrio de Nash define-se em termos de estratégias, do conceito de estratégia do jogador. Temos dois, três ou mais jogadores. Cada jogador tem um número finito de acções ou estratégias "puras" pelas quais pode optar, fazendo isto ou aquilo. Mas também existem estratégias mistas, que são planos baseados numa mistura de estratégias puras, em que uma certa probabilidade de ser escolhida é atribuída a cada estratégia pura.

Assim, se um jogador tiver três escolhas possíveis, três acções puras entre as quais optar, poderá optar por uma delas com uma probabilidade de 20 por cento, pela segunda com 50 por cento e pela terceira com 30 por cento, o que dá 100 por cento. E o conjunto das estratégias mistas dos jogadores apresenta um equilíbrio quando nenhum dos jogadores pode mudar de estratégia e aumentar os seus benefícios. O benefício tem de ser calculável a partir da estratégia mista em questão. Calcula-se o benefício previsto para todos os jogadores e cada jogador olha para a sua fatia.

Quando duas empresas competem pelo mesmo mercado, usam a sua teoria para ver se compensa produzir mais ou menos, ou subir ou descer os preços?

Essa é considerada uma óptima área de aplicação da teoria. Existe uma abordagem clássica que é equivalente a uma análise de teoria dos jogos em certos casos especiais. É o chamado equilíbrio de Cournot. É um conceito certamente mais antigo do que o equilíbrio de Nash, mas é um caso particular. Augustin Cournot, economista francês do século XIX, considerou o caso em que duas empresas produziriam algo para o mesmo mercado - dois grandes produtores de leite, por exemplo.

Se uma dada quantidade de leite é produzida, pode ser vendida por um certo preço; se produzirem mais, não vão conseguir vender o leite por um preço tão bom. Por outro lado, se produzirem menos, o preço sobe, mas também há um limite. E se produzirem muito pouco, pode ser preciso importar leite.

Pode então existir um equilíbrio de Cournot em que cada um deles produz uma certa quantidade do produto - e em que nenhum deles pode produzir mais ou menos e obter uma vantagem. Mas, aqui, trata-se de um jogo não-cooperativo com dois jogadores onde o equilíbrio reside numa estratégia pura.
http://jornal.publico.pt/noticia/15-07-2010/a-minha-mente-tem--a-historia--que-tem-19827222.htm

terça-feira, 13 de julho de 2010

Neurociências, Humanidade e Filosofia



"As neurociências reforçam a visão humanista"

Para este conhecido cientista francês, quanto melhor for o nosso conhecimento do cérebro humano através das neurociências, maior será a nossa abertura em relação à espécie humana. Já lá vão os tempos em que afirmar este tipo de coisas era anátema. Por Ana Gerschenfeld (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia)

Nos anos 1980, Jean-Pierre Changeux, especialista de neurobiologia molecular hoje com 74 anos, escreveu um livro, O Homem Neuronal, que se tornou um best-seller mundial, onde desmontava a noção, em voga na altura, de que o cérebro, com os seus impulsos químicos e eléctricos, era uma simples máquina - um computador. Para ele, perguntas como "O que é ser humano? O que é a consciência? O que é o pensamento? A verdade? A beleza? exigiam respostas menos mecanicistas, mais "humanas", mais multidisciplinares - exigiam a construção de uma ponte entre o puramente neuronal e o nosso universo cognitivo, mental.

O livro gerou controvérsia - o que, volvidas várias décadas e muitos avanços das neurociências e das ciências cognitivas em geral, parece quase incompreensível. Hoje, sabemos quão importantes são as emoções - que os computadores claramente não possuem - para um normal funcionamento da mente humana.

Changeux também se interessou sempre pelas questões éticas ligadas às neurociências. Afirma que é possível construir "uma neurociência da pessoa humana", para retomar uma parte do título da conferência que proferiu em Lisboa, há umas semanas, no âmbito de um colóquio franco-português sobre ética e neurociências, promovido pela Embaixada de França e o Instituto Gulbenkian de Ciência. E espera que um dia os seres humanos consigam viver em maior harmonia entre si - uma visão que, como confessou ao P2, pode pecar por optimismo...

No passado, temas como o sentido moral ou a espiritualidade não eram objecto de estudo das neurociências. O que é que levou a uma mudança tão radical?

A mudança foi fruto de uma longa evolução. Nos anos 1970, os progressos da biologia molecular permitiram uma primeira revolução ao federar áreas de estudo tão diversas como a psicologia, a sociologia, a anatomia cerebral, a fisiologia cerebral, a farmacologia, a genética, etc. Verificou-se uma espécie de enraizamento da fisiologia nervosa na biologia molecular e, ao mesmo tempo, foi possível relacionar comportamentos com estados fisiológicos de conjuntos de neurónios. Começou-se pelo estudo de sistemas simples, como a aplísia [uma lesma] ou o caracol e, progressivamente, passou-se para o ratinho e para sistemas mais complexos e para o ser humano. Isso aconteceu graças aos avanços das ciências cognitivas - com estudos de psicologia da percepção, da linguagem, do acesso à consciência - e graças à sequenciação do genoma humano, que permitiu relacionar a variabilidade genética com a predisposição para doenças neurológicas e psiquiátricas.

Paralelamente, as tecnologias de visualização permitiram estabelecer relações entre a actividade de conjuntos de neurónios no nosso cérebro e estados psicológicos - e perceber a importância de certos traços do cérebro humano que são geneticamente determinados. Houve assim aspectos da psicologia, da antropologia, da cultura, que passaram a ter a ver com as neurociências.

Começam a existir modelos e dados sobre a internalização da cultura e a sua produção - isto é, sobre a forma como os circuitos cerebrais se modificam ao longo do desenvolvimento, da aprendizagem da oralidade e da escrita, do estabelecimento de regras de conduta moral, da criação artística.

Estão a surgir novas sínteses e penso que, no que respeita às relações das neurociências com a ética, a estética, a epistemologia, vislumbram-se programas de investigação que irão desenvolver-se nos próximos anos. Já não se trata de filosofia - sem querer criticar a filosofia, que acho que continua a ser necessária. Já não estamos no domínio do discurso, mas no domínio da experimentação e da pesquisa de dados objectivos.

Há uns anos, tê-lo-iam acusado de reducionismo. Hoje, já não. Porquê?

Fui durante muito tempo alvo de críticas dessa natureza. A palavra reducionismo tinha uma conotação muito pejorativa. Havia quem pensasse que eu estava a incluir neste campo de pesquisa tudo o que era do domínio cultural. Através de vários livros, tentei mostrar que não era nada disso. O Homem Neuronal, que escrevi em 1983 e que foi traduzido para inglês em 1985 [e publicado em Portugal pela Dom Quixote no mesmo ano], provocou um choque porque era, a meu ver, a primeira síntese das disciplinas que vieram integrar as neurociências. Foi uma primeira tomada de consciência de que uma nova ciência estava a emergir. Acho que o meu livro foi difícil de aceitar porque, pelo menos nas nossas sociedades ocidentais, existe uma visão dualista do corpo e da mente. Mas sempre houve filosofias monistas, desde os atomistas da Antiguidade até Spinoza, Diderot e muitos outros.

Tem havido sem dúvida uma evolução da reflexão, talvez a começar pelos filósofos e os media, e uma maior aproximação do público ao mundo das neurociências.

Os media?

Sim, os media tiveram um papel importante. Vimos aparecer as palavras "neurónio" e "sinapse" em jornais de grande tiragem. Mas, pelo menos em França, o reflexo dualista continua presente. Não me parece que o público, na sua totalidade, tenha ficado convencido com o nosso ponto de vista.

Somos o produto dos nossos genes e, ao mesmo tempo, a nossa personalidade depende da arquitectura dos nossos circuitos neuronais, moldados pela nossa história pessoal.

É o velho debate do inato e do adquirido que ressurge aqui?

Os genes conferem aos seres humanos traços comuns que assinalam a nossa humanidade. Mas os genomas do ratinho, do chimpanzé e do homem são muito semelhantes e, por enquanto, não sabemos realmente quais são as diferenças fundamentais que fazem com que o nosso cérebro tenha evoluído para uma maior complexidade do que os cérebros dessas outras espécies.

Para mim, de longe o factor mais importante desta evolução não linear é que o cérebro humano continua [ao contrário do que se pensava no passado] a desenvolver-se até aos 15 ou 20 anos de idade e é ao longo desse desenvolvimento que a conectividade entre as células nervosas se estabelece - para além de que pode também haver produção de novos neurónios. Assim, à base genética vem juntar-se uma profusão epigenética que participa no estabelecimento da conectividade neuronal.

No fundo, isto faz com que a problemática do que é inato e do que é adquirido esteja ultrapassada. Há, praticamente desde o início, na maneira como os genes se vão expressar para compor a arquitectura do nosso cérebro, fenómenos epigenéticos. E a consequência disso é que cada indivíduo é diferente dos outros, tanto no plano genético como, sobretudo, no plano epigenético. A vida de cada um difere da dos outros e gera-se assim uma singularidade da pessoa humana.

Mas isso deixa espaço para o livre arbítrio?

A questão do livre arbítrio é uma questão filosófica e não me sinto habilitado a falar dela. Certos filósofos, como Spinoza, negam a existência do livre arbítrio. Para Spinoza os homens pensam que são livres na medida em que ignoram as causas que os determinam.

O que penso que possuímos é o que eu chamaria um "espaço de trabalho neuronal consciente" - arquitecturas neuronais que permitem a existência da consciência, onde se produz uma espécie de globalização da visão do mundo, no qual somos capazes de simular acções sobre o mundo. Quando sou entrevistado, posso responder de várias maneiras a uma pergunta e procuro a mais adequada através de mecanismos de selecção. Quando faço isso - e não sei se para mim isso constitui uma definição da liberdade -, essas escolhas são, para dar razão a Spinoza, determinadas pela minha experiência passada, mas tenho, apesar de tudo, a possibilidade de escolha.

Acho que esta visão da consciência e da produção de estados mentais não está em contradição com os filósofos que consideram que existe uma certa liberdade nos nossos comportamentos. Mas, pessoalmente, inclino-me muito mais para a visão de Spinoza. Penso que temos a possibilidade de escolher, mas as nossas escolhas são, em última análise, determinadas pelas nossas predisposições e pela nossa vivência.

A aceitação desse ponto de vista pode traduzir-se numa maior tolerância para com os outros?

Quanto melhor for o nosso conhecimento do cérebro humano, maior será a nossa abertura em relação à espécie humana e à sua diversidade e melhor conseguiremos compreender o que torna os indivíduos diferentes, as diferenças entre as reacções dos indivíduos numa dada situação e o que cria antagonismos entre indivíduos nos grupos humanos e entre grupos humanos.

A noção de epigénese é aqui fundamental, porque há obviamente um aspecto circunstancial no facto de uma pessoa nascer numa família lusófona católica ou numa família chinesa confucionista. E o ambiente familiar, escolar e social vão fazer surgir, na nossa organização neuronal, o que eu chamo "circuitos culturais". O exemplo mais típico são os circuitos envolvidos na leitura e na escrita - que foram, aliás, bem estudados em Portugal por Alexandre Castro-Caldas, que mostrou que existiam diferenças notáveis no cérebro de pessoas iletradas em relação ao de pessoas que sabem ler e escrever.

Essas marcas culturais cerebrais, que são reais, são muito pouco reversíveis. Aprendemos uma língua em criança e, se mudarmos de ambiente linguístico, podemos aprender uma segunda língua. Mas subsiste um sotaque, que não é senão o vestígio, muito profundo, dos primeiros circuitos culturais que se formaram no nosso cérebro aquando da nossa primeira aprendizagem da língua oral.

As bases neuronais das diferenças culturais apenas são reversíveis na geração seguinte, através da educação. E é por isso que é muito importante que a educação seja laica, permitindo a cada um ter os seus sistemas linguísticos, de crenças, etc., mas, ao mesmo tempo, fazendo com que o outro apenas seja diferente de nós ao nível de uma espécie de tradição familiar ou da sua experiência pessoal. Isso torna-nos muito mais compreensivos e tolerantes, uma vez que o outro não é responsável por diferenças que foram criadas pelas circunstâncias da sua vida. Neste aspecto, acho que as neurociências reforçam a visão humanista.

A utilização de substâncias que permitem melhorar o desempenho mental, do tipo modafinil, ritalina, etc., tem-se generalizado. Acha que se trata de doping?

Quando eu era presidente do comité de ética francês, debateu-se muito a questão do doping no desporto, e não apenas no plano do desempenho muscular, mas também ao nível da motivação, das funções cerebrais. E era curioso ouvir os médicos da medicina do desporto dizer que, quando um atleta tem dificuldade em continuar o treino, ou em manter a sua performance, é legítimo fazer o necessário para que recupere o seu nível de desempenho. Isso justifica de certa maneira o doping. O comité de ética adoptou uma posição muito firme, vincando que o primeiro acto terapêutico nesses casos é fazer com que o atleta pare de tentar ir para além das suas forças. No caso da performance cerebral, é um pouco a mesma coisa. A minha posição nesta matéria é clara: ou a pessoa sofre de dificuldades reais - por exemplo, no caso de uma doença de Alzheimer ainda no início - e temos o dever de a ajudar a ultrapassar e controlar os seus problemas; ou a pessoa funciona normalmente - e o medicamento é uma droga, é doping.

Há quem pretenda utilizar as neurociências para fazer neuromarketing, influenciando as escolhas das pessoas. O que pensa disso?

É uma corrupção do conhecimento. Não é o objectivo das neurociências. É uma situação que se pode verificar e que exige uma vigilância ética, para que os avanços do conhecimento não sejam desviados do seu objectivo. O objectivo da ciência é ajudar os seres humanos a ter uma vida mais harmoniosa, mais agradável, de maior qualidade. Infelizmente, a ciência pode por vezes ser utilizada para discriminar, para controlar artificialmente os comportamentos. Nós, cientistas, temos o dever de o evitar.

Vai ser possível um dia ler o pensamento? Vamos conseguir conhecer as decisões das pessoas antes de elas as tomarem?

Sim. Já é possível identificar as intenções motoras de alguém antes de essa intenção se traduzir num gesto motor. Da mesma maneira, podemos tentar identificar "assinaturas" neuronais de conceitos particulares. É uma possibilidade que está a ser testada. Não me parece impossível identificar o tipo de representação que cada um de nós tem na sua subjectividade, por assim dizer. Também a este nível é preciso desenvolver uma reflexão ética em torno do respeito da vida privada de outrem. Só podemos fazer este tipo de experiências com o consentimento da pessoa e o problema é o de saber se será um dia possível fazer este tipo de "leitura" sem consultar a pessoa visada. Isso colocaria um grave problema ético.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Conhecimento Científico em Mudança


O resultado, anunciado amanhã na “Nature”, surpreendeu os seus autores (entre os quais oito portugueses)
O protão é mais pequeno do que se pensava e por enquanto ninguém sabe porquê
07.07.2010 - 18:49 Por Ana Gerschenfeld
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“Das três uma: ou a teoria está incompleta e há qualquer coisa que ela não consegue prever; ou os cálculos estão errados; ou o valor de uma das constantes mais bem conhecidas da física está errado”, diz-nos pelo telefone Joaquim Santos, da Universidade de Coimbra. A teoria de que fala é a Electrodinâmica Quântica, ou QED, um dos pilares da física, que descreve as interacções entre a luz e a matéria e é uma das mais bem sucedidas na previsão das propriedades dos átomos. Os cálculos de que fala são aqueles que, a partir dessa teoria, permitem calcular o tamanho (o raio) do protão, um dos constituintes de base dos átomos. A constante de que fala é uma constante física fundamental, chamada constante de Rydberg e cujo valor também está ligado ao tamanho do protão.

A teoria e a experiência não batem certo (CREMA collaboration/PSI)

Por que é que uma destas três coisas poderá ter um problema? Porque uma equipa internacional de cientistas, entre os quais a de Joaquim Santos (onde se incluem também investigadores da Universidade de Aveiro) publica hoje na revista “Nature” um resultado que mostra que o protão poderá ser mais pequeno do que se pensava.

Hoje em dia, o raio do protão é conhecido com uma precisão de apenas um por cento, principalmente através da espectroscopia feita ao átomo de hidrogénio (que não é senão um protão com um electrão à volta). E o que os 32 investigadores da equipa – do Instituto Max Planck, na Alemanha; do Instituto Paul Scherrer e do ETH Zurique, ambos na Suíça; do Laboratório Kastler Brossel em Paris; dos EUA e de Taiwan; e de Coimbra e Aveiro – pretendiam era aumentar essa precisão de um por cento para um por mil, acrescentando mais uma casa decimal ao valor oficial em vigor, que é de 0,8768 femtometros (milésimos de bilionésimo de metro). “Precisávamos de melhorar a precisão porque [as previsões] da teoria QED estão limitadas pela precisão do raio do protão”, explica Joaquim Santos. Só que, quando o mediram, o valor que obtiveram estava vários pontos percentuais abaixo do previsto. O novo valor, obtido através de um dispositivo experimental novo e muito sofisticado, é de 0,84184 femtometros – ou seja, cerca de quatro por cento mais pequeno.



O resultado foi obtido há um ano – a 5 de Julho de 2009 – mas demorou este tempo todo a confirmar. O sucesso da experiência, na mira dos especialistas desde os anos 1970, deveu-se a vários factores. Passou pela capacidade de produzir uma forma “exótica” de hidrogénio – um hidrogénio onde o electrão é substituído por um muão (uma partícula muito instável de igual carga mas 200 vezes mais pesada que o electrão, que torna as medições mais precisas). Hoje, tornou-se possível produzir hidrogénio muónico com um tempo de vida de quase um microssegundo, um período de tempo suficiente para o bombardear com impulsos laser de alta potência. O sucesso passou aliás também pelo desenvolvimento de lasers ultra-rápidos e pela melhoria dos detectores de raios-X emitidos pelos muões – da responsabilidade da equipa portuguesa. A experiência foi realizada no Instituto Paul Scherrer, “que tem o feixe de muões mais potente do mundo”, diz ainda Joaquim Santos. E os sistemas de lasers foram desenvolvidos pelas equipas francesa e alemã.

Mas apesar disso, o dispositivo não funcionou à primeira. “Em 2003, 2005 e 2007, não conseguimos”, prossegue o investigador. Pensaram que o problema vinha dos lasers, mas estavam enganados: “Estávamos a olhar para o sítio errado.” Por outras palavras, estavam a sintonizar os lasers nas frequências erradas – como um operador de rádio que não ouve nada porque se enganou na frequência de transmissão. Por isso, em 2009, varreram várias frequências – e ai sim, detectaram o sinal que procuravam há dez anos.

Próximas etapas: fazer o mesmo com deutério muónico (o deutério é uma forma de hidrogénio cujo núcleo inclui um neutrão) e com hélio muónico (dois protões e dois electrões, para além de neutrões).

O que acontecerá se os cálculos, que os teóricos vão agora ter de rever, estiverem certos? Se for o caso de a teoria estar incompleta, isso poderá dar lugar “a uma nova física, a novos conhecimentos”, responde Joaquim Santos. “Se a teoria estiver incompleta, significará que pensávamos que sabíamos tudo e chegámos à conclusão de que há qualquer coisa que ainda não sabemos.”

domingo, 4 de julho de 2010

A justiça enquanto aplicação política do pensamento ético - os direitos de 1.ª, 2.ª e 3.ª geração

Os direitos de 1.ª, 2.ª e 3.ª geração numa sociedade e sistema democrático.

A política traduz no direito positivo valores que a nossa civilização/sociedade considera como essencias. O que é considerado essencial nem sempre é objecto de acordo e não é hoje o mesmo que há duzentos anos. Assim, a evolução do direito como manifestação política do pensamento humano sobre valores e sistemas de organização política traduz a evolução do pensamento filosófico, ético e político, suportando-se igualmente nos desenvolvimentos científicos, técnicos, económicos das sociedades.

Apesar de haver variação política e filosófica podemos encontrar uma preocupação política comum nas sociedades com sistemas democráticos: como legislar e governar de forma a garantir o bem estar de cada homem, hoje e no futuro?


Os direitos de 1.ª geração, direitos civis e políticos, consubstancializam-se no direito à livre expressão, à associação, à propriedade, ao exercício político, etc. Os valores subjacentes a todos eles são o da cidadania e liberdade individual, bem como a igualdade de todos a esses direitos e valores. Estes direitos e valores são garantidos pelo que designa como estado liberal ou democracia liberal .

Mas este estado evolui para o que se designa como estado social (séc. XX, sobretudo no pós-2.ª guerra mundial) na medida em que se constatou politicamente que para garantir a igualdade de oportunidades, o direito ao exercício pleno da cidadania e o direito à dignidade humana, não bastava a garantia formal de direitos, mas era necessário estabelecer direitos sociais, económicos e culturais (direitos de 2.ª geração), que promovessem junto dos mais desfavorecidos em riqueza e capacidades o desenvolvimento de condições para o harmonioso desenvolvimento de cada um. Desta forma estariam, por exemplo, garantidos os direitos à saúde, à educação, ao subsídio de desemprego, aos bens culturais como teatros, cinemas, bibliotecas.
Os direitos de 2.ª geração visam estabelecer, também, uma sociedade justa, desenvolvendo a justiça social. Este conceito tem variações no interior do sistema democrático, consoante as ideologias e princípios políticos de cada partido político. Também têm variações as formas como se concretiza o estado social, se deve ser mais providente ou menos, se os seus serviços devem ou não ser fornecidos pelo estado ou pela sociedade civil.

O estado liberal ou estado social é antes de mais um estado de direito. Isto significa que o estado além de garantir a igualdade de todos perante a lei e o direito à participação cívica e politica dos cidadãos, é um estado que se submete ao direito. Esta é uma característica, juntamente com a separação de poderes (legislativo, executivo e judicial), dos sistemas políticos democráticos.

Os direitos de 3.ª geração emergem em função da globalização das preocupações - e procuram dar resposta aos problemas mundiais como é o caso actual do aquecimento global.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Será que tudo pode ser vivido em público?

Rita Novo
11.º A

Em linhas gerais, pensa-se que a vida pública é a vida de cada pessoa com as que a rodeiam e a privada é a de cada indivíduo consigo mesmo. Ora, estas definições não são as mais correctas. Em ambas as formas de vida existe uma relação consigo próprio e com os outros, porque não podemos prescindir da sociedade. Não é por estarmos sozinhos dentro da nossa casa que escapamos à vida na sociedade.
Então, uma vez que não se pode distinguir estas duas formas de vida pela relação com os outros, deve-se articular a resposta a esta pergunta a vários outros níveis.
Num plano mais geral, depende do modo como se apresenta a relação com os outros.
Na vida pública o que está em causa é a pessoa enquanto membro de uma colectividade independente e soberana - o Estado. Cada membro da sociedade é cidadão e, como tal, tem também uma vida política porque intervém não só na altura das eleições mas também porque faz conhecer as suas opiniões noutras circunstâncias; mas, além disso, entre o Estado e o cidadão existe um número importante de entidades políticas que têm uma autonomia parcial, precisamente a autonomia que lhes confere o Estado: em Portugal trata-se de municípios, conselhos, distritos, entre outros.
É precisamente a este nível que se desenrola a vida pública dos cidadãos e, do mesmo modo, a organização do Estado faz com que este tenha instituído instâncias públicas como tribunais, escolas e hospitais pelas quais se responsabiliza.
Assim, a vida pública centra-se mais na qualidade de cidadão, contrariamente à privada que diz respeito à vida individual da pessoa assim como às relações sociais que ela tem com os seus próximos e com os grupos aos quais se associa. No privado, o Estado não se intromete respeitando a autonomia de cada um.
Contudo, geralmente, não se fala da vida pública mas sim daquilo que se faz em público ou em privado. Os termos de público e de privado adoptam um significado diferente conforme o contexto no qual aparecem, mas o sentido primordial provém da diferença entre a vida do ser humano enquanto cidadão membro de uma colectividade autónoma e a sua vida enquanto pessoa individual tendo relações com outras pessoas particulares.
Assim, a minha questão inicial pode ter vários sentidos porque a expressão “em público” tanto pode significar o exercício político da vida como cidadão, como significar um conjunto de actividades no meio de pessoas desconhecidas, como por exemplo, na rua. Deste modo, pode tratar-se de actividades em ambientes destinados ao exercício de uma função pública, como na praia, ou ainda em ambientes privados nos quais uma multiplicidade de pessoas convive, como no balneário de uma piscina.
Concluindo, cada actividade tem um lugar próprio para se realizar; isto é, tem não só um contexto espacial e temporal específico mas também um enquadramento social particular que pode ser público ou privado.

Como potenciar a participação dos cidadãos na vida pública


Sara Judite Ferreira Felizardo

11ºB - 21

Que princípios devem orientar a organização da sociedade de forma a potenciar a participação dos cidadãos na vida pública, ou seja, a pratica do exercício da cidadania?
Ao longo da História e da evolução da humanidade confirma-se que os homens procuram um ideal, tal como na busca pelo ideal de beleza feminino, também desejamos ter uma sociedade definida por cidadãos activos, responsáveis e com capacidade argumentativa capazes de assumir uma posição e assim, dar existência a um espaço público ideal. E, como hoje nada é garantido, temos de fazer sempre algo para estimular o exercício da cidadania para atingirmos um regime político equilibrado que é a democracia.
As realidades do passado, como a ditadura vivida em Portugal em que maior parte das pessoas são chamadas de súbditos não havendo eleições democráticas, nem mais de um partido político, nem a liberdade de expressão produziram hoje possibilidades aos cidadãos de se manifestarem e questionarem o espaço de decisão com debates de matérias de interesse público com instrução e princípios éticos como: a solidariedade, verdade e tolerância.
Perante isto, a cidadania destina-se a um ideal normativo (a que as sociedades devem obedecer) de pertencer e participar numa comunidade política e ser cidadão será ser reconhecido como um membro igual da sociedade e claramente com o direito de participar no processo político, o que corrobora de um ideal distintamente democrático. Estas noções instauradas no séc.XIX surgem após a valorização do espaço público. Eu, por exemplo ainda não sou designada por tal nome, pois não tenho direito de participar no processo político como o direito de votar. Será que todos nós poderemos abordar todos os temas que possam ser argumentáveis? Será que os que pertencem às minorias étnicas, religiosas e culturais serão ouvidos com a devida atenção?
“Sendo seres dotados de razão, somos capazes de pensar por nós próprios e elaborar ideias que podem ser dialogadas no seio da nossa sociedade.”
De acordo com a questão proposta, a construção ou reconstrução da cidadania e, consequentemente da solidez dos regimes democráticos depende fortemente das atitudes e qualidades dos seus cidadãos: a sua forma de encarar potencias rivais de identidades, o desejo de participar no processo político com vista a promover o bem público e mostrar autodomínio e pessoalmente responsáveis economicamente; e como virtude entende-se como boa qualidade de carácter que determina como as pessoas agem e tornam a vida em sociedade melhor como virtudes gerais, sociais, económicas e políticas que são necessárias em qualquer regime político mas na democracia exige-se aos seus cidadãos a capacidade de avaliar a actuação dos seus governantes que implica questionar a sua autoridade e não aceitar as suas decisões passivamente e a boa vontade para se entregar à discussão pública que inclui que num debate ganhem as ideias e propostas mais razoáveis como um ponto de partida para uma política de persuasão racional senão, em contrapartida os governantes manipulam facilmente os cidadãos e as decisões serão tomadas por quem tem mais poder.
“É graças à liberdade de expressão que existem ideias diferentes que geram debates acesos, cuja única arma possível de ser utilizada é a argumentação.” (…)”E são essas ideias que são necessárias para a construção de uma sociedade melhor, já que quando pensamos numa esfera pública pensamos (em princípio), no que é melhor para todos.”
Na minha opinião, a cidadania é mais do que indispensável da democracia, são logicamente necessárias e por isso, devemos potenciar da melhor maneira a participação dos cidadãos. É como se a cidadania tivesse uma solução para a relação entre Estado e cidadão e o que defende um regime político democrático, se nos encontrássemos num domínio científico diria que a cidadania é o paradigma da democracia que contém o seu poder no povo, nos cidadãos que podem assumir de forma activa a prática desta que passa pelas convicções ou valores que cede à democracia, pela liberdade de opinião e no respeito pela dignidade das pessoas referente à tolerância e ao dialogo e a igualdade de direito de discutir as decisões que favorecem a participação e argumentação de todos nas deliberações e na posterior escolha determinada pelo homem que têm de ser necessariamente tomadas. Não apenas na esfera estritamente política, o direito e o dever de votar!
“Já que somos animais políticos não seríamos indivíduos realizados sem o espaço público.”
A época da Pós-Modernidade, a existência de várias culturas e, por sua vez, múltiplas verdades chegando a cada pessoa possuir uma verdade em que tudo é argumentável poderá ter desagregado os homens enquanto sociedade e comunidade política havendo hoje pontos de ligação, ou seja, relações entre culturas evidenciado maioritariamente pelo desporto.
Porém, ainda teremos que responder ao problema da questão inicial e finalmente, vou apresentar algumas teorias com perspectivas muito diferentes.
Teoria do Republicanismo Aristotélico – Teoria em que é defendida que o cidadão deve participar na vida pública, pois acredita que só aí se sentirá realizado enquanto ser humano. Estas ideias inspiradas na cidadania por Aristóteles, também chamada de “humanismo cívico” em que o exercício da cidadania é a condição de possibilidade da sua própria realização total, segundo as quais a vida pública tinha valor intrínseco (valor por si: algo que é bom em si), ao contrário da vida privada que era totalmente destituída de valor. A principal crítica é que esta teoria se encontra desajustada face à actualidade, esta mudança história inclui a ascensão do amor romântico, da maior prosperidade, do trabalho e “uma antipatia cada vez maior à guerra (que os gregos admiravam)”, e hoje em dia a vida pública tem um valor meramente instrumental (é um meio adequado para algo que tem valor em si), porque é necessário promover outros valores como a solidez da democracia. Uma outra crítica será que não conhecemos nada sobre a vida das pessoas comuns da antiga Grécia e pode acontecer que os filósofos não se dedicavam tanto pela vida privada como a sua vida à filosofia e exigiam das pessoas comuns a valorização da vida pública que eles partilhavam o que poderia ser inaceitável para maior parte das pessoas como hoje em que a teoria parece-me ser inaplicável.
Teoria dos direitos – Esta teoria é baseada em ‘oferecer’ direitos aos cidadãos e, segundo esta bastar dar aos cidadãos toda esta gama de direitos que será a melhor maneira de estimular os cidadãos a participarem activamente na vida política da sua sociedade, em particular direitos sociais como a educação, cuidados médicos, reforma e fundo de desemprego com o fim de dar a todos os cidadãos uma vida condigna, independentemente do poder económico. Mas em consequência de tudo isto, as pessoas tem hoje conforto, tempo e o dinheiro e dão cada vez mais importância à sua vida privada e desprezam a vida pública o que constitui uma cidadania passiva a que a gama de direitos deu lugar. E como lhes são concedidos direitos sem exigir nada em troca, ou seja, o cidadão não se sente no dever de praticar a cidadania que respondam aos direitos que lhe foram concedidos deixa isso entregue aos governantes.
Teoria conservadora – Por sua vez, os conservadores exigem deveres sociais básicos que correspondam aos seus direitos como nesta caso, a sua independência económica, a capacidade autónoma e responsável para ganhar a vida e não depender do fundo de desemprego. Assim, o cidadão tem de compreender como funcionam os mercados e saber orientar-se por si o que implica a sua participação sobre a vida pública. Esta teoria defende que são os mercados, com as suas regras que estimulam o exercício da cidadania.
Contudo, uma coisa não implica a outra, a autonomia económica não implica a cidadania, tal como a palavra autonomia diz, o cidadão tende a preocupar-se exclusivamente do seu bem-estar económico, mais uma vez da vida privada. Mas uma crítica que oferecerá mais ‘resistência’ será o facto de se dar extrema importância à vida económica que promove comportamentos no seres humanos incompatíveis com as virtudes cívicas atendendo unicamente aos seus próprios interesses económicos e quando há conflitos de interesses quem terá mais poder acabará por obter melhores resultados ao contrário do que seria racionalmente justo e melhor para a sociedade. Por fim, este tipo de comportamentos só lesam a sociedade, não ajudam na prática da virtude da imparcialidade e da argumentação honesta mas sim o aproveitamento de vantagens para seu próprio benefício.
Teoria da sociedade civil – Esta teoria defende como meio para estimular a cidadania as organizações voluntárias da sociedade civil, como as igrejas, as associações étnicas, os grupos ecologistas, as organizações de caridade, etc.
Cada associação civil corresponde a um modelo da sociedade em que os cidadãos aprendem a cultivar as virtudes fundamentais e necessárias ao exercício da cidadania: teremos de saber trabalhar em conjunto com outros, discutir ideias, determinar cursos de acção e fazer escolhas alternativas sendo por isso chamada de «escola cívica». Porém, por vezes as diferentes associações cultivam diferentes atitudes que nem sempre são compatíveis com as virtudes necessárias à cidadania como por exemplo o princípio NIMBY que consiste numa expressão inglesa ‘not in my back yard’: «No meu quintal não.», em que determinada estrutura tem de ser construída para bem da comunidade como por exemplo uma prisão e o tipo de atitude das associações será unicamente de recusa e impossibilitar uma discussão que inclui a capacidade para avaliar uma situação com imparcialidade que é uma virtude fundamental da cidadania, pensando no bem geral e não apenas no seu próprio bem-estar. Tratando-se apenas de não as querer perto da ‘nossa casa’ e não de argumentar que não será necessária mas será evidente quem têm de ficar perto da ‘casa’ de alguém.
Teoria da virtude liberal – Esta última teoria defende que a escola é o lugar para cultivar as virtudes fundamentais da cidadania, nomeadamente a atitude crítica perante as autoridades/ governantes e a imparcialidade racional que permitem as discussões racionais de ideias.
No entanto, o sistema de ensino nem sempre promove a atitude crítica perante as autoridades, neste caso, o professor e o manual que não são colocados em causa e os estudantes habituam-se unicamente a compreender ou a decorar o que lhes é ensinado. Por isso, acho que a disciplina de filosofia é tão importante visto que, desenvolve a nossa capacidade crítica e adquirimos instrução. Todavia, este sentido crítico poderá por em causa o respeito absoluto das tradições religiosas, sociais e culturais. Como por exemplo, se um estudante cristão entra numa escola liberal onde todas as ideias são criticadas abertamente, é muito provável que se comece a questionar (o que pessoalmente eu não acho errado, pois só assim fará a melhor opção para si) e entre em conflito com a comunidade religiosa e assim, aplicar o sentido crítico adquirido na escola a outros aspectos da sua vida. E, como nós todos temos diferentes interesses, não se segue que os estudantes tenham qualquer interesse em intervir na vida pública e assim, não aplicam à vida pública a discussão crítica cultivada na escola.
O que na minha vida e na minha forma de pensar não faz nenhum sentido pois, se estou a cultivar a minha atitude crítica aprendendo a discutir ideias e novas perspectivas e a aprender a importância da imparcialidade, faz todo o sentido aplicar à minha futura vida pública. Na minha perspectiva, é como desperdiçar água potável enquanto em outros locais do mundo à falta dela.
Perante todas estas teorias verificamos que é mais fácil criticar do que construir uma sociedade com determinados princípios que potenciem o exercício da cidadania mas, por outro lado será assim que nos vamos aproximar da verdade e da construção de um regime democrático sólido. Nenhuma destas teorias apresenta condições necessárias e suficientes para a prática do exercício da cidadania à excepção da teoria da virtude liberal que para além de estimular os cidadãos à prática da cidadania, cultiva as virtudes fundamentais desta que permite discussões racionais apesar de serem rejeitadas por muitas comunidades. Embora sejam apresentadas críticas à Teoria da sociedade civil como os cidadãos não serem auto-suficientes (têm de ser membros de algo para adquirem competência política), eu considero que seja a mais plausível e nos últimos tempos tem vindo a ganhar força e abrange grupos em harmonia ou em conflito e pressiona em direcção a determinadas opções políticas produzindo estruturas como as organizações que favorecem a cidadania em que cidadãos previamente passivos como se transfiguram em cidadãos activos e interventivos. “Para um governo democrático, é muito perigoso que um estado ocupe todo o espaço disponível e não haja associações alternativas, espaço social protegido no qual as pessoas possam encontrar alívio da política, sarar feridas, confortar-se e ganhar forças para novos embates.”
O que seria de nós sem uma Sociedade Civil forte ‘que incluem também uma imensa diversidade de grupos que defendem posições fortes relativamente a uma questão específica sobre o aborto, a venda de armas, a prática de preces nas escolas, a pena de morte, etc.’?
Para mim, a cidadania é a formula que ainda responde melhor ao desafio de “vivermos juntos”.

Espaço Publico e Espaço Privado: Limites e vantagens dos Media

Sara Gamelas
11.º A

O ser Humano é um ser social em que essa sociabilidade está presente desde o momento que se nasce até que morre. A sociedade que acolhe o Homem tem uma cultura própria que nos transmite um modo específico de pensar, sentir e agir. Assim como na família existem pontos de vista diferentes e regras impostas pela autoridade dos pais, também na sociedade nos deparamos com regras e normas com intuito de garantir o bem de todos. Para tal, são definidos não apenas os direitos de cada um, como também os deveres, ou seja, o que podemos receber e o que temos que dar à sociedade. Só com regras, normas e leis é que se torna possível formar uma sociedade organizada e estável que promova o bem colectivo.
O Homem integrado na sociedade é por natureza como citava Aristóteles, um “animal político”. Isto significa, a forma como devemos reflectir acerca da nossa situação social, como nos organizamos dentro de um espaço comum na qual devemos ser práticos ao longo da vida enquanto cidadãos. Ser cidadão significa aquele que habita na cidade em que usufrui de direitos civis e políticos incutidos nela. Na democracia ateniense antiga, o cidadão era considerado um homem livre com capacidade de se auto governar, de participar nas decisões públicas da sociedade com o objectivo de determinar as suas obrigações naturais ligadas á sua subsistência e á da sua família. Deste modo os filósofos identificaram a existência de duas esferas na vida do Homem, privada e pública.
Espaço público e privado são dois conceitos utilizados de forma distinta de que os antigos usavam. Enquanto ser livre e dotado de consciência moral, com a capacidade de decidir e de liberar responsavelmente a sua individualidade, isto é, espaço privado. No entanto, cada vez que o indivíduo age de forma a interferir no seio da colectividade remete-nos para o espaço público. Assim, no espaço privado o individualismo procura o melhor para si, visto este ser onde efectuamos a nossa introspecção pessoal sem o intuito de o publicitar pois somente se reflecte acerca das ideias de forma a alimentar o espaço publico, enquanto que neste o Homem procura o bem para todos pois potencia a reflexão privada publicitando-a e tornando-a comum. Neste contexto predomina a liberdade de expressão de forma a deliberar, discutir, dando-lhe sentido tornando possível o nascimento do político. Assim o espaço público sobrepõe-se ao privado pelo facto de permitir ao Homem a realização da sua natureza política.
Estes dois conceitos de espaço permitiram ao Homem reflectir no sentido ético-politico. O conceito de ética não é de todo inseparável da política visto a ética se designar pela arte de escolher o que mais convém ao Homem com o objectivo de viver o melhor possível. Por sua vez, a política organiza a convivência social de forma a que cada individuo escolha o que mais beneficie. Contudo há diferenças importantes de salientar pois a ética ocupa-se do que a própria pessoa faz com a sua liberdade e a politica tenta determinar a forma mais conveniente de pôr em prática a liberdade.
A liberdade Humana pode ser influenciada por os media. Estes caracterizam-se por toda a comunicação jornalística sendo a informação que entra diariamente em nossas casas. As suas principais virtudes são a argumentação e a persuasão pois o domínio da comunicação visa persuadir o auditório de modo a utilizar uma linguagem o mais simples possível para ser entendido por qualquer indivíduo, ou seja, permite a adequação da informação ao público mais singular. No entanto, há também limites, manipulam e seduzem de forma a convencer o auditório de que a informação transmitida é a mais correcta e a mais benéfica (Exemplo: Relógio usado por uma figura pública transmite ao auditório que este é o melhor a ser utilizado). Porém, a informação que nos é transmitida não permite qualquer tipo de reciprocidade, ou seja, é – nos difícil aceder ou confrontar os media com a veracidade da informação disponível. Devido a essa dificuldade o auditório interpreta a informação como sendo verdadeira, isto significa que o auditório vive na ilusão, pois como sabemos nem toda a informação que nos é dada é justificada.
Este facto verifica-se, por exemplo, na teoria de K. Popper, o falsificacionismo que nos transmite que a partir da análise de fenómenos lógicos do processo indutivo concluímos que por maior que seja o número de observações particulares não há justificação racional para a sua generalização a todos os casos. Deste modo o grande objectivo deste modelo é de refutar as teorias e eliminar progressivamente os erros. Consequentemente as teorias que resistirem às tentativas da falsificação são consideradas teorias corroboradas e aceites provisoriamente.
Em suma, os media são portadores de privatização, obedecem a leis de mercado de oferta, ou seja, toda a informação reverte-se para a necessidade dos indivíduos e não do espaço público, pois temos como consequência o privilégio de satisfazer os interesses particulares de cada um, ou até mesmo do próprio jornal. Isto significa que os media visam satisfazer e enriquecer o intelecto de cada um. Contudo estes interferem na reflexão pessoal e possivelmente na decisão individual.
No meu ponto de vista os media têm um papel imprescindível no espaço público no sentido da transmissão da informação que possibilita o aumento do nosso conhecimento. No entanto, a maneira que nos transmitem a informação nem sempre é o mais correcto pois preocupam-se com a linguagem utilizada simplesmente com o intuito de despertar interesse, desejo ou emoção ao leitor

domingo, 6 de junho de 2010

O PROBLEMA DA INFORMAÇÃO

Ana Filipa Moleiro
11ºA nº2

Frequentemente ouvimos dizer que vivemos na Era da informação. Vivemos num mundo globalizado onde qualquer facto que tenha acontecido chega em pouco tempo ao outro canto do mundo. Temos a possibilidade de saber em qualquer instante o que está a acontecer, o que aconteceu e até previsões do que acontecerá. No entanto, será que podemos designar por informação tudo aquilo que nos chega?
Esta globalização é, sem dúvida, uma consequência evidente da evolução e desenvolvimento exponencial dos media. Os media estão, hoje em dia, completamente inseridos no nosso quotidiano. Uma pessoa que não veja o telejornal durante uma semana nem que leia um jornal torna-se numa pessoa que parece que não vive no nosso mundo. Os media constituem o melhor sistema de informação que se possa conceber. Uma teia apertada cobre a superfície do globo, capta e transmite imediatamente os acontecimentos .
Contudo, embora os media sejam o melhor sistema de transmissão de informação, será que aquilo que transmitem é de facto informação? Para conseguirmos responder a esta questão, penso que deveríamos começar por definir o que é informação, uma vez que se tentarmos responder a um problema sem dominarmos aquilo que está em causa então a sua resolução será impossível. Desta forma, definir informação torna-se crucial para que prossigamos com uma possível resposta.
Segundo Claude Elwood Shannon, um engenheiro electricista e matemático americano que é considerado o fundador da Teoria da Informação, informação é tudo aquilo que reduz a incerteza. Desta forma, então tudo aquilo que nos é fornecido através dos media será informação se conseguir reduzir as incertezas. Como nos apercebemos facilmente, estamos então rodeados de quantidades absurdas de artigos que nos são tantas vezes apresentados como informação, mas que, na verdade, não o são.
A designação de Era da Informação está assim errada, uma vez que o que temos não é informação e sim uma explosão de dados e factos que, isoladamente, não têm significado e não produzem compreensão.
Esta falsa informação que nos é revelada é facilmente explicada pela necessidade de vender. Como é evidente, um jornal não tem futuro se não conseguir lucrar, e, para isso, é necessário vender jornais. Ora, para que tal aconteça, é necessário que aquilo que é publicado seja do interesse da população.
Torna-se assim imperativo colocar a seguinte questão: Se os jornais nos bombardeiam de artigos que não são informação e mesmo assim os compramos ou se os jornais com menos informação são os mais vendidos, então o que está mal?
Podemos imediatamente inferir que aquilo que está mal é a sociedade. O que condiciona e conduz a esta falta de verdadeira informação é o facto de a própria sociedade a apreciar e a desejar. Todos criticam as revistas cor-de-rosa, mas a verdade é que cada vez existem mais. Todos criticam certos canais de televisão pelos seus deploráveis telejornais ou outros programas, mas a verdade é que as audiências não param de subir. Coloca-se assim um problema que não apresenta um fim. Como é que se há-de resolver o problema da falta de verdadeira informação se grande parte da sociedade gosta dessa não-informação e nem sequer procura a verdadeira? Entramos assim numa questão que apenas se torna resolúvel se se reeducar a sociedade, se se criar na sociedade novamente o interesse pelo verdadeiro conhecimento.
Porém, terei eu, enquanto indivíduo e, nós, considerando as pessoas que partilham a mesma opinião que eu, o direito de criticar e julgar essas pessoas? Embora essa não-informação não leve a uma redução das incertezas, que direito tenho eu de dizer que é pior do que aquilo que eu considero informação? Cada pessoa possui critérios valorativos diferentes, dá importância a coisas diferentes. Se, vivendo numa democracia e considerando que todas as pessoas são livres e iguais em dignidade e em direitos, Dotados de razão e de consciência , como posso eu dizer que aquilo que valoram é menos importante?
Aparentemente, teria que ir contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contudo, talvez não seja necessário fazê-lo e talvez até a própria declaração nos ajude a resolver a questão.
É evidente que não podemos criticar as pessoas por gostarem de saber isto ou aquilo que não é realmente informação. No fundo, todos nós gostamos de nos divertir, de relaxar e esquecer o trabalho e, de facto, muita da suposta informação que passa tem um certo carácter lúdico. Contudo, temos que ter consciência de que isso não é verdadeira informação e perceber que para além do mero entretenimento temos que conhecer o que realmente informa. Assim como está escrito nos Direitos Humanos que todos os homens são livres, também está escrito que todos os homens são dotados de razão e consciência, mas, para isso, é necessário que de facto percebam que necessitam de verdadeira informação e não meros factos que os distraiam. O culto da mera diversão, da despreocupação com o importante, intimamente ligado à ausência de inquietações culturais verdadeiras, provoca a perda do centro de gravidade das hierarquizações humanas .
O homem que não se questiona, que não procura saber, é um ser alienado, despossuído de cultura, que se guia pela coordenada da indiferença produzida pela saturação de antagonismos3. Ora, a humanidade tem sofrido um desenvolvimento fantástico, será que queremos, nós, século XXI, parar esta sinergia?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Kant e os 3 tipos de acção

OS TRÊS TIPOS DE ACÇÃO
Um comerciante pode praticar um preço injusto, incorrecto, ou praticar um preço justo, correcto. No primeiro caso é evidente que a sua acção é imoral, é injusta é uma acção má – sem valor moral.
Mas praticando o preço justo, correcto, a sua acção é necessariamente BOA, tem valor moral? Dito de outra forma: basta a sua acção ser correcta ou justa para ser BOA ou ter valor moral?
NÃO. Porquê?
Considerando o exemplo do comerciante que pratica o mesmo preço para todos os clientes, podemos perguntar porque se recusa a ser desonesto?
Temos duas Hipótese:
A) Será por cálculo e interesse que procede assim?
B) Ou será por respeito pela lei moral (racional e interna) que prescreve a honestidade?
De acordo com a Hipótese A) age correctamente para manter a reputação de honesto, ou para evitar a reputação de injusto, ganancioso, ou, ainda, para não perder a sua clientela, então age em conformidade com o dever, mas não por dever.
De acordo com a Hipótese B) age por respeito pelo dever.
Assim, temos 3 tipos de acção:
1) acção contra o dever: é o que acontece quando o comerciante explora os clientes, praticando preços abusivos. São acções que estão em contradição com o dever são, neste sentido, destituídas de valor moral.
2) acção conforme ao dever: é o caso do comerciante que não vende os produtos mais caros para não sofrer as consequências, podia ser prejudicado posteriormente. Esta acção também não tem valor moral porque ela não passa de um meio para o comerciante obter um determinado fim, exterior à acção. Neste caso o comerciante não agiu unicamente por obediência ao dever, apenas agiu de acordo ou em conformidade com a lei permanecendo no plano da legalidade. Agiu por interesse pessoal.
3) acção por respeito ao dever: a moralidade exige que se actue unicamente por respeito à lei moral, por dever. É o caso do comerciante que não vende caro porque sabe que esse é o seu dever. só assim cumpre a lei moral que a sua razão criou.
Para Kant estas são as verdadeiras acções morais, pois o valor reside na intenção que anima a acção. Sendo praticadas por respeito ao dever, a acção constitui um fim em si mesmo e não um meio para obter uma recompensa (exterior e consequência posterior).Isto significa que o homem só age bem se actuar por dever. E agir por dever é agir por respeito à lei moral e não por submissão às consequências ou ao fim a atingir.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A TV (e a net?), a palavra e a in-capacidade de pensar

A rádio, o cinema e a televisão fizeram desaparecer radicalmente a distância que o leitor é obrigado a observar quando lê um texto imprimido – distância que exigia a assimilação de carácter privado, sendo ao mesmo tempo a condição necessária de uma esfera pública onde tinha lugar uma troca reflectida sobre o que se tinha lido. Os novos media transformam a estrutura da comunicação enquanto tal; o seu impacto é, nessa medida, mais penetrante, no sentido literal do termo, que não foi nunca aquela da Imprensa. O comportamento do público transforma-se também sob o constrangimento do “don´t talk back”*, dado o facto das emissões, tal como são difundidas pelos novos media, reduzirem singularmente a possibilidade que os seus destinatários têm de reagir, o que não se verifica em tal grau com as informações imprimidas. Os novos media cativam o público dos espectadores e dos auditores, retirando-lhes ao mesmo tempo toda a «distância emancipadora (Mündigkeit)», isto é a possibilidade de tomar a palavra e de contradizer. O uso que o público dos leitores fazia da sua razão tende a esfumar-se em prol das simples «opiniões de gosto e inclinação» que alteram os consumidores: e mesmo o facto de se falar daquilo que consumimos, essa «contra-prova das experiências do gosto», é integrado no próprio processo de consumo.
Esse universo produzido pelos mass media não tem senão a aparência de uma esfera pública; assim como é igualmente ilusório que permaneça intacta a esfera privada que ela deveria garantir aos seus consumidores.»

Habermas, Jürgen, L´espace public, Archéologie de la publicité comme dimension constitutive de la sociéte bourgeoise, Éditions Payot, Paris, 1992, p.179

Cidadania - uma definição

Em contextos filosóficos, a cidadania refere-se a um ideal normativo substancial de pertença e participação numa comunidade política. Ser um cidadão, neste sentido, é ser reconhecido como um membro integral e igual da sociedade, com o direito de participar no processo político. Como tal, trata-se de um ideal distintamente democrático. As pessoas que são governadas por ditaduras monárquicas ou militares são súbditos e não cidadãos.

Will Kymlicka, «Cidadania»

terça-feira, 18 de maio de 2010

Espaço Público Moderno

Espaço Público Grego e Espaço Público Moderno

“No contexto grego clássico, o que hoje se chama «espaço público» remetia então para a praça pública, a ágora, ou seja, o lugar concreto onde os cidadãos devem reunir-se para debater sobre assuntos que dizem respeito ao governo da cidade. Retrospectivamente, alguns pensadores contemporâneos, tais como H. G. Gadamer, mas em especial Hannah Arendt, retomaram o conceito aristotélico da Política, pondo em relevo as oposições entre polis e oikos, entre o político e o económico e, de maneira correlativa, entre o público e o privado, a liberdade e a necessidade, o poder e a dominação, a «prática» (praxis) e o «técnico» (techné).
Na apresentação que se costuma fazer hoje em dia, a polis grega é esse espaço político cujo carácter essencialmente público a distingue da oikos, esfera privada da domesticidade e, por extensão, do económico. De um modo geral, a ordem política da Cidade deve estar autonomi¬zada relativamente ao conjunto das actividades sociais, redes de interesses governados por um pacto, que configuram para nós uma espécie de sociedade civil. Política e esfera pública coinci¬dem rigorosamente. À política corresponde a praxis, ou seja, a acção comum, concertada ten¬dente aos melhores fins da Cidade ao concluir um diálogo: lexis. (…)
Só a esfera privada doméstica, e não o espaço público, admite a dominação: é o poder que o dono da casa exerce exclusivamente sobre as mulheres, as crianças, os escravos e, em geral, em toda a esfera doméstica onde se produzem os processos biológicos, em especial «privados»: nas¬cimento, morte, reprodução, subsistência, onde quer que reine a «necessidade». Pelo contrário, a esfera pública política é idealizada como um reino da liberdade (no sentido dos antigos), uma liberdade que se expressa num direito igual, para todos os cidadãos, a participar directamente nos assuntos públicos.
Relativamente ao espaço público moderno, pode dizer-se que é uma criação da Ilustração. Com perspectivas filosóficas e políticas muito diferentes, J. Habermas e R. Koselleck trataram de reconstruir a sua origem e o seu desenvolvimento até aos nossos dias. No início, o «espaço público burguês» talvez correspondesse à institucionalização de uma crítica que empregava os meios da moral para reduzir ou «racionalizar» a dominação política. No contexto da época, isto significava «impugnar o princípio absolutista». Este expressa-se, em particular, na fórmula de Hobbes: Auctoritas non veritas facit 1egem [A autoridade e não a verdade dita a lei]. A Ilustração consagra a sua inversão pura e simples: A verdade e não a autoridade dita a lei.
Na sua reconstrução, R. Koselleck explica como, desde o século XVI, na Europa Ocidental, e ante a ameaça de perturbação que representavam as Guerras da Religião, a necessidade de manter uma coesão social pôde justificar a instituição tipicamente moderna de uma «esfera privada» da opinião e da crença: a consciência individual deve ser, por assim dizer, «privatizada» na qualidade de «foro interno» sacrossanto, enquanto que o domínio público, ideologicamente neutro, é dirigido por uma «razão» nova, distinta da «opinião»: a razão de Estado. No campo da doutrina, Hobbes é quem con¬sagra a separação do público e do privado, da razão e da opinião, da política e da moral.
Não obstante, o domínio público não fora entregue a um espaço público: estava antes confinado a esse espaço privado um tanto paradoxal da «razão de Estado» e do «segredo de Estado». O que cria a abertura da Publicidade e opera a transubstanciação do domínio público em espaço público é a força exterior da crítica. O impulso não vem de «cima». Vem de «baixo», quando as pessoas particulares, reunidas nos salões, nos cafés e nos clubes constituem as primeiras «esferas públicas» ¬burguesas para trocar as suas experiências. A autonomia privada da consciência, individual, núcleo do espaço público moderno, adquire a sua própria força da crítica. Protegida pela imunidade do foro interno, converte-se em pequeno tribunal, em instância moral fora da qual os indivíduos pedirão razões à política, primeiramente de forma encoberta e depois de modo aberto. (…)
Apesar das suas diferenças, os dois modelos mencionados - clássico e moderno - do espaço público político aceitam um princípio argumentativo; remetem ambos para um contexto de ilustração em sentido amplo, favorável ao mesmo .tempo ao desenvolvimento da democracia e à difusão da filosofia. Mas, ao que parece, só no contexto da modernidade, a ilustração pôde desenvolver uma espécie de «dialéctica», durante a qual o espaço público se transformou pro¬fundamente até ao estado social de hoje, sem romper radicalmente com o seu princípio funda¬dor: a argumentação pública e a discussão racional assentes sobre a base da liberdade formal e da igualdade de direitos. (…)”
].-M. Ferry, “Las transformaciones de la publicidad política”, in EI Nuevo Espaço Público, Barcelona, Editorial Gedisa, 1995, pp.13-16.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Noção de Tolerância - UNESCO

Declaração de Princípios sobre a Tolerância

aprovada pela Conferência Geral da UNESCO em sua 28ª reunião

Paris, 16 de novembro de 1995
(...)
Decididos a tomar todas as medidas positivas necessárias para promover a tolerância nas nossas sociedades, pois a tolerância é não somente um princípio relevante mas igualmente uma condição necessária para a paz e para o progresso econômico e social de todos os povos,

Declaramos o seguinte:

Artigo 1º - Significado da tolerância

1.1 A tolerância é o respeito, a aceitação e a apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz.

1.2 A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos grupos e pelo Estado.

1.3 A tolerância é o sustentáculo dos direitos humanos, do pluralismo (inclusive o pluralismo cultural), da democracia e do Estado de Direito. Implica a rejeição do dogmatismo e do absolutismo e fortalece as normas enunciadas nos instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos.

1.4 Em consonância ao respeito dos direitos humanos, praticar a tolerância não significa tolerar a injustiça social, nem renunciar às próprias convicções, nem fazer concessões a respeito. A prática da tolerância significa que toda pessoa tem a livre escolha de suas convicções e aceita que o outro desfrute da mesma liberdade. Significa aceitar o fato de que os seres humanos, que se caracterizam naturalmente pela diversidade de seu aspecto físico, de sua situação, de seu modo de expressar-se, de seus comportamentos e de seus valores, têm o direito de viver em paz e de ser tais como são. Significa também que ninguém deve impor suas opiniões a outrem.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Problema da semana - 10.º Ano

O que é ser Justo?

Dar a todos o mesmo ou dar a cada um em função das suas necessidades e dos seus méritos?

Problema da semana - 11.º Ano

Pode existir uma observação pura?

Quais as implicações epistemológicas de uma observação pura?

Trabalho de dissertação filosófica - 11.º Ano de escolaridade

Trabalho de dissertação filosófica
Tema: A Filosofia na Cidade:

O professor fornecerá elementos para discutir o papel dos mass media na regulação da relação entre espaço público, esfera privada e estado. Para a discussão deve ter-se em atenção os poderes, mas igualmente as limitações dos media, bem como a dinâmica cultural. Deve ter também em conta a relação entre argumentação e democracia.

Actividade preparatória:
1. criar fichas de leitura;
2. construir esboços - em esquema, mapa conceptual, lista de conceitos, etc. que mostre o que pretende escrever. – Avaliado em termos de trabalho de aula.

Tarefa principal: criar uma dissertação filosófica sobre o tema-problema enunciado.

Alternativa: o aluno pode escolher um tema-problema próximo ou derivado do tema geral:
- Convicção, tolerância e diálogo – a construção da cidadania

ou ainda a questão do sentido da vida, subdividida em dois sub-temas:
- Finitude e temporalidade – a tarefa de se ser no mundo
- Pensamento e memória – responsabilidade pelo futuro



Limitações da alternativa: o professor não tratará estes assuntos na aula.


A dissertação será realizada na 1.ª aula da semana de 31 de Maio.
Tempo: 60 min. Peso = ½ teste.

Tarefa secundária: apresentação e defesa da dissertação – tempo: 4 + 2 Min – Avaliada no âmbito do trabalho de aula.