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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Moral e Ética


Enquanto a Moral se reporta a comportamentos concretos, de índole particular,
que pressupõem a coexistência da liberdade e da responsabilidade por parte daquele que
os leva a cabo, a Ética, de feição tendencialmente universal, diz respeito ao princípio
normativo daqueles comportamentos. A Ética é a base normativa da Moral, surgindo
depois da Moral, com capacidade para clarificar e, inclusive, rectificar os
comportamentos morais efectivos. Consideramos que os seres humanos não só agem
moralmente, como reflectem sobre esse(s) comportamento(s) prático(s), tomando-o(s)
como objecto da sua reflexão e do seu pensamento.

Barros Dias, Ética e Educação. UA, 2004.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Internet e Pirataria - artigo de Peter Singer


A ética da pirataria na Internet

13.02.2012 - 19:30 Por Peter Singer
No ano passado, disse a uma colega que incluiria a ética na Internet num curso que estava a leccionar. Ela sugeriu que lesse uma antologia publicada recentemente sobre ética na computação – e anexou o volume completo no e-mail. Deveria ter recusado ler um livro pirateado? Estaria eu a receber bens roubados, tal como os defensores de leis mais rigorosas contra a pirataria na Internet alegam?
Se roubar o livro de alguém, à maneira antiga, eu fico com livro e o verdadeiro proprietário deixa de o ter. Eu fico melhor, mas ele fica numa situação pior. Quando as pessoas utilizam livros pirateados, a editora e o autor ficam muitas vezes numa má situação – perdem receitas por não venderem o livro.

Mas, se a minha colega não me tivesse enviado o livro, eu requisitá-lo-ia na biblioteca da minha universidade. Poupei o tempo necessário para o fazer e parece que ninguém foi prejudicado. (Curiosamente, tendo em conta que o tema de conversa é o livro, este não se encontra à venda em formato digital.) Na verdade, outras pessoas também beneficiaram com a minha escolha: o livro permaneceu na prateleira da biblioteca, disponível para outros utilizadores.

Por outro lado, se o livro não estivesse na prateleira e se os outros utilizadores pedissem aos funcionários da biblioteca para o recuperar ou reservar, a biblioteca poderia ter em consideração a procura pelo livro e adquirir um outro exemplar. Mas existe apenas uma pequena probabilidade de que a minha utilização do livro persuadiria a biblioteca a comprar outro exemplar. E, em todo o caso, neste momento estamos muito longe dos casos normais de roubo.

Perguntei aos 300 alunos da minha classe de ética se algum deles não tinha transferido algo da Internet, sabendo ou suspeitando que estavam a violar os direitos de autor. Apenas cinco ou seis ergueram a mão. A maioria do restante grupo pensava que o que tinha feito era errado, mas disse que “toda a gente faz isso”. Outros disseram que não comprariam a música ou o livro, independentemente da situação, logo não estavam a prejudicar ninguém. Não parecia que algum deles estivesse preparado para deixar de o fazer.

O motivo para reforçar as leis dos direitos de autor foi fortalecido com os detalhes que surgiram após a detenção em Nova Zelândia, no mês passado, de Kim Dotcom (Kim Schmitz, nome de nascimento), fundador do site Megaupload (actualmente desactivado pelo FBI). O Megaupload permitiu que os seus 180 milhões de utilizadores registados carregassem e transferissem filmes, programas televisivos e música, sendo que algum do dinheiro ganho pelo Dotcom (a partir de publicidade e assinaturas) estava exposto na sua mansão perto de Auckland, onde mantinha o seu Rolls-Royce e outros carros exóticos.

O advogado de Dotcom alega que o Megaupload servia meramente para armazenar os arquivos dos assinantes e que não tinha qualquer controlo sobre o que era armazenado. Mas o site da Megaupload oferecia recompensas monetárias aos utilizadores cujos ficheiros carregados fossem populares para os outros utilizadores.

No mês passado, os Estados Unidos ponderaram a legislação destinada a impedir a pirataria na Internet. As propostas de lei foram redigidas devido à insistência dos estúdios de Hollywood e das indústrias editoriais e fonográficas, que afirmam que as violações dos direitos de autor na Internet custam 100 mil postos de trabalho norte-americanos. Os que se opõem dizem que a lei proposta iria chegar muito além dos sites como o Megaupload, tornando o Google e o YouTube responsáveis pela violação dos direitos de autor – e permitindo que o governo bloqueasse (sem autorização do tribunal) o acesso aos sites que considerasse facilitarem a violação dos direitos de autor.

Para já, activistas da Internet, juntamente com utilizadores do Google, do Facebook e outros principais intervenientes online, levaram a melhor, ao convencerem o Congresso dos EUA a arquivar a sua legislação anti-pirataria. Mas a luta continuará: no mês passado, a União Europeia e 22 Estados-membros assinaram o Acordo Comercial Anti-Contrafacção, que estabelece as normas internacionais e uma nova organização para fazer valer os direitos de propriedade intelectual. O contrato já foi assinado pela Austrália, pelo Canadá, pelo Japão, por Marrocos, pela Nova Zelândia, por Singapura e pelos EUA. Agora deve ser ratificado, entre outros, pelo Parlamento Europeu.Sou autor, assim como sou leitor. Uma das maravilhas da Internet é que alguns dos meus trabalhos mais antigos, há muito fora do mercado, nunca estiveram tão disponíveis como agora – em versões piratas. Obviamente, sou mais sortudo do que muitos outros autores ou artistas criativos, uma vez que o meu salário académico significa que não sou obrigado a depender apenas dos direitos de autor para sustentar a minha família. No entanto, não é difícil encontrar melhores fins para os meus rendimentos com os direitos de autor do que o estilo de vida prejudicial para o ambiente de Kim Dotcom. Temos de encontrar uma maneira de maximizar o potencial verdadeiramente espantoso da Internet, ao mesmo tempo que se recompensa devidamente os criadores.

A Austrália, o Canadá, Israel, a Nova Zelândia e muitos países europeus têm agora o direito de comodato, desenvolvido para compensar os autores e as editoras pela perda de vendas causada pela presença dos seus livros em bibliotecas públicas. Precisamos de algo semelhante para a Internet. Uma taxa de utilizador poderia compensar e, se a taxa fosse bastante baixa, diminuiria o incentivo para a utilização de cópias piratas. Juntem a taxa com a execução da lei contra o mega abuso dos sites e o problema pode ser solúvel. Caso contrário, as pessoas mais criativas terão de ganhar a vida com outra actividade em simultâneo e todos seremos perdedores.

Tradução de Deolinda Esteves/Project Syndicate

domingo, 20 de março de 2011

Aristóteles - Ética

Excertos da História da Filosofia de Nicola Abbagnano - Vol. 1


O prazer está ligado à vida que segue a virtude. Com efeito, ela é a verdadeira actividade do homem; e toda a actividade é acompanhada e coroada pelo prazer (Et. Nic., X 4, 1174 b). Os bens exteriores como a riqueza, o poder ou a beleza, podem, com a sua presença, facilitar a vida virtuosa ou torná-la mais difícil com a sua ausência: mas não podem determiná-la. A virtude e a maldade só dependem dos homens. Certamente o homem não escolhe o fim, que está nele por natureza, como uma luz que o guia, a julgar rectamente e a escolher o verdadeiro bem (111, 5, 1113 b). Mas a virtude depende precisamente da escolha que se faz dos meios, com vista ao fim supremo. E esta escolha é livre porque depende exclusivamente do homem. Com efeito, Aristóteles chama livre àquele que tem em si o princípio dos seus actos ou é "princípio de si próprio" (111, 3, 1112 b, 15-16). O homem é verdadeiramente livre neste sentido: enquanto é "o princípio e o pai dos seus actos como é dos seus filhos"; e quer a virtude quer o vício são manifestações desta liberdade (111, 5, 1113 b, 10 segs.).

Dado que no homem, além da parte racional da alma, há a parte apetitiva que, ainda que carecendo de razão, pode ser dominada e dirigida pela razão, assim há duas virtudes fundamentais: a primeira consiste no próprio exercício da razão e por isso é chamada intelectiva ou racional (dianoetica); a outra consiste no domínio da razão sobre os impulsos sensíveis, determina os bons costumes (ethos-mos), e por isso se chama virtude moral (Ética).

A virtude moral consiste na "disposição (hexis, habitatus) de escolher o justo meio (mesótes, mediocritas), adequado à nossa natureza, tal como é determinado pela razão e como poderia determiná-lo o sábio". O justo meio exclui os dois extremos viciosos que pecam um por excesso, o outro por defeito. Esta capacidade de escolha é uma potência (dynamis) que se aperfeiçoa e revigora com o exercício. Os seus diferentes aspectos constituem as várias virtudes éticas. A coragem, que é o justo meio entre a cobardia e a temeridade, gira em torno do que se deve e do que se não deve temer. A temperança, que é o justo meio entre a intemperança e a insensibilidade, diz respeito ao uso moderado dos prazeres. A liberalidade, que é o justo meio entre a avareza e a prodigalidade, diz respeito ao uso prudente das riquezas. A magnanimidade, que é o justo meio entre a vaidade e a humildade, concerne a recta opinião de si próprio. A benignidade, que é o justo meio entre a irascibilidade e a indolência, concerne à ira.

A principal entre as virtudes éticas é a justiça, à qual Aristóteles dedica um livro inteiro da Etica (Nicom., V = Eudem., IV). No significado mais gemi, isto é, como conformidade com as leis, a justiça não é uma virtude particular, mas a virtude total e perfeita. Efectivamente, o homem que respeita todas as leis é o homem completamente virtuoso. Mas, além deste significado geral, a justiça tem um significado específico e é então ou distributiva ou comutativa. A justiça distributiva é aquela que preside à distribuição das honras ou do dinheiro ou dos outros bens que usam dividir-se entre aqueles que pertencem à mesma comunidade. Tais bens devem ser distribuídos segundo os méritos de cada um. Porque a justiça distributiva é semelhante a uma proporção geométrica, na qual as recompensas distribuídas a duas pessoas se relacionam entre si com os seus méritos respectivos. A justiça comutativa, ao contrário, ocupa-se dos contratos, que podem ser voluntários ou involuntários. São contratos voluntários a compra, a venda, o empréstimo, o depósito, o aluguer, etc. Dos contratos involuntários alguns são fraudulentos como o furto, o malefício, a traição, os falsos testemunhos; outros são violentos, como as pancadas, o assassínio, a rapina, a injúria etc. A justiça comutativa é correctiva: procura equilibrar as vantagens e as desvantagens entre os dois contratantes. Nos contratos involuntários, a pena infligida ao réu deve ser proporcionada com o dano por ele provocado. Esta justiça é pois semelhante a uma proporção aritmética (igualdade pura e simples).

O direito funda-se sobre a justiça. Aristóteles distingue o direito privado do direito público, que concerne à vida social dos homens no estado, e divide o direito público em direito legítimo (ou positivo), que é aquele estabelecido nos vários estados, e o direito natural que conserva o seu valor em qualquer lugar, mesmo que não esteja sancionado pelas leis. Distingue do direito a equidade, que é uma correcção da lei mediante o direito natural, necessária pelo facto de que nem sempre, na formulação das leis, é possível determinar todos os casos, pelo que a sua aplicação resultaria às vezes injusta.
(...)
Dado que a virtude como actividade própria do homem é a própria felicidade, a felicidade mais alta consistirá na virtude mais alta e a virtude mais alta é a teorética, que culmina na sabedoria.
(...)
Platão não distinguia a sabedoria da prudência: com as duas palavras entendia a mesma coisa, isto é, a conduta racional da vida humana, especialmente da vida social (Rep. 428 b; 433 e). Aristóteles distingue e contrapõe as duas coisas. A prudência tem por objecto os assuntos humanos que são mutáveis e não podem ser incluídos entre as coisas muito elevadas; a sabedoria tem por objecto o ser necessário, que se liberta de todos os acontecimentos (Et. Nic., VI, 7, 1041 b. 11). Assim a distância que existe entre prudência e sabedoria é a mesma que ocorre entre o homem e o Deus.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ética, Política e Direito

Questão de partida:

O que é uma Sociedade Justa?

É possível uma Sociedade Justa?

É a Sociedade Justa uma expressão política da Ética normativa?

O Utilitarismo segundo Stuart Mill

Tenho de voltar a repetir que os adversários do utilitarismo raramente fizeram a justiça de reconhecer: a felicidade que os utilitaristas adoptaram como critério de moralidade da conduta não é a felicidade pessoal do agente mas a de todos os envolvidos na acção e nas suas consequências.
Assim, entre a felicidade pessoal e a felicidade dos outros, o utilitarismo exige do indivíduo que seja tão rigoroso e imparcial como um espectador desinteressado e de boa-fé. [...]
Fazer o que desejaríamos que nos fizessem, amar e respeitar o próximo como a mesmos; é isto que constitui a perfeição ideal da moral utilitarista. [...]
Cabe à moral dizer quais são os nossos deveres ou qual é o critério que nos permite reconhecê-los; mas nenhum sistema moral exige que o único motivo de todos os nossos actos seja o sentimento do dever. Pelo contrário, noventa e nove por cento dos nossos actos realizam-se por outros motivos e, no entanto, são actos morais desde que a regra do dever não os condene.
Aquele que salva um semelhante de morrer afogado pratica uma acção moralmente boa, quer o motivo da acção seja o dever quer seja a esperança de receber um pagamento.
Aquele que trai um amigo que depositou nele a sua confiança realiza um acto moralmente incorrecto, mesmo que a sua intenção seja a de ajudar um outro amigo a quem deve mais obrigações do que ao primeiro.
J. Stuart Mill, O Utilitarismo, Gallimard, Paris

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ética Kantiana - 2

Desafio:

Segundo Kant não tem valor moral uma acção que resulte da seguinte máxima: sempre que sentirmos compaixão devemos ajudarmos quem precisa.
Porquê?

Ética Kantiana - 1

Até Kant existem as chamadas éticas materiais e teleológicas:
- Materiais, porque o Bem ou o valor supremo tem um conteúdo, seja sob a forma de prazer, de felicidade, comunhão com Deus, etc., e impõe regras para se atingir esse bem.
- Teleológicas, porque o Bem é a recompensa, a finalidade a atingir por se ter determinada acção e se obedecer a determinadas regras. O dever não se impõe como um fim em si mesmo, mas o dever de realizar determinada acção visa um fim posterior.
Pelo contrário a moral Kantiana centra o bem, o valor moral, não na acção e muito menos na consequência, mas na intenção – moral formal e deontológica.

Segundo Kant a razão tem a capacidade de extrair de si uma Lei moral que rege o homem na sua acção.
A Lei Moral é uma criação da razão prática ou seja, é a razão na sua dimensão prática, de acção segundo padrões éticos, que dá a si mesmo a Lei do seu agir.
A lei moral tem as características da racionalidade: universalidade e necessidade.
A lei moral não tem um conteúdo, não aponta um bem específico como é o prazer, a felicidade, a utilidade, etc., presente noutras éticas. A lei moral é formal e apenas diz: “age de tal forma que a lei da tua acção se torne uma lei universal”.
Mas o homem não é só mente e razão, o homem tem um corpo e uma dimensão empírica, daí que surjam interesses exteriores à razão, inclinações, desejos, que ‘perturbam’ o cumprimento da lei moral.
Face a isto, o homem pode escolher obedecer, por um lado, à sua lei moral ou, por outro, às inclinações empíricas e a leis exteriores à sua razão. Ora se homem escolhe (livre arbítrio) agir pelos interesses exteriores à sua razão faz com que deixe de obedecer à sua própria razão e à sua vontade (autónoma). Neste caso a vontade deixa de se autodeterminar e passa a ser uma vontade heterónoma .
É pelo facto de o homem poder escolher um interesse exterior à sua razão, não cumprindo a Lei Moral, que esta surge como Imperativo Categórico. O Imperativo categórico é, então, uma imposição da razão a si mesmo, para que o homem escolha a sua própria lei. Ou seja, o homem manifesta uma vontade autónoma quando obedece à lei que a sua razão cria.
O Imperativo categórico traduz-se no dever que o homem sente. Mas mesmo assim, o homem pode não respeitar a sua lei e escolher as inclinações.
O Imperativo categórico opõe-se ao Imperativo hipotético. Neste caso o imperativo estabelece uma condição (ex: “se quiseres atingir o estado de ataraxia, vive moderadamente”; “se queres que tem respeitem, tens de respeitar”). A grande diferença é que o imperativo categórico impõe uma acção como tendo valor absoluto em si mesma, enquanto o imperativo hipotético impõe uma acção como condição para alcançar um fim exterior a esta mesma acção. Neste caso a acção é um meio e é relativa.
Tendo em conta o que foi dito o homem pode apresentar três tipos de acção:
a) Acção contra o dever; b) Acção conforme ao dever; c) Acção por dever.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Éticas Deontológicas VS Éticas Teleológicas

Onde podemos encontrar o valor moral da acção?
- nas Éticas Deontológicas: na intenção.
- nas Éticas Teleológicas: nas consequências.

O que permite considerar o valor moral da acção?
- nas Éticas Deontológicas: a intenção cumpre o Dever
- nas Éticas Teleológicas: a consequência produz felicidade (um efeito considerado Bom)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A dimensão pessoal da ÉTICA: a Intenção ética

“Creio que a primeira e indispensável condição ética é a de estarmos decididos a não viver de qualquer maneira: estarmos convencidos de que nem tudo vem a dar no mesmo, embora, mais tarde ou mais cedo, tenhamos que morrer. Quando se fala de "moral" pensa-se habitualmente a ordem e costumes que é hábito respeitar, pelo menos na aparência e muitas vezes sem que se saiba bem porquê. Mas talvez o busílis da questão não esteja em submeter-nos a um código ou em contrariar o estabelecido (o que também é submetermo-nos a um código, só que às avessas) mas tentar compreender. Compreender porque é que certos comportamentos nos convêm e outros não, compreender o que é que é a vida e o que é que a pode fazer "boa" para nós, seres humanos. Antes de mais, trata-se de não nos contentarmos com ser tidos por bons, como ficar bem frente aos demais, com que nos aprovem... Portanto, será necessário não nos limitarmos a observar à maneira do mocho ou com uma amedrontada obediência de autómatos, mas teremos que falar com os outros, apresentar certas razões e ouvir outras. O esforço de tomar a decisão terá que fazê-lo, porém, cada um de nós, solitariamente: ninguém pode ser livre por ti..”
Fernando Savater, Ética para um Jovem, Lisboa, Editorial Presença, 1994, pp. 63-64

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Moral e Ética

“Então, hoje, é o mesmo dizer "ética" ou "moral? Em sentido popular sim, mas num plano intelectual não é o mesmo.
A moral refere-se ao tipo de conduta regulada por costumes ou normas internas ao sujeito.
A ética é, em sentido académico, a "filosofia moral", ou a disciplina filosófica que estuda as regras morais e a sua fundamentação.
Em sentido mais amplo indica, usada como substantivo, aquela conduta moral sobre a qual somos capazes de raciocinar (O ministro actuou à margem de toda a ética).
Usada como adjectivo assinala, dum modo geral, a qualidade ética de qualquer acto ou norma moral (A demissão do ministro foi ética).
Enquanto a moral tende a ser particular, pelo carácter concreto dos seus objectos, a ética tende a ser universal, pela abstracção dos seus princípios. De acordo com isto podemos também estabelecer, ainda que dum modo negativo, que algo é "moral" quando se opõe ao "imoral" ou ao "amoral". Da mesma maneira algo é "ético" quando é contrário a qualquer conduta que carece de princípios, aos quais chamamos "injusta" ou "sem lei" e, em todo o caso, injustificada. (...)
Assim a ética não tem por missão fixar um conjunto de objectivos práticos, considerar a sua capacidade de realização, ou prever os resultados de uma atribuição de fins práticos. A sua tarefa consiste em averiguar as condições de possibilidade desses mesmos objectivos práticos que esta ou aquela “moral” poderá oferecer. Quer dizer, que deve estudar as regras que guiam a acção e provar a sua fundamentação. Depois disso poderá dizer se uma regra tem ou não “validade” para o comportamento moral.

N. Bilbeny, Aproximacion a la Ética, Ed. Ariel, Barcelona

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Kant e os 3 tipos de acção

OS TRÊS TIPOS DE ACÇÃO
Um comerciante pode praticar um preço injusto, incorrecto, ou praticar um preço justo, correcto. No primeiro caso é evidente que a sua acção é imoral, é injusta é uma acção má – sem valor moral.
Mas praticando o preço justo, correcto, a sua acção é necessariamente BOA, tem valor moral? Dito de outra forma: basta a sua acção ser correcta ou justa para ser BOA ou ter valor moral?
NÃO. Porquê?
Considerando o exemplo do comerciante que pratica o mesmo preço para todos os clientes, podemos perguntar porque se recusa a ser desonesto?
Temos duas Hipótese:
A) Será por cálculo e interesse que procede assim?
B) Ou será por respeito pela lei moral (racional e interna) que prescreve a honestidade?
De acordo com a Hipótese A) age correctamente para manter a reputação de honesto, ou para evitar a reputação de injusto, ganancioso, ou, ainda, para não perder a sua clientela, então age em conformidade com o dever, mas não por dever.
De acordo com a Hipótese B) age por respeito pelo dever.
Assim, temos 3 tipos de acção:
1) acção contra o dever: é o que acontece quando o comerciante explora os clientes, praticando preços abusivos. São acções que estão em contradição com o dever são, neste sentido, destituídas de valor moral.
2) acção conforme ao dever: é o caso do comerciante que não vende os produtos mais caros para não sofrer as consequências, podia ser prejudicado posteriormente. Esta acção também não tem valor moral porque ela não passa de um meio para o comerciante obter um determinado fim, exterior à acção. Neste caso o comerciante não agiu unicamente por obediência ao dever, apenas agiu de acordo ou em conformidade com a lei permanecendo no plano da legalidade. Agiu por interesse pessoal.
3) acção por respeito ao dever: a moralidade exige que se actue unicamente por respeito à lei moral, por dever. É o caso do comerciante que não vende caro porque sabe que esse é o seu dever. só assim cumpre a lei moral que a sua razão criou.
Para Kant estas são as verdadeiras acções morais, pois o valor reside na intenção que anima a acção. Sendo praticadas por respeito ao dever, a acção constitui um fim em si mesmo e não um meio para obter uma recompensa (exterior e consequência posterior).Isto significa que o homem só age bem se actuar por dever. E agir por dever é agir por respeito à lei moral e não por submissão às consequências ou ao fim a atingir.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ética e acção humana

Desafio para o 10.º ano:

Pode um Gato desenvolver uma acção moralmente boa?
Porquê?

Norma moral e Ética

O primeiro aspecto que devemos deixar claro é que a ética de um homem livre nada tem a ver com os castigos ou os prémios distribuídos por qualquer autoridade que seja – autoridade humana ou divina, para o caso tanto faz. Aquele que se limita a fugir ao castigo e a procurar a recompensa que outros dispensam, segundo normas por eles estabelecidas, não goza de condição melhor do que a de um pobre escravo. Talvez a uma criança pequena bastem o pau e a cenoura como guias de conduta, mas para alguém já mais crescidote torna-se muito triste continuar com essa mentalidade.
(...)
“Moral” é conjunto de condutas e normas que tu, eu e alguns dos que nos rodeiam costumamos aceitar como válidas; “Ética” é a reflexão sobre o porquê de as considerarmos válidas, bem como a sua comparação com as outras “morais”, assumidas por pessoas diferentes.”

Fernando Savater, Ética para um Jovem, Editorial Presença, Lisboa, 1994, pp. 41-42

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Potencialidades tecnológicas e questões éticas


Britânica engravida de marido morto

Mulher britânica engravida de marido morto há dois anos. Objectivo cumprir o velho sonho do casal.

Cândida Santos Silva
16:37 Terça-feira, 2 de Fev de 2010

Mulher britânica engravida de marido morto há dois anos. Objectivo: cumprir o velho sonho do casal. Kelly Bowen, do País de Gales, teve filhos gémeos quase dois anos depois da morte do marido. As crianças foram concebidas com esperma congelado do marido, Gavin, falecido em Abril de 2008, aos 22 anos, vítima de cancro.
O casal já tinha outro filho, nascido em Outubro de 2007, após um tratamento de fertilização, quando a Gavin já tinha sido diagnosticada a doença oncológica.

"Por causa do tratamento de quimioterapia, o meu marido congelou esperma e tivemos um filho, Shay, por inseminação artificial em Outubro de 2007", contou Kelly, de 25 anos, ao jornal local "Glamorgan Gazette". "Antes que morresse, decidimos que queríamos um irmão ou uma irmã para Shay, mas ele morreu muito pouco tempo depois. Para cumprir esse sonho, avancei sozinha". No último dia do ano nasceram Ruby Gravie e Chaise Gavin.

http://aeiou.expresso.pt/britanica-engravida-de-marido-morto=f561483

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Éticas teleológicas e Éticas deontologicas

“Existem duas concepções distintas de [ética]: a teleológica e a deontológica. As [éticas] teleológicas (por exemplo, a aristotélica ou a utilitarista) consideram as consequências das nossas acções e julgam estas pelas suas consequências. Recomendam-nos que façamos uma coisa em vez de outra, porque ela contribui mais para a nossa felicidade (ou a de outros) do que outra. As [éticas] deontológicas, (como a kantiana) julgam as nossas acções independentemente das suas consequências e da sua contribuição para a felicidade, em função de presumidos deveres ou valores objectivos (...). Típico desta concepção é o conceito de dever – em grego déon, daí o adjectivo deontológico. A [ética] deontológica [postula a existência de] deveres e valores [aos quais estamos obrigados] a ajustar a nossa conduta [independentemente dos efeitos e custos que isso tenha em nós].”

J. Mosterin, Racionalidad y Acción Humana, Alianza, Madrid,1987, p. 34

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ética Utilitarista - 2

O utilitarismo é o tipo mais bem conhecido de teoria ética consequencialista. O seu mais famoso defensor foi John Stuart Mill (1806-1873). O utilita¬rismo baseia-se no pressuposto de que o objectivo último de toda a actividade humana é (num certo sentido) a felicidade. Esta perspectiva é conhecida como hedonismo.
Um utilitarista define o "bem" como "seja o que for que trouxer a maior felicidade global". Isto é, por vezes, conhecido como o princípio da maior feli¬cidade ou princípio da utilidade. Para um utilitarista, a boa acção pode ser cal¬culada, em quaisquer circunstâncias, examinando as consequências prováveis dos vários cursos possíveis de acção. A boa acção é a que tiver mais probabili¬dades de trazer a maior felicidade nas circunstâncias, examinando as conse¬quências prováveis dos vários cursos possíveis de acção. A boa acção é a que tiver mais probabilidades de trazer a maior felicidade nas circunstâncias em causa (ou, pelo menos, mais felicidade do que infelicidade), seja ela qual for.
O utilitarismo tem de lidar com consequências prováveis, porque habitual¬mente é extremamente difícil, se não mesmo impossível, prever os resultados possíveis de uma acção específica: por exemplo, insultar pessoas provoca habi¬tualmente infelicidade, mas a pessoa que estamos a insultar pode ser um maso¬quista que tem imenso prazer em ser insultado.
Nigel Warburton, Elementos Básicos da Filosofia, Edições Gradiva, Lisboa, 1997, pp. 80-81