segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Física Quântica e Filosofia

É um gato? É um vírus? É uma experiência quântica!

Por Ana Gerschenfeld – PÚBLICO – 25/10/2009



Em 1935, o físico austríaco Erwin Schroedinger imaginou uma experiência conceptual, protagonizada por um gato, para mostrar quão bizarra era a nova mecânica quântica, quando transposta para os objectos quotidianos. Agora, um grupo de cientistas diz que é possível fazer realmente a experiência - com um vírus.

A física quântica é uma verdadeira colecção de bizarrias que desafiam as nossas mais íntimas intuições. À escala dos átomos e das partículas subatómicas, tudo é diferente, tudo fica "desfocado", por assim dizer. Um electrão não é como uma bola de ténis, porque, segundo as leis da mecânica quântica, pode estar em vários sítios diferentes ao mesmo tempo - o que não acontece com a bola de ténis.
Uma pergunta que irrita e fascina há décadas muitos físicos é a seguinte: se é verdade (e ninguém duvida) que os objectos quotidianos são feitos de triliões de partículas quânticas, por que é que as leis da física quântica não se aplicam também a esses objectos? Por que é que não podemos, parafraseando a revistaNew Scientist, estar ao mesmo tempo no jardim a cortar a relva e no supermercado a fazer as compras?
Uma das mais famosas peças da galeria de estranhas propriedades não diz respeito às partículas infinitesimais, mas a um gato... O gato é o protagonista de uma experiência mental, uma pura abstracção, imaginada em 1935 por um dos pioneiros da mecânica quântica, Erwin Schroedinger, precisamente para ilustrar o lado bizarro desta área da física.
Oitenta e poucos anos mais tarde, uma equipa liderada pelos físicos espanhóis Oriol Romero-Isart e Ignacio Cirac, do Instituto Max Planck de Garching, na Alemanha, anunciou agora que quer trocar o gato por um vírus e mostrar que é mesmo possível obrigar um organismo vivo ou quase vivo (se não um gato, pelo menos um vírus) a assumir, em simultâneo, dois estados físicos diferentes. Por enquanto, apenas publicaram a descrição da experiência que tencionam fazer para o conseguir no arXiv.org (um sitede pré-publicação de artigos na área da física). Mas o P2 soube entretanto, junto de Ignacio Cirac, que já submeteram o seu trabalho para publicação na revistaNature.
Paradoxo de Schroedinger
Lá vai então a história do gato. Dentro de uma caixa blindada e opaca, lá está ele. Ao pé, mas inacessíveis ao gato, há um frasco cheio de gás de cianeto, uma amostra de material radioactivo, um martelo e um detector de radiação (estes dois últimos objectos ligados um ao outro por um circuito eléctrico). O material radioactivo tem uma probabilidade de 50 por cento de emitir uma partícula de radiação ao longo de uma hora - e a mesma probabilidade de não emitir nada. Passado esse tempo, se a partícula tiver sido emitida, ela terá sido detectada pelo detector, que terá accionado o martelo, que terá esmagado o frasco, que terá libertado o veneno, que terá morto o gato. Se não tiver sido emitida, nada terá acontecido ao animalzinho de estimação, que continuará vivo.
Só que, como o material radioactivo se rege pelas leis da mecânica quântica, ele pode ter emitido a radiação e não a ter emitido, dando origem ao que os físicos chamam uma "sobreposição" desses dois estados. E como os estados de saúde possíveis do gato estão intrinsecamente ligados a esse fenómeno quântico pelo "mecanismo diabólico" da experiência (a expressão é do próprio Schroedinger), o gato também se encontra, simultaneamente, em dois estados radicalmente diferentes: está vivo e morto ao mesmo tempo.
Um pequeno parêntese: é precisamente a possibilidade de sobreposição de estados que está na base de conceitos como o do computador quântico, que, a existir, seria muitíssimo mais poderoso do que qualquer supercomputador convencional. E, a este propósito, diga-se que Ignacio Cirac é considerado um físico brilhante neste domínio. Uma prova entre muitas outras: recebeu esta semana, juntamente com outros dois físicos, a Medalha Benjamin Franklin da Física 2010 - um dos mais prestigiados prémios do mundo - "pela sua proposta teórica e realização experimental do primeiro dispositivo que faz operações elementares de lógica computacional utilizando as propriedades quânticas dos átomos individuais".
Voltando ao gato, a questão é que Schroedinger quis, através desse paradoxo, criticar a chamada "interpretação de Copenhaga" da mecânica quântica (elaborada, em 1927, por outros dois pioneiros da teoria, Niels Bohr e Werner Heisenberg), que estipula que o mundo das partículas é governado essencialmente pelas probabilidades. Segundo esta interpretação, o que acontece é que, mal a caixa é aberta (ou seja, mal uma observação, ou medição do sistema é efectuada por alguém), os estados quânticos simultâneos "entram em colapso", deixando subsistir apenas um dos dois estados possíveis para a fonte radioactiva e para o gato - morto ou vivo. E tudo volta assim à normalidade. Mas Schroedinger, tal como Albert Einstein, não acreditava que o mundo fosse totalmente indeterminista, aleatório, probabilista; pensava, pelo contrário, que o que se passava com a teoria é que ela não descrevia totalmente o mundo físico, que era incompleta e, por isso, não conseguia conciliar as escalas macroscópica e microscópica do mundo físico.
Hoje em dia, apesar deste tipo de dificuldades, a interpretação de Copenhaga continua a ser a mais largamente aceite pela comunidade dos especialistas. Mas existem também propostas alternativas (que são, contudo, ainda mais parecidas com ficção científica...). Uma delas é a chamada many-worlds interpretation (proposta pelo físico norte-americano Hugh Everett em 1957), que especula que o gato bem pode estar morto e vivo ao mesmo tempo - mas em universos paralelos que não têm qualquer hipótese de comunicar entre eles. No nosso universo, o gato estará por exemplo vivo (ou morto), mas existe, fora do nosso alcance, um outro universo onde se verifica a situação contrária.
"Essa interpretação [de Copenhaga] da mecânica quântica é a comummente aceite", diz-nos por email Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra, "mas levanta algumas dificuldades conceptuais. A maior é talvez que, sendo o estado quântico, em geral, uma sobreposição ou mistura de estados puros (...), é a interacção com o observador que determina o resultado da medida. Este "colapso" da função de onda, esta determinação de um mundo indeterminado feita pelo observador, parece prejudicar a existência de um mundo objectivo independente do observador. O paradoxo do gato de Schroedinger surge neste contexto. A questão é: não será absurdo que seja o observador que, quando abre a caixa para ver o gato, o mata?" Ou, dito por outras palavras, será concebível que a realidade seja tributária da consciência humana?
Uma "ratoeira quântica"
Considerações filosóficas à parte, a experiência à qual Cirac, Romero-Isart e colegas tencionam submeter um vírus é a seguinte, como explicam no seu artigo, que se encontra actualmente acessível através do endereço http://arxiv.org/abs/0909.1469. Primeiro, graças ao campo electromagnético criado por um laser - uma "ratoeira quântica", diz Carlos Fiolhais - vão aprisionar um vírus no vácuo. A seguir, com um segundo laser, vão reduzir os movimentos do vírus até o fazer atingir o seu estado de energia mais baixo - ou seja, até ele parar de se mexer quase por completo. E por último, vão alvejar o vírus com um fotão (uma partícula de luz). Como o fotão é uma partícula quântica (e como tal, pode ao mesmo tempo atravessar o vírus sem surtir qualquer efeito e ser reflectida por ele, imprimindo-lhe um movimento adicional), o dispositivo deverá conseguir colocar o vírus numa superposição quântica de dois estados de movimento.
"Há coisas impossíveis, mas esta não parece ser uma delas", explica-nos ainda Fiolhais. "[Mas] os autores, sabendo que não conseguem "caçar" com gato, "caçam" com um vírus e, em vez de falarem do vírus vivo ou morto, falam de vários estados de vibração do vírus, isto é, querem pôr o vírus a abanar tal como uma corda musical."
Existem vírus capazes de resistir a um tal tratamento? Sim, respondem os autores desta ainda hipotética experiência: por exemplo, os vírus da gripe. Possuem as dimensões adequadas (uma centena de milionésimos de milímetro) e têm as propriedades físicas certas para se comportar de forma quântica: entre outras coisas, não conduzem a electricidade e conseguem resistir ao vácuo durante semanas. O vírus do mosaico do tabaco é um outro candidato. Com mais arrojo ainda, os autores referem mesmo a possibilidade de se vir a utilizar uns bichinhos bem maiores: os tardígrados, uns minúsculos animais, com 1,5 mm de comprimento, que vivem nos musgos, nos locais húmidos, e que também são capazes de sobreviver no vácuo.
Vivo ou não?
Há quem ache que os vírus não são realmente seres vivos e que, portanto, o sucesso da experiência com um vírus não significará que foi possível criar uma sobreposição quântica num ser vivo, ao contrário do que anuncia o título do artigo. "Partículas, átomos, moléculas e grandes moléculas têm-se portado como a mecânica quântica diz que se devem portar", explica-nos Fiolhais. Inclusivamente, frisa, foram feitas experiências de sobreposição quântica com moléculas de futeboleno (carbono 60), que são objectos nanoscópicos tais como os vírus. Ao fim e ao cabo, salienta este cientista, "um vírus não passa de uma molécula grande e complexa" e "é discutível se se lhe deve chamar um organismo vivo". "Digamos que está na transição entre o não-vivo e o vivo."
Martin Plenio, físico do Imperial College de Londres, citado pelaNature numa notícia acerca desta pré-publicação, é da mesma opinião: "Estou totalmente convencido que os vírus se comportariam exactamente da mesma forma que as moléculas inorgânicas."
O que não impede, segundo ele, que a experiência seja interessante, na medida em que pode "ajudar os físicos a determinar onde acaba o mundo quântico e onde começa o nosso mundo macroscópico".
"A questão é precisamente até onde é que essas leis [quânticas] são válidas", diz-nos por seu lado, também via email, Yasser Omar, especialista de física quântica da Universidade Técnica de Lisboa. "Recentemente, tem havido um progresso notável e tem vindo a descobrir-se que os efeitos quânticos sobrevivem em objectos muito maiores do que se imaginava, ainda que à escala nanoscópica." E não só. "Foi demonstrada a existência de efeitos quânticos no processo de fotossíntese", acrescenta Omar, "em moléculas grandes, à temperatura ambiente... e em sistemas vivos". "Trata-se de resultados muito recentes, que vêm mais uma vez empurrar a fronteira do mundo quântico (...). O artigo do Cirac é mais uma contribuição nesta direcção (...)."
E acrescenta, com um entusiasmo palpável: "Criar uma sobreposição quântica num ser vivo, como um vírus, a temperatura ambiente, seria um resultado de grande espectacularidade, que demonstraria que a fronteira entre a física quântica e a física clássica está muito para além do que se pensava. (...) Não deixaria de ser uma surpresa para a esmagadora maioria dos físicos e seria certamente um resultado candidato ao Prémio Nobel. Mas o mais interessante é que, se tais resultados forem observados, abrem-se desafios extremamente interessantes para os físicos resolverem. Como, por exemplo, explicar como é que os sistemas quânticos são robustos [não são perturbados] ao ruído exterior - o que poderá ser uma contribuição crucial para a construção de um computador quântico -, e descobrir até onde se podem observar efeitos quânticos, em particular em sistemas ou seres vivos maiores. A priori, poderá não haver nenhuma limitação fundamental à realização deste tipo de experiências com objectos maiores."
Questões filosóficas
Concluem os autores do artigo: "Esperamos que as experiências propostas sejam um primeiro passo para abordar experimentalmente questões fundamentais, tais como o papel da vida e da consciência na mecânica quântica - e até as implicações nas nossas interpretações da mecânica quântica." E, numa versão anterior do texto (que esteveonlineaté há uns dias), também escreviam que, a confirmar-se que um ser vivo pode assumir sobreposições quânticas, poderia mesmo haver maneiras de testar a validade das diferentes interpretações da teoria, nomeadamente a de Copenhaga e a dos multiversos (many-worlds), já aqui referidas.
Carlos Fiolhais mostra-se céptico. "A confusão que podemos ter sobre o comportamento de objectos nanoscópicos", diz-nos, "é natural, pois não estamos habituados ao comportamento do micromundo. (...) "[Mas] não penso que a experiência do vírus possa iluminar questões filosóficas do tipo das que são levantadas pela teoria quântica."
Até porque "o paradoxo [de Schroedinger] pode ser ultrapassado dizendo que falamos de probabilidade de gato morto e probabilidade de gato vivo", explica ainda, "e que, se tivermos muitas caixas com gatos, encontraremos uns vivos e outros mortos na proporção indicada pelas probabilidades". "Esta é uma maneira satisfatória, quanto a mim, de ver o problema [e evita] algumas complicações que vêm da interpretação de Copenhaga. Não é um gato que está meio vivo, meio morto como umzombie, mas um conjunto de gatos que estarão uns vivos e outros mortos. E, quando eu digo que encontramos gatos vivos e mortos, não estou a dizer que o olhar os mata..." E nós arriscamo-nos a acrescentar: também não significa que pertencem a universos paralelos...
"Eu diria", prossegue Fiolhais, "que há um contínuo entre o micromundo das partículas, átomos e moléculas e o nosso macromundo. A teoria quântica não é eterna, poderá um dia ser ultrapassada por outra que a englobe, mas duvido que possa ser ultrapassada por experiências do tipo da que ora foi proposta... O mais natural é que se confirmem as previsões da teoria quântica e, assim, não se avance muito. Para avançar ter-se-ia de encontrar uma falha de previsão, algo que nem Schroedinger, nem Einstein, nem ninguém depois deles conseguiu. Apesar de todas as dificuldades conceptuais, a teoria quântica está bem e recomenda-se."

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Teste de Lógica Formal - Aristotélica

1. O valor de verdade da conclusão de um raciocínio (ou argumento) não é essencial para determinar a sua validade. Concorda com a afirmação? Justifique.

Texto B
«O conceito é a primeira operação intelectiva na qual o entendimento (faculdade mental de conhecer) reúne na mesma representação geral e abstracta as características e as propriedades comuns a uma espécie ou conjunto de seres ou objectos (...)»
2. Relacione o facto de o conceito ser abstracto com a sua característica de universalidade.

3. Disponha por ordem crescente de extensão os seguintes conceitos:
Utensílio; colher; colher de pedreiro; utensílio manual; objecto; ser inanimado

4. Considerando que a proposição “Todos os alunos são aplicados” é verdadeira, avalie o valor lógico da sua contrária e da sua subalterna. E se for falsa qual o valor de verdade da sua contrária?

5. Distinga a dedução da indução.

6. Esclareça a razão pela qual a dedução é mais segura do que a indução.

7. Considere os seguintes argumentos silogísticos:

A) Todos os físicos são valorizadores das ciências empíricas.
Alguns racionalistas são valorizadores das ciências empíricas.
Logo, alguns racionalistas são físicos

B) Alguns intelectuais são racionalista
Todos os racionalistas admiram a geometria
Logo, todo o que admira a geometria é racionalista.

7.1. Enuncie a Figura e o modo dos silogismos que A) e B).
7.2. Avalie o valor lógico dos Silogismos A e B). No caso de ser inválido justifique

8. Classifique os seguintes argumentos como dedutivos ou indutivos. Justifique.
A) Os alentejanos são lentos, pois o João é lento e é alentejano e também o Manuel é alentejano e é lento.
B) O João sacrifica-se, pois para ser bom aluno é preciso sacrifício.

9. Formalize canonicamente o seguinte argumento dedutivo: estes homens pensam, logo existem.

sábado, 10 de outubro de 2009

sentidos, imaginação e razão




Sentidos, imaginação e razão são três formas de conhecer. Pelos sentidos vimos os olhos castanhos deste homem, pela imaginação representamo-los verde água, pela razão criámos o seu conceito, que deixa de ter cor. Neste deixar de ter cor está a virtude e o limite da própria razão.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Conectores lógico-sintáticos

Oposição
mas
ao/pelo contrário
compensação
apesar de
entretanto
contudo
todavia
porém

Concessão
embora
ainda que
se bem que
apesar de que
sem que
ainda quando

Comparação
como
conforme
assim como...assim também
mais...do que

Condição
se
a não ser que
desde que
contanto que
uma vez que
salvo se

Premissa
porque
pois
sabendo que
admitindo que
pressupondo que
partindo do princípio
dado que
uma vez que
já que

Conclusão
logo
então
por conseguinte
portanto
por isso
consequentemente
segue-se
infere-se
conclui-se

termos da argumentação

O que é um argumento?

Um argumento é um conjunto de frases, ou com mais rigor, um conjunto de proposições, no mínimo duas, relacionadas entre si segundo uma estrutura tal que uma e só uma é a conclusão do argumento e uma outra ou outras é/são as premissas do argumento.

Vamos agora esclarecer os termos desta definição:

Proposições: as proposições são frases mas nem todas as frases são proposições. Um a frase interrogativa, uma frase imperativa, uma exclamação, um pedido ou uma promessa não são proposições embora sejam frases. Só são proposições as frases declarativas, ou seja, aquelas em que fazemos afirmações das quais se pode dizer se são verdadeiras ou falsas. Às perguntas pode ou não responder-se, às ordens pode ou não obedecer-se, às exclamações pode ou não reagir-se, as promessas são sinceras ou fingidas, etc.; às afirmações e só às afirmações convém a qualificação de verdadeiras ou falsas.

Conclusão: A conclusão de um argumento é a proposição que se afirma com base na outra ou outras proposições do argumento

Premissas: as premissas (ou premissa) de um argumento são as proposições que são afirmadas (ou supostas) como suporte ou apoio da conclusão.

Estrutura ou forma de um argumento: A estrutura ou forma de um argumento é o tipo de nexo lógico ou de relação inferencial que é estabelecido no argumento entre a(s) premissa(s) e a conclusão. Nem toda a sequencia de proposições é um argumento. É necessário que se verifique uma determinada relação de dependência da conclusão relativamente às premissas, cabendo às premissas dar apoio ou garantia à conclusão.

Inferência: chamamos inferência ao processo de trânsito das premissas para a conclusão: a conclusão infere-se das premissas; as premissas suportam ou sustentam a conclusão.

Competências do aluno de Filosofia no final do 11.º Ano

No final do 11º ano, os alunos e as alunas deverão ser capazes de:

Recolher informação relevante sobre um tema concreto do programa e, utilizando fontes diversas - obras de referência, suportes electrónicos ou outros - compará-la e utilizá-la criticamente na análise dos problemas em apreço.
Clarificar o significado e utilizar de forma adequada os conceitos fundamentais, relativos aos temas/problemas desenvolvidos ao longo do programa de Filosofia.
Redigir textos - sob a forma de acta, síntese de aula(s) ou relatório - que expressem de forma clara, coerente e concisa o resultado do trabalho de compreensão e reflexão sobre os problemas filosóficos efectivamente tratados.
Participar em debates acerca de temas relacionados com os conteúdos programáticos, confrontando e valorando posições filosóficas pertinentes ainda que conflituantes e auscultando e dialogando com os intervenientes que sustentam outras interpretações.
Analisar textos de carácter argumentativo - oralmente ou por escrito -, atendendo:
à identificação do seu tema/problema;
à clarificação dos termos específicos ou conceitos que aparecem;
à explicitação da resposta dada ou da tese defendida;
à análise dos argumentos, razões ou provas avançados;
à relação de conteúdo com os conhecimentos adquiridos.

6. Compor textos de carácter argumentativo sobre algum tema/problema do programa efectivamente tratado e acerca do qual tenham sido discutidas distintas posições ou teses e os correspondentes argumentos:
- formulando com precisão o problema em apreço;
- expondo com imparcialidade as teses concorrentes;
- confrontando as teses concorrentes entre si;
- elaborando uma resposta reflectida à questão ou problema.
7. Realizar um pequeno trabalho monográfico acerca de algum problema filosófico de interesse para
o estudante, relacionado com algum conteúdo programático efectivamente abordado e metodologicamente acompanhado pelo docente nas tarefas de planificação.

Conceitos transversais a todas unidades e a serem dominados pelo aluno do Secundário

CONCEITOS GERAIS OU TRANSVERSAIS

absoluto / relativo
formal / material
abstracto / concreto
identidade / contradição
antecedente / consequente
imediatez / mediação
aparência / realidade
intuitivo / discursivo
a priori / a posteriori
particular / universal
causalidade / finalidade
saber / opinião
compreensão / explicação
sensível / inteligível
contingente / necessário
sentido / referência
dedução / indução
ser / devir
dogmático / crítico
subjectivo / objectivo
dúvida / certeza
substância / acidente
empírico / racional
verdade / validade
essência / existência
teoria / prática
finitude / infinitude
transcendente / imanente

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nobel da Química

do PÚBLICO...

Nobel da Química para estudo do ribossoma e da forma como ilustra a evolução de Darwin
07.10.2009 - 11h03 Clara Barata
O ribossoma traduz a informação contida no núcleo da célula, escrita no código do ADN, é traduzida para produzir proteínas, que são os tijolos que que são construídos todos os seres vivos. Os três cientistas este ano premiados com o Nobel da Química recebem o premio por terem estudado a sua estrutura, através de um método denominado cristalografia de raios-X, e por terem cartografado cada um dos centenas de milhares de átomos que constituem esta estrutura existente no interior das células.


Venkatraman Ramakrishnan (EUA, embora nascido na Índia há 57 anos), Thomas A. Steitz (EUA, 69 anos) e Ada E. Yonath (Israel, 70 anos) são os galardoados deste ano.

“A trilogia de prémios iniciou-se com o mais famoso de todos, o de 1962, quando James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins receberam o reconhecimento pela elaboração do modelo atómico da molécula de ADN em forma de dupla hélice”, diz um comunicado da Real Academia de Ciências Sueca. De fora ficou Rosalind Franklin, a cientista que de facto obteve as imagens em cristalografia de raios-X vistas de forma algo subreptícia por Watson e que lhe deram a ideia inspiradora de como seria a verdadeira estrutura do ADN – mas em 1962 Franklin já tinha morrido, de cancro.

Prosseguindo com a sequência da Academia sueca, o segundo prémio da Trilogia Darwin foi atribuído em 2006, a Robert Kornberg, por ter obtido imagens de estruturas em raios-X que demostram como a informação do ADN, contida no núcleo da célula, é copiada pela molécula do ARN mensageiro (ARNm).

Os ribossomas, que estão no centro do palco do Nobel da Química da 2009 e no final desta Trilogia Darwin, são uma das mais complicadas máquinas celulares – e há várias, no interior de cada minúscula célula do nosso corpo, embora funcionem ao nível atómico. Traduzem a informação do ADN para um código que outras máquinas das células conseguem entender, para juntar aminoácidos e produzir proteínas.

A correcção dessa tradução é muito importante, pois o organismo é literalmente feito de proteínas (hemoglobina no sangue, por exemplo, que transporta oxigénio, ou insulina, que controla os níveis de açúcar no sangue) e alguns erros podem ser fatais.

Por isso, os ribossomas existem em todos os seres vivos, das bactérias aos seres humanos – e exactamente por esse motivo, são alvos preferenciais para medicamentos. Se se impedir uma bactéria de produzir correctamente as proteínas de que precisa para produzir as sua camada exterior, por exemplo, é possível torná-la vulnerável e combater uma infecção com antibióticos. Os três laureados com o Nobel produziram modelos tridimensionais que mostram como diferentes antibióticos se ligam aos ribossomas, usados para desenvolver novos medicamentos

11.º Ano - Teste 1 - Lógica Formal

- Definir Lógica
- Clarificar o objectivo da Lógica

- Clarificar o problema da verdade e da validade dos raciocínios

- Identificar os tipos de raciocínio.
- Caracterizar os tipos de raciocínio

- Definir e relacionar conceito e termo
- Caracterizar o conceito
- Definir extensão e compreensão
- Classificar conceitos segundo a sua extensão e compreensão


- Distinguir Juízo de Proposição
- Classificar as proposições quanto à qualidade e quantidade, aplicando o quadrado lógico
- Conduzir as proposições à forma canónica

- Inferir imediatamente

- Distinguir raciocínio indutivo de raciocínio dedutivo
- Apresentar vantagens e desvantagens de cada um dos raciocínios

- Identificar a distribuição dos termos

- Classificar os silogismos categóricos, segundo a sua figura, modo.
- Identificar num juízo a sua conclusão e as suas premissas.

- Identificar falácias no silogismo categórico (aplicar as regras)

Indução e Dedução

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Induzir e deduzir

Nigel Warburton

A indução e a dedução são dois tipos diferentes de argumentos.
Um argumento indutivo envolve uma generalização baseada num certo número de observações físicas. Se eu observar um grande número de animais com pêlo, concluindo a partir das minhas observações que todos os animais com pêlo são vivíparos (isto é, dão à luz crias em vez de porem ovos), estaria a usar um argumento indutivo.
Um argumento dedutivo, por outro lado, parte de certas premissas, passando depois, longinquamente para uma conclusão que se segue dessas premissas. Por exemplo, das premissas “todas as aves são animais” e “os cisnes são aves”, posso concluir, portanto, todos os cisnes são animais: esse é o argumento dedutivo.
Os argumentos dedutivos preservam a verdade. Isto significa que, se as premissas são verdadeiras as suas conclusões têm que ser verdadeiras. Entraríamos em contradição se afirmássemos as premissas e negássemos a conclusão. Assim, se as premissas “todas as aves são animais” e “ os cisnes são aves” são ambas verdadeiras, têm que ser verdade que todos os cisnes são animais.
Ao invés, os argumentos indutivos com premissas verdadeiras podem ter ou não conclusões verdadeiras. Mesmo que todas as observações de animais com pêlo, por mim efectuadas tenham sido fidedignas e que todos os animais sejam de facto vivíparos e mesmo que eu tenha feito milhares de observações, pode vir a descobrir-se que a minha conclusão indutiva de que “ todos os animais com pêlo são vivíparos” é falsa. Na verdade, a existência de um plátipo ornitorrinco, um tipo peculiar de animal com pêlo que põe ovos, significa que se trata de uma generalização falsa.


Nigel Warburton, Elementos básicos de Filosofia, Gradiva, Lisboa, 1997, p.172

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Darwin




o bicentenário do Nascimento de Charles Darwin e o 150º aniversário da publicação do livro “A Origem das Espécies estão a ser comemorados com diversas iniciativas um pouco por todo o lado. aqui ficam alguns links interessantes

http://darwin-online.org.uk/

http://www.darwin2009.pt/home/

http://www.darwin200.org/

http://www.cienciaviva.pt/home/

O ser desamparado

Eric Fromm

“Quanto menos completo e estável é o equipamento instintivo do animal, mais desenvolvido é o cérebro e, por isso, a capacidade de aprendizagem. A emergência do homem pode situar-se naquele ponto do processo de evolução em que a adaptação instintiva atingiu o mínimo; contudo, o homem surge dotado de novas qualidades que o distinguem de todos os outros animais: a consciência de si mesmo como entidade distinta, a possibilidade de reter o passado, visualizar o futuro e designar objectos e acções por intermédio de símbolos, a razão que lhe permite conceber e compreender o mundo, e a imaginação que o faz ultrapassar os limites dos seus sentidos. O homem é o mais desamparado de todos os animais, mas esta mesma debilidade biológica constitui a base da sua força, o motor fundamental do desenvolvimento das suas qualidades propriamente humanas.”
Eric Fromm, Ética e psicanálise

Cultura como molde do pensamento e do comportamento

O nosso comportamento, sem que disso tenhamos consciência, inspira-se (…) quase a cada momento em normas que nos servem de guias ou modelos. O nosso penteado, o fato, a linguagem que utilizamos, os gostos culinários ou estéticos, a maneira de exprimir a alegria, a dor, a raiva, e muitas vezes mesmo os nossos pensamentos mais íntimos, tudo isto nos foi proposto, fornecido, ensinado pelo meio em que crescemos e onde evoluímos.
(…) A cultura é efectivamente uma espécie de molde em que são colocadas as personalidades psíquicas dos indivíduos; esse molde propõe-lhe ou fornece-lhe modos de pensamento, conhecimentos, ideias (…). A criança que nasce e cresce numa cultura particular (nacional, regional, de classe, etc.) está destinada a ter que gostar de certos pratos, a comê-los de certa maneira, de ligar determinados sentimentos a determinadas cores, e a casar segundo um rito particular, a adoptar certos gestos ou mímica, a compreender os estranhos numa óptica particular, etc. A mesma criança, se à nascença tivesse sido retirada da sua cultura e submetida a outra, teria gostado de outros pratos, comido de maneira diferente, casar-se-ia seguindo outros ritos, não recorria sequer à mímica e compreendia de maneira diferente os nossos estranhos”.
G. Rocher, Sociologia Geral I, Ed. Presença, Lisboa, pp.71-72; 89; 112-113 e 210

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Distribuição dos termos

Distribuição dos termos

A extensão é o conjunto de coisas ou objectos abrangidos pelo termo (ou conceito) em causa.
Sabemos também que um termo é considerado universal quando se refere à totalidade da sua extensão. Nestes casos, o termo costuma ser precedido um quantificador que indique a universalidade.
Por sua vez, é considerado particular o termo que se refere apenas a parte da sua extensão, sendo antecedido por alguns, existem, certos, etc.
Dizemos que um termo (sujeito ou predicado) se encontra distribuído quando tomado em toda a sua extensão.
Nas proposições de tipo A e E, o termo relativo ao sujeito é universal. Com efeito, essas proporções referem-se a todos os elementos do conceito. Sendo assim, o sujeito encontra-se distribuído.
Nas proposições de tipo I e O, o termo referente ao sujeito é particular, refere-se apenas a alguns elementos. Como tal, não se encontra distribuído.
No que se refere ao predicado, ele apenas se encontra distribuído nas proposições negativas (E e O). Nas proposições afirmativas (A e I), não está distribuído. Para perceber a distribuição (ou não distribuição) do predicado, verifiquemos, nos seguintes exemplos, o quantificador que no-lo indica:

Nas proposições de tipo A
Todos os cães são mortais
Todos os cães são (alguns) mortais

Nas proposições de tipo E
Nenhuns homens são anjos
Nenhuns homens são (todos os) anjos

Nas proposições de tipo I
Alguns homens são santos
Alguns homens são (alguns) santos

Nas proposições de tipo O
Alguns homens não são peixes
Alguns homens não são (todos os) peixes

Sendo assim,

PROPOSIÇÕES ---------- SUJEITO -------- PREDICADO
A ---------- Distribuído -------- Não distribuído
E ---------- Distribuído -------- Distribuído
I ---------- Não distribuído -------- Não distribuído
O ---------- Não distribuído -------- Distribuído

Classificação de Proposições

1. Considere as proposições abaixo enunciadas
1.1. Reconduza à forma canónica
1.2. Classifique as proposições a partir do quadro lógico:
A E I O

1 Quase todos os portugueses gostam de futebol
2 Não há quem não goste de boa comida
3 Há alunos que não são estudiosos
4 Ninguém de bom senso se deixa prejudicar
5 Os cisnes não são negros
6 Há pessoas com sorte
7 Qualquer pessoa gosta de ir à praia
8 Todos os portugueses são simpáticos
9 Não há quem não goste de boa música
10 Nem todos os alunos são cábulas
11 As avós são óptimas cozinheiras
12 Nenhum veneno é saudável
13 Quem tudo quer tudo perde
14 Ninguém de bom senso gosta de violência
15 Não há mentirosos honestos

Clássicos da divulgação científica - 2

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Problema da semana - 01 09/10 - Lógica Formal

- Pode um raciocínio com uma proposição falsa ser válido?
Porquê?

- Pode um raciocínio válido com proposições verdadeiras ter uma conclusão falsa? Porquê?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

um poema

Poema de um matemático e poeta que nos recorda o probema da indução colocado por Hume e a relação entre pensar e ser...

AURORA

Nada garante
que o Sol nascerá amanhã
a não ser o costume
essa razão estatística
do inevitável.


que se o Sol não nascesse
não havia amanhã.


Joaquim Namorado

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Os media como força orientadora da sociedade e a legitimidade da sua comercialização

Ricardo Costa

Os media representam um elo de ligação entre várias áreas do espaço público. A sua função de transmissores de informação é, na sociedade actual, indispensável ao bom funcionamento de um país ou de uma determinada população; é impossível imaginar uma sociedade no século XXI em que o trânsito de informação com que contamos e do qual dependemos não exista, sem concluir fácil e irremediavelmente que o isolamento que daí adviria a conduziria ao declínio e destruição.
Desta forma é possível compreender a importância dos media na sociedade em que vivemos. No entanto, apesar de imprescindíveis, estes órgãos de comunicação estão muito longe da perfeição e os problemas da sua configuração no mundo começam a tornar-se mais óbvios com a emergência de outras fontes de informação, como a internet, e o aumento da consciência social das populações.
O maior desses problemas, a meu ver, advém exactamente do lugar de destaque que ocupam na percepção que muitos têm da realidade e na modelação da opinião pública geral. A liberdade de expressão e a privatização dos meios de comunicação, tão (justificadamente) aclamadas, trouxeram consigo uma completa remodelação, não só dos jornais e estações de televisão, mas também da forma como estes eram vistos pelo povo. Subitamente, a informação deixou de ser controlada pelo estado, e coube aos jornalistas e editores decidir o que devia e merecia ser transmitido; e enquanto que na sua maioria estas liberdades e mudanças foram aproveitadas de forma benéfica, há casos em que tal não se verifica.
Isto leva-me ao assunto que tenciono aqui discutir: será a função dos media na sociedade actual somente a de portadores e transmissores de informação?
Tomemos em consideração alguns factos: qualquer jornal ou estação televisiva é, com poucas excepções, uma entidade com fins lucrativos; sabemos também que os jornalistas, tal como os editores e quaisquer outros trabalhador de uma tal entidade, não são imparciais, pois tal é impossível dada a natureza humana; é também compreensível que há uma necessidade de filtragem e selecção da informação antes da sua transmissão.
Focando os piores casos, é possível – e até provável – que em determinadas situações o jornalista ou editor de um qualquer órgão de comunicação social, ao realizar a selecção das notícias sobre as quais incidirá a sua atenção, o faça com critérios deturpados, seja pelo ponto de vista do indivíduo em questão ou por motivos puramente económicos. Chega-se assim, e usando os tablóides como referência, à origem de notícias com importância cultural, política e social reduzida e à sua frequente predominância sobre outras, muitas vezes mais importantes, informações. Isto levanta o problema do surgimento deste tipo de notícias e da manutenção do interesse nelas, e enquanto não posso fazer juízos acerca de quem terá culpa do início desse fenómeno, parece-me óbvio o esforço dessa fracção dos media para manter e acentuar o que se me apresenta como uma clara adulteração das prioridades sociais e culturais de um povo. Por outro lado, e de forma mais grave, apresenta-se a possibilidade muito real da manipulação da informação. Seja involuntariamente por um simples lapso ou incorrecção, ou voluntariamente por conveniência, arrogância ou ganância, isto é algo que tem tido grande destaque hoje em dia, especialmente no mundo político, com declarações a serem distorcidas e manipuladas para favorecer os objectivos de alguns em detrimento de outros. Dessa forma torna-se óbvio a capacidade desses órgãos de comunicação de alterar e direccionar a opinião pública de formas negativas.
Apresenta-se-nos a solução parcial da conversão destes em entidades sem fins lucrativos, que possivelmente resolveria o problema da selecção de informação por motivos económicos, mas o problema da parcialidade e manipulação da informação permanece, de momento, insolúvel.

domingo, 28 de junho de 2009

O QUE é a ESTÉTICA?

Dicionário Escolar de Filosofia, org. por Aires Almeida (Lisboa: Plátano Ed)

Uma das disciplinas tradicionais da filosofia, que aborda um conjunto de problemas e conceitos por vezes muito diferentes entre si. A estética começou por ser sobretudo uma teoria do belo, depois passou a ser entendida como teoria do gosto e nos nossos dias é predominantemente identificada com a filosofia da arte. Há fortes razões para considerar que estas três formas de encarar a estética não são apenas diferentes maneiras de abordar os mesmos problemas. É certo que gostamos de coisas belas que também são arte, mas não deixa de ser verdade que as coisas que consideramos belas, aquelas de que gostamos e as que são arte, formam conjuntos distintos. Afinal, até é banal gostarmos de coisas que não são belas e muito menos arte; assim como podemos nomear obras de arte de que não gostamos nem consideramos belas.
Enquanto teoria do belo, a estética defronta-se com problemas como "O que é o belo?" e "Como chegamos a saber o que é o belo?". Estas são perguntas que já Platão colocava no séc. IV a.C. e que só indirectamente diziam respeito à arte, pois a arte consistia, para ele, na imitação das coisas belas. Razão pela qual Platão tinha uma opinião desfavorável à arte, ao contrário do seu contemporâneo Aristóteles, para quem a imitação de coisas belas tinha os seus próprios méritos.
Já para os filósofos do séc. XVIII, como Hume e Kant, é no campo da subjectividade que se encontra a resposta para o problema do belo. A estética transformou-se, assim, em teoria do gosto, cujo problema central passou a ser o de saber como justificamos os nossos gostos. O subjectivismo estético é a doutrina defendida por estes dois filósofos, embora com tonalidades diferentes. A doutrina rival é o objectivismo estético e é bem representado pelo filósofo americano contemporâneo Monroe Beardsley (1915–85), para quem o belo não depende dos gostos pessoais, mas da existência de certas características nas próprias coisas.
Finalmente, as revoluções artísticas dos dois últimos séculos, ao alargar de tal modo o universo de objectos que passaram a ser catalogados como arte, acabaram por despertar nos filósofos vários problemas que se tornaram o centro das disputas estéticas. É o caso dos problemas de filosofia da arte como "O que é arte?" e "Qual o valor da arte?", entre outros.
Dicionário Escolar de Filosofia, org. por Aires Almeida (Lisboa: Plátano, 2003

O GOSTO

Kant, Crítica da faculdade do Juízo

“O primeiro lugar-comum do gosto está contido na proposição com a qual cada pessoa sem gosto pensa precaver-se contra a censura: cada um tem o seu próprio gosto. Isto equivale a dizer que o princípio determinante deste juízo é simplesmente subjectivo (deleite ou dor) e que o juízo não tem nenhum direito ao necessário assentimento dos outros.
O segundo lugar-comum do gosto, que também é usado até por aqueles que concedem ao juízo de gosto o direito de expressar-se validamente por qualquer um, e: não se pode disputar sobre o gosto. O que equivale a dizer que o princípio determinante de um juízo de gosto na verdade pode ser também objectivo, mas que ele não se deixa conduzir a conceitos determinados; por conseguinte, que nada pode ser decidido sobre o próprio juízo através de provas, conquanto se possa perfeitamente e com direito discutir a esse respeito. (…) Vê-se facilmente que entre estes dois lugares-comuns falta uma proposição (…): pode-se discutir sobre o gosto (embora não disputar). Esta proposição contém porém o oposto da primeira. Pois sobre o que deva ser permitido discutir tem que haver esperança de chegar a um acordo entre as partes; por conseguinte, tem que se poder contar com fundamentos do juízo que não tenham validade simplesmente privada e portanto não sejam simplesmente subjectivos, ao que se contrapõe precisamente aquela proposição fundamental: cada um tem o seu próprio gosto.”

Kant, Crítica da faculdade do Juízo, §56

Da necessidade da argumentação

Isaque Manuel Nunes Tomé

2. A necessidade da argumentação
2.1. Razões e propósito da argumentação
Sendo certo que a lógica formal trata da validade do argumento, não trata de saber se a verdade suposta nas premissas é real ou se a verdade diz respeito a esta ou aquela teoria da verdade. Ou seja, se num raciocínio dedutivo supondo a verdade das premissas garantimos a verdade da conclusão, tal não implica a real verdade das premissas. Assim, quando a lógica formal afirma que a verdade é necessária para estabelecer a validade do próprio argumento, a verdade é uma verdade suposta. À lógica não interessa a questão da verdade, em si, das proposições – veja-se o anexo que mostra o raciocínio dedutivo a partir de premissas falsas, ou pelo menos discutíveis.
Existem domínios em que a verdade das proposições é de difícil estabelecimento, não é consensual, ou é até impossível de atingir, dada as características das proposições que remetem para modos de vida e cosmovisões.
A argumentação ocorre quando o conhecimento não é do domínio do absoluto e do verdadeiro. Ocorre quando existe incerteza, dúvida, prós e contras determinada tese. Ocorre sobretudo quando toca o domínio das decisões humanas que remetem para visões do mundo particulares, hierarquias de valores variáveis. Nas palavras de Olivier Reboul a argumentação “não se exerce senão nas situações de incerteza e de conflito, onde a verdade não está dada e não será atingida senão sob a forma do verosímil”.
Pelo contrário, numa demonstração dedutiva os axiomas não estão em discussão; sejam eles considerados como evidentes, como verdadeiros ou como simples hipóteses, não há qualquer preocupação em saber se eles são, ou não, aceites pelo auditório.

Pelo já dito, infere-se que há duas dimensões que escapam à validade e à lógica formal, 1.ª, a aceitabilidade da conclusão nos raciocínios não dedutivos e, 2.ª, a dimensão do conteúdo ou matéria das proposições.
A lógica informal procura, assim, dar conta destas duas dimensões onde
a) o ponto de partida são proposições discutíveis, onde existe incerteza e a aceitação do ponto de partida é a aceitação da proposição pelo valor que lhe é reconhecida (verdade ou qualquer outro);
b) as razões apresentadas para conduzir à aceitação desse ponto de partida não são constringentes – podendo o auditório não aceitar o ponto de partida mesmo aceitando o argumento.

Basicamente existe argumentação porque é preciso convencer alguém da verdade ou da razoabilidade de uma proposição, de tal maneira a que a ela adira. A argumentação ocorre no domínio do humano, no domínio em que os valores e as hierarquias axiológicas interferem nas decisões, no mundo em que a verdade de uma proposição pode não ser razão ou condição suficiente para que a ela se adira. Em última instância a argumentação visa a adesão do auditório. Convém não esquecer que os grandes problemas da decisão política, económica, social e ética dos homens e da humanidade concentram a sua resolução neste tipo de lógica.

Assim, enquanto a lógica formal pode ser garantir a validade e suportar uma verdade da conclusão, a lógica informal ajuda-nos num contexto mais complexo – porque ambíguo e variável em função das subjectividades em jogo – num contexto em que a verdade é um critério entre outros e onde o próprio critério de verdade está, muitas vezes, em discussão. A argumentação ocorre no domínio em que o homem deixa a verdade intersubjectivamente reconhecida e deixa o domínio de culturas fechadas que estabelecem uma tabela de valores e uma matriz de decisão simples e universal - o que ocorre em sociedades fechadas. Pelo contrário a sociedade em que vivemos é aberta, complexa, diversa e com tabelas de valores, referentes variáveis, processos de escolha complexos e múltiplos, daí a necessidade de ultrapassar a indecisão e a subjectividade, possível pelo espaço discursivo argumentativo.

2.2. A verdade, um entre muitos critérios de adesão
A adesão, tal como concebida por Perelman, é uma tarefa a desenvolver no auditório porque a verdade, como valor de verdade, a existir na proposição, é um critério que pode não ser suficiente para que o sujeito a ele adira. A adesão no domínio argumentativo não é uma mera adesão à verdade como no domínio meramente gnoseológico.
As razões para admitir ou rejeitar uma tese podem ser diversas. A verdade ou falsidade desta constituem unicamente um motivo de adesão ou de rejeição no meio de tantos outros: uma tese pode ser admitida ou afastada porque é ou não oportuna, socialmente útil, justa e equilibrada. Dito de outra forma, o auditório avalia as teses do orador tendo em conta diversos critérios. É neste sentido que falamos de pluralidade de critérios: os vários auditórios consoante o seu contexto têm diferentes critérios valorativos, e dentro de um mesmo auditório as pessoas que o compõem podem ter pontos de vista e escalas valorativas diferentes.

2.3. A adaptação do discurso ao auditório
Por esta razão, o orador, antes de iniciar o seu discurso, deve ter do seu auditório uma ideia tanto quanto possível próxima da realidade, uma vez que um erro sobre este ponto pode ser fatal para o efeito que ele quer produzir; é em função do auditório que toda a argumentação se deve organizar, se esta quiser ser eficaz. Assim é indispensável ao orador conhecer o auditório sobre o qual quer exercer a acção. O orador que queira agir eficazmente pelo seu discurso deve adaptar-se ao seu auditório. Em que consiste esta adaptação? Essencialmente, em o orador só poder escolher, como ponto de partida do seu raciocínio, teses admitidas por aqueles a que se dirige.
Ou seja, a contingência e a verosimilitude dos conhecimentos e teses defendidos na argumentação, bem como o facto desta se desenvolver num contexto particular e num domínio pessoal (onde têm influência as características individuais do orador e as características do auditório), faz com que o orador tenha de adaptar o seu discurso ao auditório (ás suas características intelectuais, socioprofissionais e culturais e outras). A adaptação da argumentação ao auditório visa não só que os argumentos sejam entendíveis, mas sobretudo que “joguem” (vão ao encontro) dos critérios valorativos do auditório, de forma a que se estabeleça uma ponte comunicacional e se facilite o acordo prévio (teses ou pontos de partida sobre os quais todos estão de acordo e que possibilita o diálogo e o confronto argumnetativo).
Com efeito, a finalidade da argumentação é transferir para as conclusões a adesão que é concedida às premissas. O orador só poderá partir de premissas que beneficiem de uma adesão suficiente: se esta adesão não for forte, a primeira preocupação daquele que quer persuadir deve ser a de a reforçar por todos os meios. Adaptar-se ao auditório é, sobretudo, escolher como premissas da argumentação as teses admitidas por este último.
É também de referir que o auditório tem legitimidade de contestação e tem o poder de utilizar a sua capacidade critica, assegurando uma relação horizontal entre orador e auditório. Ambos têm legitimidade e a ambos é reconhecida competência. Por ultimo deve atender-se que a argumentação se desenrola numa língua natural cuja ambiguidade não se encontra previamente excluída.

3. A necessidade da lógica informal
Em face da necessidade de usarmos a argumentação e em virtude desta ir além da dimensão formal e dedutiva dos argumentos – patente na demonstração, bem como pela natureza pouco circunscrita dos argumentos indutivos, é necessário conhecer e legitimar essa tipologia de argumentos não dedutivos. Aliás, o mundo actual, onde a comunicação impera sobre a mensagem, onde o oral se sobrepõe ao escrito e onde a imagem se sobrepõe à palavra, a argumentação se faz por gestos, subentendidos, e com grande suporte visual, quer nos casos de decisão com alcance pessoal - como é o caso da publicidade, quer na decisão com alcance colectivo – o domínio da propaganda, é imperativo práxico e político que na formação do cidadão esteja o conhecimento dos mecanismos de argumentação falaciosa.
A teoria da argumentação, designadamente a de Perelman , que abrange uma lógica informal, estuda:
a) as condições de aceitabilidade de uma argumentação, estuda as condições que tornam um discurso argumentativo um discurso convincente ou persuasivo.
b) os erros de raciocínio que tornam um argumento incorrecto ou inválido do ponto de vista da lógica informal: as falácias informais.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Filosofia: ensinar para a liberdade


UNESCO Study “Philosophy: A School of Freedom”



News 5 of 16
UNESCO publishes “Philosophy: A School of Freedom. Teaching philosophy and learning to philosophize: Status and prospects” - an innovative publication based on the results of a worldwide study and abounding with unprecedented recommendations and proposals on the teaching of philosophy.

Discovering the wonder of children when they face questions aroused by their encounter with reflective thought is the purpose of the first chapter of this publication. It offers a glimpse into an entirely new field of teaching: introducing philosophy at the pre-school and primary levels. Readers will discover the full significance of giving children both the opportunity and the space to tackle questions of a philosophical nature, including metaphysical ones, to which science cannot find answers. This aspiration urges us to reflect more profoundly on education, on learning, as well as on the role of teachers.

Encountering philosophy during adolescence proves to be such an important point in the memory of one’s educational career! Chapter II reveals the multiple facets of what the imprint left will be, a genuine creative potential. Readers will sense the pedagogical force of philosophy teaching at this turning point in people’s lives, when one’s personality seeks to construct itself. Teenagers who question, often opposing in order better to affirm themselves, this is the pattern of the evolution – revolution that the publication proposes to grasp with all its underlying paradoxes and contradictions.

Describing the vast field of philosophical reflection at university is the ambition of Chapter III. It grapples with all the complexity of philosophy teaching with its many facets and ramifications, as well as the variety of its intrinsic links with the defense of academic freedoms and of freedom of expression.

Drawing upon philosophy’s infinite resources is the aspiration of Chapter IV, by spelling out all the richness of alternative ways of philosophizing: other places, other needs, other responses…. These pages will not fail to surprise readers by the unexpectedness of the practices they describe, and also by the originality of twenty suggestions that call upon each and every one’s imagination and will to become involved.

Exploring the extent of philosophy through figures, quotes, graphics and statistics on the basis of the results of UNESCO’s questionnaire – this is what Chapter V is designed to do. In its way, it makes its contribution to reflecting the flourishing picture of philosophy.

Download the publication [PDF].

For more information, please contact the Human Sciences Section of Philosophy (UNESCO) at:
Tel.: +33 (01) 45 68 45 52
Fax: +33 (0) 1 45 68 57 29
E-mail: philosophy&human-sciences@unesco.org.

Related Links:

Download the publication in French [PDF]

Philosophy at UNESCO

terça-feira, 16 de junho de 2009

A importância do Espaço Público

FILOSOFIA NA CIDADE
A importância do Espaço Público numa Sociedade Democrática

Mafalda Koppensteiner

O homem é, por natureza, um animal político como o dizia o filósofo Aristóteles. Uma vez integrados numa sociedade, somos levados a participar nela, pensando no nosso papel como cidadãos e desenvolvendo uma atitude crítica sobre o que nos rodeia. Sendo seres dotados de razão, somos capazes de pensar por nós próprios e elaborar ideias que podem ser dialogadas no seio da nossa sociedade. Assim surge o espaço público que, de um modo geral, pode ser entendido como um local onde pessoas se reunem com o objectivo de criar uma opinião pública, um lugar ao qual qualquer cidadão pode aceder.
Na grécia Antiga apareceu a distinção entre o que era privado e o que era público, mas aqui o conceito de espaço público ainda não aparecera. Os cidadãos econtravam-se num local onde discutiam assuntos políticos, mas isto era restrito a um parte da população, já que as mulheres, escravos e estrangeiros não podiam participar. A génese do espaço público remete-se então para a idade moderna, aparecendo com muita força no século XVIII, pois é nesta época que se reúnem as conjunturas para a formação deste espaço e onde são respeitadas algumas condições. Sendo um espaço onde se gera um fluxo de ideias e que valoriza a liberdade individual, está, portanto, ligado à democracia.
Numa sociedade democrática os cidadãos são encarados como iguais perante a lei e são chamados, convidados a participar nas decisões dos interesses comuns. Sendo assim é fácil de perceber que o espaço público não nasceu antes da democracia, mas apresenta-se sim como uma consequência deste sistema político. É graças à liberdade de expressão que existem ideias diferentes que geram debates acesos, cuja úncia arma possível de ser utilizada é a argumentação. Existiria, pois, espaço público num regime autoritário? Certamente que não, ou se existisse seria controlado, uma vez que o cidadão não fala do que pensa, mas canta o que lhe mandam. Assim, umas das características do espaço público é permitir ao indivíduo pensar por si próprio, racionalizar já que é livre de usar a palavra de uma forma autónoma. São então nas suas características que reside a sua importância numa sociedade como a nossa.
Do meu ponto de vista, o espaço público contribui para a evolução das sociedades, pois é com o aparecimento de diversas ideias que se desenvolve a racionalidade do homem. Se nos voltarmos para os tempos de ditadura em que não há a liberdade de expressão, apercebemo-nos que as ideias existentes seguem uma úncia linha de pensamento, incutida pelo regime autoritário. Não há pois inovação noutros campos, mas sim uma estagnação, ficando as ideias adormecidas na mente e não podendo acordar pela inexistência do espaço público. E são essas ideias que são necessárias para a construção de uma sociedade melhor, já que quando pensamos numa esfera pública pensamos (em princípio), no que é melhor para todos.
O espaço público impede, pois, que as decisões de uma sociedade se façam por um só indivíduo, que assume o poder total e que decide sem ter em conta a opinião dos restantes. Daí que este espaço apenas exista numa democracia em que estão presentes as eleições e o direito ao voto. O indivíduo pode assim eleger um partido que lhe pareça o mais correcto para a concretização de uma sociedade melhor. O direito ao voto permite, então, que se ouçam as vozes do espaço público.
Em jeito de conclusão, aponto mais uma característica que torna o espaço público tão importante: ao pensarmos no melhor para a nossa sociedade, ao desenvolvermos uma atitude crítica, participamos activamente, e inserimo-nos em algo. Assim, na minha opinião, a existência do espaço público alimenta-nos racionalmente e alarga-nos os horizontes.
Já que somos animais políticos não seriamos indivíduos realizados sem o espaço público.

domingo, 14 de junho de 2009

Livros para Férias - 1

POLÍTICA PARA UM JOVEM - de Fernando Savater, Filósofo e Professor Espanhol

Uma iniciação à Política - conceitos básicos, pensamentos sustentados

Política para um Jovem

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Do PÚBLICO ... Cientistas portugueses invalidam um dos dogmas da biologia

04.06.2009 - 21h28 Ana Gerschenfeld

Há 270 milhões de anos, uns bocadinhos do património genético de diminutos fungos, que até lá não tinham nada de particular, começaram a sofrer uma mudança de identidade. Normalmente, os fungos, do género Candida – não deveriam ter sobrevivido a tal alteração genética – mas sobreviveram, ao ponto que são hoje os principais responsáveis pelas infecções fúngicas nos seres humanos. Como é que foi possível? A sequenciação dos genomas de uma série de espécies deste fungo permitiu agora explicar este aparente paradoxo.

O genoma dos seres vivos é uma grande molécula, feita do encadeamento de quatro moléculas de base, a que chamamos “letras” para respeitar a metáfora segundo a qual o genoma contém as “instruções” para a construção de cada tipo de organismo. Grosso modo, cada “palavra” de três letras consecutivas, ou “codão”, codifica um dos 20 aminoácidos, os tijolos de construção que as células vivas utilizam para fabricar as suas proteínas, componentes essenciais dos tecidos biológicos. Aminoácidos esses que o organismo vai buscar às proteínas animais contidas nos alimentos.

Desde a descoberta dos codões, há uns 50 anos atrás, pensava-se que essa correspondência codão-aminoácido – o chamado “código genético” – era comum a todos os organismos vivos, universal. O argumento era que, uma vez o código genético fixado, de uma vez por todas, nos primórdios da evolução das espécies, já não podia ser alterado sem consequências funestas para o organismo afectado.

No fim da década de 80, porém, Manuel Santos e a sua equipa da Universidade de Aveiro foram dos primeiros grupos do mundo a propor que isso não era bem assim: descobriram que as Candida conseguiram sobreviver apesar de ter sofrido uma alteração do seu código genético que deveria ter sido perfeitamente tóxica. Num trabalho hoje publicado em consórcio internacional na revista “Nature”, explicam pela primeira vez, graças à análise comparativa dos genomas de várias espécies diferentes de Candida, como é que essa “mudança de identidade” teve concretamente lugar.

“O nosso resultado tem implicações tremendas do ponto de vista biológico”, disse-nos em conversa telefónica Manuel Santos. “Significa que o código genético não é universal. Já tínhamos descoberto essas alterações há uns anos, mas com este estudo conseguimos perceber como é que essa evolução aconteceu.”

Basicamente, nas Candida, o codão que inicialmente mandava colocar no sítio correspondente da proteína em construção um aminoácido chamado leucina, passou a comandar a colocação de um outro aminoácido, a serina. E esta alteração do código genético “deveria ter sido letal”, repete Manuel Santos.

Mas esse codão não mudou repentinamente de identidade; pelo contrário, fê-lo muito gradualmente, ao longo de milhões de anos. “Há 270 milhões de anos, esse codão começou a mudar e adquiriu duas identidades diferentes”, diz ainda Manuel Santos. A maior parte das vezes, continuava a comandar a colocação de leucina, mas de vez em quando colocava serina. A seguir – e é este o segredo do sucesso da operação –, “durante 100 milhões de anos, esse codão desapareceu praticamente do genoma dos fungos. E quando reemergiu, com a sua segunda identidade, foi em posições onde já não era tóxico para os genes”. Um belo truque evolutivo.

Para que é que serve este tipo de alteração ao código genético? “Não sabemos”, responde-nos Manuel Santos. Mas acrescenta logo: “Estes fungos têm uma enorme necessidade de contornar o sistema imunitário humano. Uma possibilidade é que esta alteração do código genético seja um mecanismo compensatório destinado a aumentar a diversidade genética das Candida, que só muito raramente se reproduzem de forma sexuada”. Os organismos que apenas se reproduzem de forma assexuada formam colónias de clones, geneticamente idênticos – e portanto, têm dificuldade em resistir aos ataques do sistema imunitário dos seus hospedeiros.

Um outro dos aspectos agora esclarecidos por este trabalho prende-se precisamente com a reprodução destes fungos. “Há décadas que a reprodução sexuada dos fungos era objecto de intenso debate”, frisa Manuel Santos. “Pensava-se que não havia reprodução sexuada nestes organismos. Mas ela é importante para gerar diversidade genética. Agora, a sequenciação dos genomas de Candida clarificou definitivamente esta questão: algumas espécies possuem genes de reprodução sexuada e outras não. Contudo, naquelas que apresentam uma reprodução sexuada, ela só acontece muito raramente, sendo normalmente assexuada” – isto é, por fissão celular.

Do lado da medicina: perceber de onde vem o perigo

Normalmente, as candidíases manifestam-se como lesões cutâneas e podem ser facilmente tratadas com medicamentos antifúngicos. Mas, em caso de deficiência imunitária, podem ser letais, espalhando-se para o fígado, os pulmões, o cérebro. Põem em risco bebés prematuros, doentes transplantados, pessoas com HIV. E algumas espécies estão a tornar-se resistentes.

O que faz com que uma espécie de Candida seja patogénica e outra inócua? Este é um dos aspectos ainda pouco claros. Mas os resultados hoje publicados permitem começar a desvendar o mistério. “A sequenciação dos genomas e a sua comparação mostrou que as espécies patogénicas possuem um conjunto de genes envolvidos na patogénese” diz Manuel Santos, que liderou a participação portuguesa no trabalho.

Mais precisamente, o seu genoma contém um maior número de cópias de uma série de genes que codificam o fabrico de proteínas, chamadas adesinas, que comandam a síntese de proteínas da parede celular destes fungos. “São elas que interagem com as células humanas”, frisa Manuel Santos, “e isso é importante para a adaptação do fungo ao sistema imunitário do hospedeiro”, adaptação que condiciona a manutenção da infecção. “Este resultado é muito importante porque pode permitir desenvolver novos antifúngicos”, conclui.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A obra de arte e o absoluto

A arte pode ser a forma, de numa dimensão concreta, numa pintura, numa música, num poema, podermos aceder ou captar o universal: a obra de arte tem na sua singularidade uma capacidade de transcender essa singularidade, representando o universal. O beijo de Rodin, não é só uma escultura que representa dois amantes beijando-se, representa também um beijo terno e abandonado, na sua universalidade. É como se estivesse ali o beijo perfeito, o desprendimento amoroso ideal, tornando-se intemporal e simultaneamente entendível por todos como tal.
Será que quanto mais a obra de arte consegue ultrapassa essa dimensão concreta e representar ideais, universais, sentimentos, mais reconhecida é e mais consensual é?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A mais antiga Vénus - 40 000 anos

o Critério da Falsificação

«A investigação toma como ponto de partida os problemas. Para resolvê-los, há que inventar hipóteses que sirvam como tentativas de solução. Uma vez formuladas, há que comprovar as ditas hipóteses. E estas provam-se extraindo consequências delas e vendo se se ajustam ou não. Se se ajustam, dizemos que a hipótese, de momento, se confirma; pelo contrário, se pelo menos uma das consequências não se ajusta, diremos que a hipótese se vê falsificada. Por outras palavras, dado um problema P e uma teoria T que se propõe como solução para ele, dizemos: se T é verdadeira, então terão de se dar as consequências p1, p2, p3, ..., pn, que, se se ajustam, confirmam a teoria, e que, se não se ajustam, desmentem-na ou falseiam-na, isto é, demonstram que é falsa. Conclui-se assim que, para comprovar de facto uma teoria, ela tem de ser por princípio controlável, ou, por outras palavras, tem que ser falsificável, têm que poder-se extrair delas conse¬quências que podem refutar-se, isto é, que podem ser falsificáveis por factos. Se de uma teoria não se podem extrair consequências susceptíveis de um controlo fáctico, ela não é uma teoria científica. Isto não deve contudo esquecer que uma hipótese metafísica de hoje se pode converter numa hipótese científica amanhã (como sucedeu com a teoria atomista, que era metafísica nos tempos de Demócrito e se transformou em científica na época de Fermi).
O método dedutivo dos controlos consiste nesta extracção de consequências da teoria a controlar, e na sua comparação com as asserções de base (ou proto¬colos) que, de acordo com os nossos conhecimentos, descrevem os factos. Estes controlos, do ponto de vista lógico, nunca atingem um final definitivo, dado que por muitas confirmações que uma teoria tenha tido, ela nunca é algo certo de todo, na medida em que o próximo controlo a pode desmentir. Este facto lógico explica a história da ciência, na qual vemos teorias que resistiram durante muito tempo a ruírem perante o peso dos factos que se lhes opõem.
Na realidade, existe uma assimetria lógica entre verificação e falsificação: biliões e biliões de confir¬mações não convertem em certa uma teoria (por exemplo: “todos os pedaços de madeira flutuam na água”), ao passo que um único facto negativo (“este pedaço de ébano não flutua”) falsifica, do ponto de vista lógico, a teoria. Popper insere nesta assimetria o mandamento metodológico da falsificação: uma vez que toda a teoria, ainda que esteja verificada, pode ser desmenti da, há que tratar de falsificá-la, pois quanto mais cedo se encontrar um erro, mais cedo ele poderá ser eliminado com a invenção e a prova de uma teoria melhor do que a anterior. Deste modo, a epistemologia de Popper reconhece a força que caracteriza o erro. Como dizia Oscar Wilde, “a experiência é o nome que cada um de nós dá aos seus próprios erros”.
Isto permite-nos compreender o lugar central da noção de falsificação na epistemologia de Popper: “A um sistema científico, não lhe exigirei que seja capaz de ser escolhido, em sentido positivo, de uma vez por todas; mas exigir-lhe-ei que a sua forma lógica o permita pôr em evidência, mediante controlos empíricos, em sentido negativo: um sistema empírico deve poder ser refutado pela experiência.”»

G. Reale e D. Antiseri, Historia dei Pensamiento Filosófico e Científico, Tomo Tercero, Barcelona, Editorial Herder, 1992, pp. 894.895.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

o Problema da semana - 2/05

10.º Ano
nível 1
- é a justiça distributiva uma dimensão ética da política?

11.º Ano
nível 3
- a verdade reduz-se à certeza paradigmática, tal como o afirma Kuhn? ou isso não tem sentido, pelo menos nas ciências da natureza e quantitativas?
nível 4
- a verdade é confirmável, a verdade não é confirmável mas só a falsidade, a verdade é paradigmática e como tal não existe, a verdade é redutível ao estado psicológico,- já em desespero? - a verdade reduz-se a eficácia instrumental ou à coerência interna?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Problema da semana - 1/05


Kant
Filosofia 10.º
A) Porque é necessário, segundo Kant, a Lei moral, criada pela razão, surgir ao homem como imperativo?
B) Considerando a moral kantiana, em que medida/circunstância é um homem livre se não comer um bolo quando o pode fazer?
C) Comparando a ética kantiana e a ética utilitarista de Mill, como responderiam às seguintes situações:
1. como considerar a mentira?
2. como considerar a injustiça?
3. como decidir entre a verdade e a justiça?


S. Mill

Filosofia 11.º
A) Numa situação real de Física, de Química ou de Biologia, exemplificar a dedução de consequências no método hipotético-dedutivo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ciência - O Problema da sua Natureza - 2 - um texto de Bento Jesus Caraças



Foto de Bento Jesus Caraças, Matemático e escritor alentejano

«(...) O homem, na sua necessidade de lutar contra a natureza e no seu desejo de a dominar, foi levado, naturalmente, à observação e ao estudo dos fenómenos, procurando descobrir as suas causas e o seu desenca¬deamento.
Os resultados desse estudo, lentamente adquiridos e acumulados, vão constituindo o que, no decurso dos séculos da vida consciente da humanidade, se pôde designar pelo nome de ciência. O conhecimento científi¬co distingue-se, portanto, do conhecimento vulgar ou primário, no facto essencial seguinte: este satisfaz-se com o resultado imediato do fenómeno - uma pedra abandonada no ar, cai; uma leve pena de ave, abando¬nada no ar, paira ou sobe; aquele faz a pergunta porquê e procura uma resposta que dê uma explicação aceitável pelo nosso entendimento.
O objectivo final da ciência é, portanto, a formação de um quadro ordenado e explicativo dos fenómenos naturais, fenómenos do mundo físico e do mundo huma¬no, individual e social.


Duas são as exigências fundamentais a que esse quadro explicativo deve satisfazer:
l.ª - Exigência de compatibilidade. (...) Obediên¬cia ao princípio de acordo da razão consigo própria.
2.ª - Exigência de acordo com a realidade. Os homens pedem à ciência que lhes forneça um meio, não só de conhecer, mas de prever fenómenos - quanto maior for a possibilidade de previsão, maior será o domínio deles sobre a natureza; quem sabe prever sabe defender-se melhor e, além disso, pode provocar a repe¬tição para o seu uso, dos fenómenos naturais. A ciência deve ser considerada, acima de tudo, como um instru¬mento forjado pelos homens, instrumento activo de pene¬tração no desconhecido.
É evidente que, se as previsões fornecidas pelo qua¬dro explicativo não forem confirmadas pela realidade, esse quadro pode satisfazer altamente a primeira exi¬gência, mas nunca poderá ser o instrumento de que os homens necessitam.
Bento de Jesus Caraça, Conceitos Fundamentais de Matemática, Lisboa, 1975, pp. 107-109

Ciência - o problema da sua natureza - 1


Fotografia de Niels Bohr

A ciência não é um conhecimento natural. Não basta abrir os olhos ou ouvir alguém contar uma história para conhecermos cientificamente.

O conhecimento científico implica antes de mais uma vontade de conhecer, e em segundo lugar implica procurar a melhor forma de conhecer. Assim, propósito e método são dois aspectos centrais a que podemos acrescentar a dimensão conceptual do trabalho científico. A ciência é em primeiro lugar uma construção campo conceptual, que o artifício técnico ou experimental operacionaliza e valida.
As ciências procuram assim estar para lá da dimensão meramente empírica das qualidades subjectivas e psicológicas da realidade, procuram ultrapassar a carga subjectiva do próprio sujeito-cientista.
Esta concepção de ciência funciona relativamente bem nas ciências explicativas, orientadas para as leis físicas da natureza. Mas chegará para definir as ciências humanas como a Psicologia, a Antropologia ou a História? Estas ciências não se reduzem à dinâmica explicativa. Trabalham no interior de concepções e de paradigmas compreensivos, mutáveis e enquadráveis culturalmente. Daí que haja várias abordagens psicológicas, sociológicas ou históricas. Mas as ciências da natureza são puras? Não são afectadas pelo sujeito?

Éticas teleológicas e Éticas deontologicas

“Existem duas concepções distintas de [ética]: a teleológica e a deontológica. As [éticas] teleológicas (por exemplo, a aristotélica ou a utilitarista) consideram as consequências das nossas acções e julgam estas pelas suas consequências. Recomendam-nos que façamos uma coisa em vez de outra, porque ela contribui mais para a nossa felicidade (ou a de outros) do que outra. As [éticas] deontológicas, (como a kantiana) julgam as nossas acções independentemente das suas consequências e da sua contribuição para a felicidade, em função de presumidos deveres ou valores objectivos (...). Típico desta concepção é o conceito de dever – em grego déon, daí o adjectivo deontológico. A [ética] deontológica [postula a existência de] deveres e valores [aos quais estamos obrigados] a ajustar a nossa conduta [independentemente dos efeitos e custos que isso tenha em nós].”

J. Mosterin, Racionalidad y Acción Humana, Alianza, Madrid,1987, p. 34

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A retórica da imagem - 4



Com base num trabalho do 11.º B do Ricardo e do Ricardo

Como todo o discurso que visa persuadir tem um auditório a quem é dirigida a mensagem e ao qual há que a adaptar, tem também um objectivo, neste caso evidente: conduzir à compra do produto: lingerie Triumph.

O auditório – público-alvo - nesta publicidade são as mulheres (principalmente jovens).

Dimensões do anúncio:

Este anúncio possui, como a maioria, uma dimensão denotativa, neste caso o aspecto do produto que se deseja vender (a lingerie) e que deve agradar ao potencial cliente; e uma conotativa, o aspecto da modelo, com a qual as mulheres se quererão parecer, levando-as a comprar a lingerie.

O anúncio publicitário usa os meios de persusão já enunciados por Aristóteles:

O Ethos está presente de uma forma muito óbvia e propositada, usando a beleza, sensualidade e de uma modelo conhecida e reconhecida socialmente pela sua simpatia – em determinadas camadas sociais e etárias – propulsionando credibilidade ao anúncio. A própria marca merece confiança pela tradição.

O Pathos, enquanto a modelo e a montagem fotográfica transmitem a sensação de frescura, de leveza, de juventude. Desperta assim emoções agradáveis, com quem o auditório gosta de se identificar.

O cartaz publicitário apresenta ou associa a marca Triumph a valores implícitos como a beleza, frescura, leveza, alegria, juventude, etc. (o que não deixa de ser essencial numa marca de lingerie com muitos anos e que as jovens tendem a associar à roupa das suas mães e avós).

No domínio do Logos há uma proposição visível em letras pequenas mas destacadas com a cor vermelha que afirma da marca que ela é uma arte corporal. Esta proposição remete para um argumento implícito:

A lingerie da Triumph cria arte corporal (que significa que modela o corpo de acordo com padrões de beleza, pois o termo arte está associado, em termos sociológicos, ao de beleza); assim, se quiser ter um corpo modelado pela arte corporal, use lingerie da collection Best Of da Triumph..

Claro que pode-se considerar haver aqui uma falácia informal. Mas mesmo que assim seja considerado, promovendo a manipulação de quem faz associações descuidadas, o certo é que oferece um raciocínio do ponto de vista lógica formal válido.

A Publicidade é um bom exemplo de como apesar de haver argumentos formalmente válidos, ou o auditório aí ler argumentos válidos, poderem ser falaciosos do ponto de vista informal

É claro que todos os valores mais ou menos implícitos visam associar a marca a esses valores e permitem ao auditório criar essas identidades e, claro, raciocínios dedutivos ou indutivos a partir daí.

Neste caso temos a possibilidade de ter um raciocínio dedutivo, embora precedido de uma indução:

Se Cláudia Vieira usa lingerie Triumph e é sensual,
então a cliente usando lingerie Triumph tornar-se-à sensual.

P Q R ( P ∧ Q ) → ( R → Q )
V V V V V V
V V F V V V
V F V F V F
V F F F V V
F V V F V V
F V F F V V
F F V F V F
F F F F V V

Mas este argumento usa um outro - induz previamente ou pressupõe como ideia geral:

Quem usa lingerie Triumph é sensual,
a → b

(mas pergunta-se: é o sensual uma SEGUNDA CARACTERÍSTICA, permitindo compreender o argumento como analogia?)

Modus Ponens: a → b; a; ∴ b


Se o raciocínio antes exposto for traduzido num Modus Ponus e lhe aplicarmos o martelo semântico, temos o seguinte argumento válido – pois não existe nenhuma circunstância com premissas falsas e conclusão verdadeira:
a b a → b a b
V V V V V
V F F V F
F V V F V
F F V F V

terça-feira, 28 de abril de 2009

A retórica da imagem - 3 - sem comentários

Problema da semana - 1/04

Filosofia - 10.º Ano

Se o valor moral de uma acção se julga pela bondade da sua consequência em termos de felicidade global, será legítimo ser injusto se daí resultarem consequências boas?

Filosofia - 11.º Ano

Se a indução apresenta tantos problemas, podemos supor que a indução é um mal necessário? Ou a indução simplesmente não existe tal como afirma Popper?
Isaque Tomé

Ética Utilitarista - 2

O utilitarismo é o tipo mais bem conhecido de teoria ética consequencialista. O seu mais famoso defensor foi John Stuart Mill (1806-1873). O utilita¬rismo baseia-se no pressuposto de que o objectivo último de toda a actividade humana é (num certo sentido) a felicidade. Esta perspectiva é conhecida como hedonismo.
Um utilitarista define o "bem" como "seja o que for que trouxer a maior felicidade global". Isto é, por vezes, conhecido como o princípio da maior feli¬cidade ou princípio da utilidade. Para um utilitarista, a boa acção pode ser cal¬culada, em quaisquer circunstâncias, examinando as consequências prováveis dos vários cursos possíveis de acção. A boa acção é a que tiver mais probabili¬dades de trazer a maior felicidade nas circunstâncias, examinando as conse¬quências prováveis dos vários cursos possíveis de acção. A boa acção é a que tiver mais probabilidades de trazer a maior felicidade nas circunstâncias em causa (ou, pelo menos, mais felicidade do que infelicidade), seja ela qual for.
O utilitarismo tem de lidar com consequências prováveis, porque habitual¬mente é extremamente difícil, se não mesmo impossível, prever os resultados possíveis de uma acção específica: por exemplo, insultar pessoas provoca habi¬tualmente infelicidade, mas a pessoa que estamos a insultar pode ser um maso¬quista que tem imenso prazer em ser insultado.
Nigel Warburton, Elementos Básicos da Filosofia, Edições Gradiva, Lisboa, 1997, pp. 80-81

Problemas do Método Indutivo - 3 - A validação verificacionista

Este problema não é específico do método indutivo. Pode estar presente no método Hipotético-dedutivo.
O verificacionismo é
1)um critério de cientificidade - demarca o campo científico co campo não científico;
2) um critério de validação das hipóteses científicas.

O Problema do verificacionismo relaciona-se com os pressupostos positivistas que o animam: só é conheciemnto científico o que for empiricamente verificado.
Assim, confirmando uma hipótese, por novas observações, supõe-se a sua verdade.

Ora é nesta ideia de que é possível confirmar (verificar) a verdade de uma hipótese ou teoria que o verificacionismo apresenta problemas....

Porquê?

Problemas do Método Indutivo - 2 - O ponto de partida da observação

O primeiro grande problema que se coloca ao método indutivo diz respeito à observação: o facto de partir da observação.
Popper é um grande crítico desta ideia. Popper afirma que a observação é sempre efectuada a partir de teorias ou de um conjunto de conhecimentos prévios, que guiam e orientam a observação. São essas teorias prévias que permitem ao cientista fazer a focagem em determinado assunto e de determinada maneira. Pois se não houvesse teorias prévias como se saberia o que observar? Não só o cientista não saberia o que observar como não saberia como observar. Ou seja, cairia numa observação ingénua, de senso comum, que olharia descontraída e naturalmente para as coisas, como o fazemos no dia a dia. Ora a ciência não é uma actividade ‘natural’ do homem, é uma actividade artificial e como tal implica um acto de vontade, uma vontade e uma actividade crítica que procura não se deixar iludir pelo olhar natural e muito menos por meras associações mentais espontâneas que fazemos ao olhar para as coisas.

Problemas do método indutivo - 1- Indução - 1.2. - A não necessidade lógica da conclusão

Não há necessidade lógica na conclusão do raciocínio indutivo. Ou seja da verdade das premissas não se garante a verdade da conclusão. Em termos práticos este problema lógico traduz-se no problema seguinte: que legitimidade existe em concluir sobre o desconhecido a partir do conhecido? Do ponto de vista lógico não há legitimidade.
2.2. O que legitima passar de alguns casos conhecidos para todos os casos, conhecidos e desconhecidos? É o costume e a crença na regularidade da natureza como dizia Hume?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Problemas do Método Indutivo - 1 - a indução - 1.1. Um problema de fundamentação

“O princípio da indução não se pode justificar apelando simplesmente à lógica. Assim sendo, pareceria que o indutivista, de acordo com o seu próprio ponto de vista, deveria indicar como se pode derivar da experiência o princípio de indução. Como seria uma tal derivação? Provavelmente seria assim: observou-se que a indução funciona num grande número de ocasiões. Por exemplo, as leis da óptica, derivadas por indução dos resultados experimentados em laboratório, foram utilizadas em numerosas ocasiões para desenhar instrumentos ópticos e estes instrumentos funcionaram de modo satisfatório. (…)
Uma tal justificação da indução é completamente inaceitável, como a demonstrou David Hume em meados do século XVIII. A argumentação que pretende justificar a indução é circular, uma vez que emprega o mesmo tipo de argumentação indutiva, cuja validade se supõe que necessita de justificação.
A forma de argumentação justificatória é a seguinte:

O princípio de indução funcionou com êxito na ocasião x1
O princípio de indução funcionou com êxito na ocasião x2
etc.
_______________________________________________
O princípio de indução funciona sempre.

Aqui infere-se um enunciado universal que afirma a validade do princípio de indução a partir de certa quantidade de enunciados singulares que registam aplicações com êxito do princípio no passado. Portanto, a argumentação é indutiva, e não se pode, pois, utilizar para justificar o princípio de indução. Não podemos utilizar a indução para justificar a indução. Esta dificuldade foi denominada tradicionalmente como o “problema da indução”.”
A. F. Chalmers, Quê es esa cosa llamada ciência?, Madrid, Siglo XXI, 1990,pp.29-30

Análise da Publicidade 2